Modelação biomecânica e do rendimento nos 100m rasos: comparação entre o recorde do mundo de Usain Bolt e da europa de Francis Obikwelu

MODELAÇÃO BIOMECÂNICA E DO RENDIMENTO NOS 100M RASOS: COMPARAÇÃO ENTRE O RECORDE DO MUNDO DE USAIN BOLT E DA EUROPA DE FRANCIS OBIKWELU

 

Pedro Forte1

Daniel A. Marinho1

Mário C. Marques1

Victor M. Reis1

Juan J. González-Badillo1

Tiago M. Barbosa1

1Centro de Investigação em Desporto, Saúde e Desenvolvimento Humano da Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro (UTAD), Portugal.

RESUMO

Foi objetivo deste estudo: (i) exemplificar o tipo de análise biomecânica que é possível realizar in loco durante grandes competições internacionais por analistas desportivos no Atletismo; (ii) caracterizar e analisar o rendimento e a biomecânica das provas dos 100m rasos dos recordistas do mundo e da europa com recurso a procedimentos analíticos; (iii) comparar os desempenhos dos dois recordistas. A amostra foi constituída pelo recordista do mundo (Usain Bolt, Jamaica) e pelo recordista europeu (Francis Obikwelu, Portugal) dos 100m rasos. A modelação do rendimento foi efetuada com base num modelo quasi-físico, considerando que a prova inclui a fase de partida (fs), a fase de manutenção (fm), a influência da velocidade (fv) e do arrasto (fd). A modelação biomecânica recorreu à análise cinemática por medição do tempo de contato com o solo (tc) e de voo (tf) dos apoios, frequência gestual (FG) e distância de ciclo (DC). A análise cinética recorreu à estimativa do pico de força de reação ao solo (Fmax), da rigidez vertical (kvertical) e rigidez do membro inferior (kleg) de acordo com um modelo de massa-mola. Da modelação do rendimento, confirmou-se que Francis Obikwelu tem uma partida mais lenta (fs) e Bolt uma menor taxa de desaceleração (fm) ao longo da prova. A fv e por consequência a fd foram superiores no jamaicano. Bolt apresentou uma DC superior, FG e tc ligeiramente inferior a Francis Obikwelu. A Fmax foi superior no jamaicano em quase toda a prova (Bolt: 3.68-4.23; Francis: 3.65-4.06 vezes o peso corporal). Francis evidenciou uma maior ∆y em praticamente 0,5cm e ∆L 5-10cm que Bolt. A kvertical e kleg foram significativamente mais elevados no Bolt ao longo de praticamente toda a prova, com exceção do último parcial.

Palavras-chave: Atletismo, cinética, cinemática, modelo quási-físico, sistema massa-mola

 

INTRODUÇÃO

Jogos Olímpicos (JO), Campeonatos do Mundo e da Europa são o grande palco onde atletas procuram estar no pico da forma. São momentos únicos para países fazerem uma análise do nível de desenvolvimento dos seus sistemas desportivos, científicos e tecnológicos. Hoje em dia, atletas de alta competição devem ser apoiados por uma equipa multidisciplinar. Os analistas desportivos, com sólida formação em ciências do desporto são parte essencial fornecendo dados quantitativos de diagnóstico, prescrição e previsão de rendimentos.

O Atletismo é a competição rainha dos JO. Na última década Portugal tem vindo afirmar-se de forma superior nas provas mais técnicas e tecnologicamente exigentes (saltos e velocidade) em detrimento daquelas em que tinha mais tradição (meio-fundo e fundo). Para a sustentabilidade destes resultados e para que não sejam considerados como fatores casuísticos ou ditados por fatores individuais, será necessário a implementação de processos de controle e avaliação do treino e competição, auxiliados pelos analistas desportivos. Esta é pelo menos a realidade em outros países e sistemas desportivos que desenvolveram há algum tempo estruturas de apoio aos seus atletas de elite e que se encontram de forma consistente no topo.

No caso dos biomecânicos, estes analistas podem socorrer-se de três processos para o diagnóstico, prescrição e previsão da performance e seus fatores determinantes: (i) metodologias experimentais; (ii) simulações numéricas; (iii) procedimentos analíticos de modelação. Se os dois primeiros podem ser usados em situação de treino ou estágio, existe uma forte limitação em contexto competitivo. Ora, é no contexto competitivo que o atleta expressará potencialmente o seu melhor rendimento e necessitará de dados para correção futura do desempenho. Para tal, os biomecânicos poderão desenvolver e aplicar modelos quasi-físico e afins (i.e. procedimentos analíticos). Estão descritos alguns procedimentos que quando devidamente adaptados serão particularmente úteis para partilhar dados pertinentes sobre a performance e a biomecânica de atletas1,2,3. Tanto quanto sabemos a modelação da performance de atletas de alta competição portuguesa nunca foi realizada. Sendo os 100m a prova máxima dos JO e tendo Portugal inclusive já obtido uma medalha de prata surge a oportunidade de se efetuar essa análise. Será de interesse conhecer com detalhe o desenvolvimento dos diferentes componentes da prova de 100m dos recordistas do mundo (Usain Bolt, Jamaica) e da Europa (Francis Obikwelu, Portugal). Também será oportuno uma análise biomecânica mais detalhada das respectivas provas com recurso à modelação referida anteriormente. Apenas um estudo analisou estas variáveis no recordista do mundo, mas apenas parcialmente entre os 60 e os 80m4. Contudo, as parciais antes dos 60m e por vezes a parcial final entre os 80 e os 100m são determinantes numa prova deste tipo e nunca foram analisados.

É objetivo deste estudo: (i) exemplificar o tipo de análise biomecânica que é possível realizar in loco durante grandes competições internacionais por analistas desportivos no Atletismo; (ii) caracterizar e analisar a performance e a biomecânica das provas dos 100m dos recordistas do mundo e da europa com recurso a procedimentos analíticos; e (iii) comparar os desempenhos dos dois recordistas. São hipóteses a testar que é possível: (i) fornecer aos atletas poucos minutos após o seu desempenho em grandes provas internacionais dados objetivos e pertinentes do seu desempenho; (ii) diagnosticar os pontos fortes e fracos das provas dos dois recordistas a partir da análise da performance ao longo da prova, da análise cinemática e cinética após respetivas modelações; e (iii) identificar os pontos-chave na prova e na biomecânica que serão distintivos entre o recordista do mundo e da europa.

METODOLOGIA

Amostra

A amostra foi constituída pelo recordista do mundo e pelo recordista europeu dos 100m. O recordista do mundo à data desta investigação era Usain Bolt (UB, 1,96m, 94kg; dados obtido online) da Jamaica com o tempo de 9.58s (vento: +0.9m/s) obtido nos campeonatos do mundo de Berlim em 2009. O recordista da Europa era Francis Obikwelu (FO, 1,95m, 80kg; comunicação pessoal do atleta) de Portugal com o tempo de 9.86s (vento: +0.6m/s) nos JO de Atenas em 2004. O trabalho está de acordo com a Declaração de Helsínquia no que toca ao estudo com seres humanos.

Modelação do rendimento desportivo

O rendimento nos 100m é determinado pelo tempo (t) despendido para cumprir tal distância (d) e, portanto, influenciado pela velocidade:

Capturar

O velocista deve atingir uma velocidade maximal tão cedo quanto possível. Ou seja, a aceleração (a) que é governada pela segunda lei do movimento determina que as forças mecânicas (F) em jogo e componentes inerciais como a massa (m) são variáveis exógenas:

Capturar1

As forças mecânicas a atuar ou produzem propulsão (Fprop) ou resistência (Fresist), pelo que a equação 2 pode ser detalhada para:

Capturar3

As forças propulsivas incluem a fase de partida (fs) e a de manutenção (fm); já a resistência prevê a influência da velocidade (fv) e do arrasto (fd)1:

Capturar4

Funções velocidade-tempo [v(t)] ou velocidade-distância [v(d)] das provas podem ser obtidas online e em relatórios técnicos5. Habitualmente estes dados são recolhidos com recurso a sistema doppler ou outras técnicas experimentais (p.e. vídeo ou time gates).

A fs descreve o momento da partida, da posição engrupada à vertical considerando a magnitude da partida (fo=6.10N/kg) e a constante σ (2.22s-2):

Capturar5

A fm representa a capacidade do velocista em manter a aceleração, e portanto a taxa de perda de velocidade ao longo da prova, em que f1 é 5.15N/kg e c a constante 0.0385 s-1:

Capturar6

A fv é um termo que modela os limites humanos para atingir uma determinada velocidade máxima (v) em função do tempo (t) e da constante α que define o limite humano (0.0323 s-1 se a frequência gestual for 4 a 5 Hz):

Capturar7

Por fim, a fd é o termo que considera a resistência do ar. Este inclui a modificação da área da posição engrupada à vertical na partida. Será necessário ter como inputs a densidade do ar (r), a área corporal (A), coeficiente de arrasto (Cd), massa corporal (BM), velocidade (v) e o tempo (t):

Capturar8

A área e o coeficiente de arrasto foram estimados de acordo com o procedimento descrito por Gómez et al.6. A aceleração obtida foi submetida a integração para estimação da velocidade e esta última integrada novamente para determinação das parciais a cada 20m:

Capturar9-10

O tempo final de prova também foi estimado para a teórica ausência de vento (tc) em função da velocidade do vento (vw) e do tempo oficial obtido (tw):

Capturar11

Análise biomecânica

Recorreu-se ao descarregamento dos vídeos das provas que se podem encontrar disponíveis online. A análise cinemática foi efetuada com recurso ao Kinovea (v.0.8.15, França).

A análise cinemática incluiu a medição do tempo de contato com o solo (tc) e de voo (tf) dos apoios (ICC=0.98). Com estes tempos, calculou-se a frequência gestual (FG). Combinando as velocidades instantâneas recolhidas previamente da literatura ou online e a FG, calculou-se a distância de ciclo (DC):

Capturar12

A análise cinética recorreu à estimativa do pico de força de reação ao solo (Fmax), da rigidez vertical (i.e., stifness, kvertical) e rigidez do membro inferior (MI) (kleg) de acordo com o modelo de massa-mola (i.e., spring-mass model) descrito por Morin et al.2:

Capturar13-14-15

Em que ∆y é a oscilação vertical do centro de massa e ∆L a alteração da distância entre o solo e a articulação coxofemoral (i.e. comprimento do MI):

Capturar17-18

O comprimento do MI na posição ortostática foi estimado como sendo 53% da estatura dos sujeitos7. Estudos prévios indicam um viés entre a rigidez medida com procedimentos gold-standard (i.e. cinemetria e plataforma de forças) com este modelo. Dos vários modelos disponíveis na literatura8, o de Morin et al.2 apresentou o melhor ajuste (ICC=0.901)9. Ainda assim, procedeu-se à respectiva correção de acordo com o factor 1.0496 como sugerido pelos autores9.

Análise estatística

Testaram-se os resultados biomecânicos obtidos por via de testes de hipótese nula do tipo não paramétrica, após análise exploratória dos dados [teste de Shapiro-Wilk para determinação da normalidade em que YÇ N (mY|X1,X2,…,XK, s2)].

A comparação entre cada velocista das variáveis selecionadas a cada parcial de 20m foi efetuada com recurso ao teste de rankings Mann-Whitney U (P <0.05). Os dados são descritos enquanto médias e um desvio-padrão (i.e. para um intervalo de confiança de 68%. Para um nível de confiança de 95%, bastará a multiplicação por 2 do desvio-padrão).

Complementarmente, os tamanhos dos efeitos (i.e. effect sizes) foram calculados através do “d de Cohen” (efeito pequeno: 0≤|d|≤0.2; efeito moderado: 0.2<|d|≤0.5; efeito elevado: |d|>0.5).

RESULTADOS

Modelação do rendimento desportivo

Figura 1 ilustra a comparação entre a velocidade medida experimentalmente5 e a modelada com recurso ao procedimento descrito na metodologia (equações 4 a 10) para o UB. Qualitativamente o perfil é substancialmente igual, existindo uma concordância entre resultados experimentais e analíticos. Quantificando o ajuste, o ICC foi de 0.97 (95% intervalo de confiança: 0.75-0-99; 1% de diferença no tempo final de prova).

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Figura 1. Comparação entre a velocidade medida experimentalmente e modelada a partir das equações 4 a 10 para Usain Bolt.

Os quatro termos da modelação do sprint são apresentados na figura 2. As escalas dos eixos das ordenadas e abcissas foram mantidas iguais nos quatro painéis para ser possível a comparação dos diferentes termos em cada velocista e também entre velocistas. Após os 5-10m, a fs é negligenciável. Verifica-se uma perda constante da fm ao longo de toda a prova. A fv e a fd, com forte relação com a velocidade, tendem a aumentar até por volta dos 30-40m e depois estabilizar. A fs é o componente mais importante nos primeiros 5m. Entre aproximadamente os 5-40m a fm é o componente mais determinante. Após a marca dos 40m, a fv é o componente a tomar em consideração. A fd é o componente com um menor papel do ponto de vista parcial, ao longo de toda a prova.

Comparando os dois velocistas, a fs prolonga-se por mais 2-3 metros no FO do que no UB. As perdas ao longo da prova (i.e. fm) são superiores no FO. A fv e por consequência a fd são superiores no UB. Genericamente parece que o FO tem uma partida mais lenta e o UB tem uma menor taxa de desaceleração ao longo da prova. A maior resistência do ar estará relacionada com a velocidade atingida pelo UB mas também pelas suas maiores dimensões corporais, embora os dados estarem relativizados à antropometria dos sujeitos.

De acordo com a equação 11, estimou-se que o tempo de prova na ausência de vento seria de 9.62s para UB (i.e. desvantagem de 0.04s) e de 9.89s (desvantagem de 0.03s) para FO.

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Figura 2. Comparação da modelação da prova dos 100m planos entre Usain Bolt (linha preta) e Francis Obikwelu (linha cinza).

Análise biomecânica

Após modelação da prova e um diagnóstico prévio dos principais fatores determinantes do rendimento obtido, segue-se a análise mais detalhada da biomecânica. A figura 3 apresenta a comparação da variação da cinemática entre os dois velocistas, a cada parcial de 20m. UB foi significativamente mais veloz entre os 40 e os 100m, com exceção do parcial 60-80m (0.02≤P≤0.04) sendo os efeitos dos tamanhos muito elevados em todas as parciais (0.74≤|d|≤6.01). A DC e a FG foram significativamente diferentes entre os 40 e os 80m (DC: P=0.02, 4.22≤|d|≤3.46; FG: P=0.03, 2.33≤|d|≤2.51). A DC apesar de não ser estatisticamente significativa na parcial 0-20m está próximo da área de rejeição (i.e., P=0.07) e apresenta um efeito do tamanho elevado (|d|=0.97) pelo que não deve ser negligenciada. O tc e tf foram genericamente superiores no caso do FO (tc: 0.01≤P≤0.14, 0.84≤|d|≤5.77; tf: 0.01≤P≤0.55, 0.73≤|d|≤8.66). Logo, a maior velocidade de UB poderá estar relacionada com uma maior DC, ligeiramente inferior FG e tc.

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Figura 3. Comparação da variação da cinemática da passada ao longo da prova dos 100m entre Usain Bolt (linha preta) e Francis Obikwelu (linha cinzenta). * P<0.05 entre os dois velocistas.

Para um melhor entendimento da resposta cinemática, será necessário uma análise da respectiva cinética (Figura 4). A Fmax foi significativamente superior no UB, exceto na última parcial (0.01≤P≤0.02, 0.13≤|d|≤5.72). Entre os 40 e os 80m estimou-se uma Fmax entre 3.68 e 4.23 vezes o peso corporal. Já no caso de FO a estimativa quedou-se entre 3.65 e 4.06, sendo o valor mais elevado atingido no último parcial, com 4.81 vezes o peso corporal. A ∆L e a ∆y foram significativamente superiores no FO na segunda metade da prova (∆L: 0.01≤P≤0.46, 0.36≤|d|≤16.13; ∆y: 0.01≤P≤0.14, 0.78≤|d|≤6.17). Ou seja, FO parece evidenciar uma maior oscilação vertical do que UB. A rigidez vertical e do MI foram significativamente mais elevados no UB à exceção do último parcial (Kvertical: 0.02≤P≤0.04, 1.46≤|d|≤11.55; Kleg: 0.02≤P≤0.03, 1.43≤|d|≤10.64). Portanto, UB apresentará um sistema de absorção, reutilização de energia elástica e uma resposta neuromuscular mais eficiente que FO.

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DISCUSSÃO

Da análise da performance ao longo da prova, confirmou-se que FO tem uma partida mais lenta (fs) e o UB tem uma menor taxa de desaceleração (fm). Fica claro que o perfil dos últimos 2s de prova de UB são diferentes do resto, não tanto por constrangimentos biomecânicos ou fisiológicos mas devido à celebração antecipada. Há estimativas que sem essa celebração o tempo final seria de 9.55±0.04s para um intervalo de confiança 95%10. A taxa de aumento da fv é mais acentuada entre os 2.5m e os 45m para UB. FO apresenta um desenvolvimento da aceleração nesse parcial mais lento. Os últimos metros da prova foram decisivos para a obtenção da medalha de prata de FO. A fd é superior no UB, devido à velocidade e às suas características antropométricas. Globalmente, o fator distintivo entre os dois serão os primeiros 25-30m de prova. Tanto quanto sabemos este tipo de análise nunca foi realizada em medalhados olímpicos, pelo que é difícil a comparação com a literatura. A maioria dos estudos se restringe a análises básicas de tempos parciais de prova11. Comparativamente com os resultados apresentados pelo próprio Mureika1, UB e FO apresentam rendimentos superiores em todos os parâmetros.

Estimou-se que o tempo de prova caso não houvesse vento fosse de 9.62s para UB e de 9.89s para FO. Este tipo de análise é relevante perante determinadas condições atmosféricas que possam variar bastante ao longo de uma competição12. Assim, será possível estimar as variações da performance p.e. entre eliminatórias, semifinais e final, de acordo com o vento registrado em diferentes sessões.

UB apresentou uma DC superior, ligeiramente menor FG e tc do que FO. A Fmax foi superior no UB (UB: 3.68-4.23; FB: 3.65-4.06 vezes o peso corporal) exceto na última parcial. Os valores estimados estão de acordo com a outra modelação disponível na literatura4 e dados experimentais13. Contudo, existe evidência que a Fmax e respectivo impulso mecânico é que são determinantes para se atingir elevadas velocidades14. O comportamento de FO e UB confirmam este fato. Não tendo sido objetivo deste estudo é possível estimar e modelar a potência metabólica15 ou trabalho mecânico externo16 produzidos. Um menor tc e FG induzem um aumento da potência metabólica e trabalho mecânico. Será de especular que UB produzirá uma maior potência metabólica e trabalho mecânico externo do que FO.

De acordo com a literatura, o rendimento relaciona-se com uma maior Kvertical sendo o efeito do Kleg residual17. Estes dados confirmam a maior Kvertical e Kleg no UB do que no FO. Pelo menos para a parcial 60-80m os resultados aproximam-se do reportado4; embora não tenham efetuado a correção sugerida9. De acordo com as equações 14 e 15, a rigidez depende do aumento da Fmax (superior no UB) e da diminuição da ∆y e ∆L (inferiores no UB). FO evidenciou maior oscilação vertical do corpo que UB em praticamente 0,5cm até aos 80m. Já a ∆L foi inferior em quase 5-10cm no UB. Estes resultados foram tendencialmente ou significativamente diferentes, mas sempre com elevados efeitos dos tamanhos. A Kvertical e Kleg são representativas da capacidade de absorção e reutilização da energia elástica18. Portanto, UB apresentou um sistema de absorção, reutilização de energia elástica e uma resposta neuromuscular mais eficiente que o FO afetando o rendimento.

São limitações deste estudo: (i) os dados experimentais foram obtidos online. Um analista que esteja in loco poderá recolher dados com uma maior qualidade, de acordo com os parâmetros a analisar; (ii) os procedimentos analíticos apresentam sempre algum viés que é desejável minimizar, o que foi efetuado; (iii) foi realizada a análise da prova dos 100m. No entanto, o mesmo racional e diferentes modelos podem ser usados para outras provas de velocidade e saltos e outros desportos olímpicos onde Portugal obtêm resultados de nível internacional (p.e., canoagem, remo, ciclismo, triatlo, natação).

CONCLUSÕES

É possível fornecer aos atletas poucos minutos após a prova em competições internacionais dados objetivos e pertinentes do seu desempenho. Neste estudo ilustrou-se tal fato com o desempenho de UB e FO na prova de 100m.

Estimou-se que o tempo de prova caso não houvesse vento fosse de 9.62s para UB e de 9.89s para FO. Da análise da performance confirmou-se que FO tem uma partida mais lenta e o UB tem uma menor taxa de desaceleração ao longo da prova.

UB apresentou uma DC superior, FG e tc ligeiramente inferior a FO. A Fmax foi superior no UB em quase toda a prova (3.68-4.23 vs. FB: 3.65-4.06 vezes o peso corporal). FO evidenciou uma maior ∆y em praticamente 0,5cm e ∆L 5-10cm que UB. Por consequência disto, UB apresentou um sistema de absorção, reutilização de energia elástica e uma resposta neuromuscular mais eficiente que FO, explicando o tempo oficial obtido.

 

BIBLIOGRADIA

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Direction of attentional focus on response time in block departure in Athletics

Direção do foco atencional no tempo de resposta na partida do bloco no Atletismo

José Vasconcelos-Raposo1, Estefânia Sá2

1.University of Trás-os-Montes and Alto Douro, INESC TECH, (UTAD) Portugal.

2.University of Trás-os-Montes and Alto Douro, (UTAD) Portugal.

INTRODUÇÃO

Com este trabalho pretendemos, de alguma forma, contribuir para um conhecimento mais efetivo, sobre as questões subjacentes aos contributos que a psicologia do desporto pode efetivamente dar para a melhoria do rendimento dos atletas, potenciando as suas capacidades físicas.

Para o propósito do presente estudo, tomamos em consideração os processos atencionais, nomeadamente os que se prendem com o que designamos de foco atencional. O nosso objetivo é demonstrar que com a correta orientação do foco atencional do atleta, por exemplo, no caso da partida nas provas de velocidade no atletismo, é possível reduzir o “tempo de resposta” na partida com blocos.

Uma das questões centrais com que a Psicologia do Desporto debate é a receptividade por parte dos treinadores para recorrerem aos contributos de um psicólogo do desporto. Se bem que o número de psicólogos a trabalhar com equipes tenha vindo a aumentar ao longo dos anos, a intervenção destes é ainda reduzida. As explicações para tal fenômeno são várias. No entanto, parece que uma das mais significativas é a reduzida informação de que os treinadores dispõem sobre os reais contributos que a psicologia pode dar para a melhoria do rendimento dos atletas. O outro lado desta medalha mostra-nos que os psicólogos também não têm sido eficazes na divulgação dos seus saberes e contributos para o rendimento desportivo. Quando o fazem, fazem-no com a preocupação de satisfazer os requisitos acadêmicos essenciais à progressão das suas carreiras. As implicações deste último aspecto são que a “leturalibilidade” dos documentos publicados é inadequada para a maioria dos agentes desportivos que intervêm no processo de treino desportivo.

De acordo com Mannie (1997) o sucesso de um programa de treino para a partida depende, em grande parte, do tempo de resposta do atleta. Por tempo de resposta deve entender-se: o tempo que leva um atleta a “identificar o estímulo, iniciar e completar a ação associada ao estímulo (informação) que lhe é apresentado (no seu componente corporal e mental)”. Neste sentido, definimos o tempo de resposta como sendo constituído pelo tempo de reação e pelo tempo de movimento de uma ação motora previamente treinada.

No que se refere à partida de blocos, nas provas de velocidade na modalidade de atletismo, sabemos que o tempo de reação é secundário ao tempo de resposta. Mannie (1997), refere que não existe uma relação direta entre o tempo de reação e o tempo de prova, não sendo o mesmo verdade na relação que existe entre tempo de resposta e tempo de prova. O autor afirma que apenas o segundo toma em consideração os componentes que influenciam diretamente o tempo de movimento, nomeadamente no que se refere à antecipação das adaptações necessárias às fases seguintes da corrida.

Assim, para o propósito do presente estudo, concentramos os nossos esforços no estudo do tempo de resposta dos atletas não tendo qualquer preocupação em quantificar o tempo de reação. Com o propósito de tornar evidente a relação existente entre a direção do foco atencional e os valores do tempo de resposta procuraram estabelecer uma relação entre o tipo de foco atencional e os tempos de resposta.

Este trabalho representa o retomar de uma linha de investigação na área da aplicação de alguns princípios psicofisiológicos ao rendimento desportivo. De acordo com trabalhos realizados anteriormente, Vasconcelos-Raposo, Freitas e Morais (1990), prevemos uma redução no tempo de resposta. Como consequência de um programa de treino de controle atencional centrado no ponto de foco interno. Por ponto de foco interno entendemos a sensação física mais facilmente reconhecida pelo atleta em associação à ação motora que imediatamente se lhe segue.

A revisão da literatura que segue serve um duplo propósito. Em primeiro lugar, procura evidenciar os aspectos que mais diretamente parecem estar associados a fenômenos que nos propomos estudar. Em segundo lugar, é também uma forma de alertar os nossos eventuais leitores para o caráter exploratório deste tipo de trabalho, na medida em que as possíveis inferências causais requerem um maior número de variáveis a serem tomadas em consideração. Assim, de seguida apresentamos alguns estudos relativamente a algumas das variáveis que à priori consideramos ser prioritário tomar em consideração, nomeadamente a velocidade de reação, os sistemas de processamento de informação e a concentração.

Velocidade de reação

De todas as formas de manifestação da velocidade a que está mais condicionada geneticamente é a velocidade de reação (Carvalho, 1988). A velocidade de reação é a capacidade do sistema neuromuscular reagir a um dado estímulo no menor espaço de tempo. Podemos, ainda, definir este conceito como tempo de reação (TR), ou seja, o tempo que decorre entre a apresentação de um estímulo e o início da resposta solicitada pelo sujeito. Existe uma multiplicidade de fatores que contribuem para que o mesmo sujeito apresente diferentes TR em função da modalidade sensorial solicitada.

Esta resposta ao estímulo pode ser definida em dois tipos, consoante ao conhecimento ou não da origem do estímulo (Castelo, Barreto, Alves, Mil-Homens Santos, Carvalho & Vieira, 1996). Assim, temos o tempo de reação simples (TRs), onde o atleta previamente conhece a resposta que tem de dar ao estímulo. No tempo de reação complexa (TRc), o estímulo é desconhecido assim como o momento e circunstância em que ocorrerá.

O TRs implica uma resposta única a um estímulo já conhecido (Manso, Valdivielso, Caballero, & Acero, 1998). Um exemplo imediato, que nos permite ilustrar esta capacidade, é a resposta ao disparo do juiz de partida de uma prova de velocidade.

Para o propósito deste estudo estudaremos o tempo de resposta, que é composto pelo tempo de reação e pelo tempo de movimento específico a uma tarefa. No caso da partida em atletismo o tempo de movimento (TM) é quantificado a partir do momento em que se pode identificar o início da contração muscular e termina quando o ciclo gestual é finalizado (no caso da partida de blocos quando o pé da frente sair do bloco). São fatores fundamentais para o tempo de movimento os aspectos musculares e energéticos. Esta capacidade humana é treinável. Por esta razão, julgamos ser pertinente investigar o tempo de resposta, tal como este se alicerça nos processos do foco atencional.

Na literatura especializada reconhecem-se cinco fases para o tempo de reação simples, são elas:

  1. O tempo que o receptor demora em captar o estímulo, ou seja, o tempo que medeia à ocorrência do estímulo até à recepção do mesmo pelo indivíduo. Este componente está intimamente relacionado com a capacidade de concentração. Quanto maior for a capacidade de concentração, menor será o TR (Pérez & Enciso, 1987);
  2. O tempo que o estímulo demora a percorrer a via aferente, ou seja, o tempo que decorre desde o estímulo chegar ao receptor da zona cerebral de cada modalidade sensorial. Este aspecto relacionado com a velocidade de condução do impulso nervoso (aspecto que não pode ser treinado);
  3. O tempo de elaboração da resposta, ou seja, seleção de uma resposta correta ou idônea entre toda a gama de experiências armazenadas na memória (é a fase do TRs que se pode desenvolver de melhor forma, através do treino);
  4. O tempo que o estímulo demora a percorrer a via eferente até chegar à placa motora (fator muito estável que apenas se pode alterar minimamente com o processo de treino);
  5. O tempo que decorre em estimular o músculo, ou seja, em se dar início à contração.

As quatro (4) primeiras fases denominam-se de tempo de reação pré-motriz e constituem 75-85% do TR total. A quinta (5ª) é fase denominada de tempo de reação motriz (fase de execução) e abarca o período compreendido desde que o impulso trespassa a placa motora até que se dá início ao movimento. De acordo com Manso et al. (1998) a esta fase corresponde 15 a 25% do TR total.

Os valores do TR estão diretamente ligados à maturação do SNC e diminuem com a idade. De acordo com Surwillo (1996) e Manso et al. (1998) os melhores valores de TR são conseguidos pelos indivíduos com idades compreendidas entre os 18 e 25 anos. Apesar de que os indivíduos com idades entre os 10 e os 13 anos já tenham valores semelhantes aos dos adultos. Na opinião de Carvalho (1998) os resultados práticos nos valores da TR devem-se fundamentalmente a uma cada vez melhor habilidade de controle atencional (leia-se concentração).

O TRs varia consoante a natureza do estímulo e do receptor específico que afetam (Matveev, 1986; Manso et al, 1998). Por exemplo, da revisão da literatura, constatamos que as respostas aos estímulos auditivos obtêm valores de TR que são mais baixos do que os estímulos visuais (Matveev, 1986; Pérez & Enciso, 1987; Manso et al, 1998). Estes dados são confirmados pelo estudo de Vasconcelos-Raposo, Freitas e Morais (1990), que compararam os tempos de reação obtidos como resposta a estímulos auditivos e visuais por estudantes praticantes de várias modalidades desportivas.

Sistema de processamento de informação

O sistema de processamento de informação contêm apenas um estímulo e uma resposta, mas há um largo número de operações mentais entre as duas. O mecanismo geral de processamento da informação (Bakker, 1990) (aparece na figura 1).

Na forma mais elementar, o sistema de processamento de informação envolve o armazenamento de informação na memória, reutilização desta e a execução do movimento em resposta à informação (Cox, 1990).

O modelo mais simples de tratamento de informação envolve um receptor, um efetor e um único neurônio entre eles e no qual as falhas entre os elementos são as sinapses. Se o R (receptor) estivesse diretamente ligado ao E (efetor), o sistema não teria flexibilidade, uma vez que E estaria sempre à mercê de R (Surwillo, 1986).

Assim, a intervenção de outros neurônios no ponto “x” (ver figura 2), permite que a resposta do efetor seja modulada, tanto pela variação do grau de excitabilidade do neurônio como pela introdução de outro neurônio nesse ponto “x”, como mostra a figura 3. O neurônio “b” (ver figura 3), é referenciado como o neurônio “gating”, isto porque permite que exista, em conjunto com o neurônio “a”, um meio externo de modelar a resposta do efetor sem alterar a sua sensibilidade (Surwillo, 1986).

Figura 1. Sistema de processamento de informação no organismo humano (adaptado de Bakker, 1990).

 

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Figura 2. Configuração simples dos elementos num modelo de comportamento simples. As áreas a sombreado representam as junções ou sinapses entre os elementos (adaptado de Surwillo, 1986).

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Sem o sistema de controlo dos neurônios “gating”, o “timing” da resposta do efetor em todos os sistemas seria determinado somente pela excitabilidade dos neurônios envolvidos e estaria sempre sob o controle dos diferentes e variados estímulos que bombardeiam o organismo.

Figura 3. Modelo de comportamento simples mostrado na figura 2 com a adição do neurónio b, o neurónio “gating” (adaptado de Surwillo, 1986).

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Pela hipótese colocada por Surwillo (1986), o processo atencional é em tudo igual, em termos fisiológicos ao sinal do neurônio “gating”. Daí tornar-se importante conhecermos o processo atencional.

Outro conceito em que alicerçamos a nossa proposta teórica para a potenciação do tempo de resposta é o de sistema “reverbatório” e que está intimamente associado ao processo de organização da informação a vários níveis da memória sem que para o efeito envolva um número excessivo de neurônios e consequentemente a velocidade de processamento das respostas solicitadas para as tarefas a serem realizadas seja maior. Este conceito foi apresentado pela primeira vez por Lorence de Nó em 1938. A discussão dos nossos dados é uma breve descrição de como traduzimos este conceito para a prática desportiva.

Concentração

Testemunhos como “mantem os teus olhos na bola”, “concentre-se”, “ouve com atenção”, “se mantem alerta”, “presta atenção”, são comumente ouvidos e usados pelos treinadores, espectadores e atletas. Isto implica que a percepção (atenção particular para a informação disponível no meio ambiente), seja importante para a performance atlética humana (Nideffer, 1986; Straub & Williams, 1984). Assim como a atenção é decisiva para o TRs, torna-se importante definirmos a atenção dentro do contexto desportivo.

A atenção pode ser vista como o elemento central da concentração, uma vez que é ela que permite a focalização da atividade mental; um foco é seletivo, filtrador e divisível (Summers & Ford, 1995). A atenção é o processo que dirige a nossa alerta para a informação que vai estando disponível para os nossos sentidos. É, portanto, o processo que leva os atletas a dirigir e manter as suas “consciências” nos estímulos percebidos (Viana & Cruz, 1996).

A atenção refere-se à concentração e focalização do esforço mental em determinadas fontes da informação, ignorando outras. No desporto a habilidade de focar a atenção na tarefa, nos aspectos determinantes e simultaneamente de filtrar a informação é crucial para uma ótima performance (Summers & Ford, 1995).

A atenção segundo Summers & Ford (1995) apresentam três (3) dimensões: a Direção: refere-se à fonte do estímulo a que se atende. A Intensidade: quanta atenção é prestada à direção escolhida. A Flexibilidade: alteração da direção e intensidade requerida.

A direção do foco atencional pode ter origem no exterior (olhar a bola, focar um alvo) ou no interior do indivíduo (refere-se a pensamentos, “imagery”, sensações cenestésicas, enfim sensações internas). No caso do nosso estudo, a execução prévia de um comando motor, tendo por base um elemento seletivo na condição de execução e a presença de um estímulo interno previamente definido. Uma vez programada a resposta, fazemos depender o início da mesma da identificação do sinal da partida, que neste caso é o correspondente ao neurônio de Gating. Para que haja uma plena potenciação do tempo de resposta devemos definir o ponto de foco externo, ou seja, o local onde o atleta deseja realizar o seu primeiro apoio após a saída dos blocos. Este último aspecto não foi contemplado para o propósito do presente estudo, uma vez que requer intervenção ao nível da biomecânica e preparação física ao que se refere à força máxima.

O modelo atencional de Nideffer (1986), sugere que a atenção do indivíduo poder ser descrita, em qualquer momento, segundo duas coordenadas contínuas: direção e amplitude (ver figura 4). São-nos apresentadas quatro (4) tipos de atenção, a ampla externa (que serve para avaliar rapidamente determinadas condições do meio), a ampla interna (analisa retrospectivamente uma situação e permite planejar uma estratégia de resposta), estreito interno (que serve para preparar os gestos a realizar), e estreita externa (para executar a estratégia escolhida).

Viana e Cruz (1996), apresentam alguns exemplos dos tipos de atenção requerida em alguns desportos ou modalidades desportivas, dentro dos quais salientamos a modalidade de velocidade no atletismo, onde o foco atencional deve ser primeiramente estreito interno e depois estreito externo. O estreito interno (preparar) refere-se à tensão muscular que se deve sentir antes de se ouvir o tiro da pistola, e depois a estreita externa (executar) que se refere ao tiro (Vasconcelos-Raposo, Freitas & Morais, 1990).

Figura 4. Dimensões da atenção (adaptado de Viana & Cruz, 1996).

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Daí que seja fundamental orientarmos os atletas no sentido de saberem direcionar o seu foco atencional, que passa em tudo pelo treino mental, pela visualização e pelo treino técnico associado à preparação psicológica para a competição.

Metodologia

Um trabalho deste tipo, quando realizado no contexto em que foi, requer que a sua divulgação seja feita com o maior dos escrúpulos, daí que nunca seja de mais, ao longo do mesmo, reforçar o seu caráter exploratório. De seguida procuramos informar o leitor sobre as várias componentes que possibilitaram, assim como as que limitam a nossa capacidade para generalizar os resultados obtidos. Os equipamentos utilizados não foram os mais adequados para a investigação pura. De qualquer forma ela alicerça-se numa das nossas intenções que é de desenvolver metodologias que sejam suficientemente simples e que possam ser aplicadas pelos treinadores e outros técnicos que não dispõem da tecnologia suficientemente sofisticada para realizar os trabalhos típicos da investigação acadêmica. De qualquer forma, quer no processamento quer no tratamento dos dados, assim como na divulgação dos resultados, procuramos fazê-lo com todas as reservas necessárias para o contexto acadêmico. Porém, estamos confiantes que os pressupostos teóricos em que nos fundamentamos são sólidos e como tal merecedores de uma maior atenção por parte dos investigadores, especialmente aqueles que estão interessados no contributo da psicologia e da psicofisiologia para o rendimento desportivo, razões pelas quais nos propomos divulgar os resultados.

Caracterização da Amostra

A amostra, do tipo intencional e de conveniência, foi constituída por alunos da Licenciatura em Educação Física e Desporto, que frequentavam a disciplina do terceiro (3º) ano em Psicologia do Desporto. Esta amostra foi selecionada por ser nesta disciplina que se aborda a temática subjacente a este trabalho e de existir a oportunidade de recolher os dados com uma maior disponibilidade por parte dos alunos para realizarem as tarefas desejáveis de uma forma consciente, ou colaborante. Para além deste aspecto há, ainda, a considerar que a disciplina de atletismo precede a de psicologia.

Se tomarmos por base que mais de 80% dos estudos publicados nas revistas de maior prestígio da Psicologia têm como amostra os alunos do primeiro e segundo ano de frequência universitária, poderíamos aceitar esta amostra como adequada. Porém, se a preocupação central for o contributo para a melhoria do rendimento desportivo, esta serve apenas o propósito de proporcionar valores que eventualmente se possam traduzir num alerta para uma eventual área de investigação, cujos resultados poderão revestir-se do maior interesse para a promoção da Psicologia como disciplina científica capaz de satisfazer os critérios pragmáticos que tendem a tipificar as posições dos treinadores relativamente à psicologia e ao treino mental.

Para definirmos a nossa amostra, utilizamos as seguintes variáveis: idade e sexo. Através da análise do quadro 1, verificamos que a amostra consistiu em quarenta e nove (49) indivíduos, dos quais trinta (30) são do sexo masculino e dezanove (19) do sexo feminino. As idades foram compreendidas entre os 19 e os trinta anos de idade.

Relativamente à altura dos sujeitos, constatamos que o aluno mais baixo tinha 160 cm e o mais alto de 193 cm. A composição corporal da amostra variou entre os 4.00% e os 26.8%, sendo a média de 14%.

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Instrumentos

Nesta parte do trabalho apresentamos os equipamentos e os métodos a que recorremos para quantificar o tempo de partida. Assim, utilizamos:

Foram utilizados dois blocos de partida de provas de velocidade do Atletismo, que se encontravam colocados em dois locais distintos. Um montado para alunos destros e o outro para alunos sinistros.

Foi solicitado aos sujeitos que deveriam selecionar a posição em que se sentissem mais adaptados e para manterem constantes as medidas entre os apoios, em cada uma das partidas.

Os blocos foram colocados numa posição perpendicular à pista e paralela à câmera filmadora. Esta disposição permitiu a filmagem dos dois apoios dos alunos aquando do momento da partida dos blocos, após a largada.

Foi utilizada uma Câmera filmadora SVHS – Panasonic MS4, tripé Miller e cassetes VHS, que nos permitiu captar um número adequado de “frames”, para posteriormente lhe sobrepormos um cronômetro. Esta foi manejada por um técnico profissional de imagem. A utilização de um tripé permitiu-nos manter a filmadora e consequentemente a imagem no enquadramento desejado, para posterior identificação dos marcadores de tempo.

Foram utilizadas duas fitas VHS, uma para o registo do pré-teste e a outra para o pós-teste. Nestas foram colocados cronômetros sobre as imagens para que na fase de análise das mesmas fosse possível aferir o tempo de resposta com o menor erro possível.

Televisor Grundig Supercolor e Vídeo JVC Professional Editing Recorder BR-8600E. O vídeo e o televisor foram utilizados para a visualização dos vídeos com as imagens do pré e pós-teste.

Programa Editing Control Unit Rm – 86 U. Utilizado para iniciar e imobilizar a imagem nos momentos desejados. O primeiro momento, início da contagem, foi considerado o primeiro indicador que permitisse identificar o início do registro magnético do som do apito. O segundo momento, término da contagem, foi considerado aquando da identificação no registro magnético do último contato do último apoio retirado do bloco.

Apito. Foi utilizado para dar as partidas dos blocos de Atletismo.

Body Fat Analyzer HBF – 301. Este instrumento foi utilizado para registrar os valores de massa corporal dos sujeitos.

Fita VHS da técnica de atletismo, “Sprint Tecnics – correndo com Carl Lewis” de L. Seagrave e T. Tellez é um documentário que contêm os aspectos relevantes da técnica de partida de blocos, bem como possui a orientação atencional ótima que se deve verificar quando se possui valores excelentes (os mais baixos possíveis fisiologicamente) do tempo de resposta.

Procedimentos

Na recolha inicial dos dados (pré-teste), efetuamos a seguinte sequência de acontecimentos:

   Os alunos efetuaram um aquecimento de dez minutos, sem orientação. Após este período de aquecimento foram orientados no sentido de, enquanto esperavam pela sua vez, se mantivessem em silêncio. Foi solicitado que desempenhassem as tarefas com o maior empenho que lhes fosse possível. Assim, os alunos foram chamados e, em primeiro lugar, tinham de realizar um teste para aferir os tempos de reação em função de um estímulo auditivo e outro visual, apresentados de forma aleatória. Este primeiro momento de recolha de dados teve por objetivo disciplinar a sequência da realização da tarefa que foi efetivamente o objetivo do estudo. Foi também transmitido que os alunos deveriam mencionar o seu número de chamada, antes de começarem a primeira partida, isto para evitar posteriores confusões, uma vez que as imagens foram recolhidas no formato de grande plano de forma a minimizar os posteriores erros de leitura relativamente ao momento de último contato com o bloco.

Posteriormente o sujeito dirigia-se ao local onde estavam colocados os blocos de partida e à voz de chamada ajustava os blocos e efetuava, com pausas não controladas, três partidas. O mesmo indivíduo realizou a sua série de partidas sem interrupções e ao ritmo que lhe foi mais conveniente. Após a finalização de cada série, e de forma a não permitir confusões relativamente a quem estava no bloco de partida, sempre que o sujeito acabava a sua série das partidas foi colocada uma faixa preta (para distinção na sequência dos sujeitos).

De seguida o indivíduo dirigia-se a um dos pesquisadores e respondia a um questionário, e de seguida repetia o procedimento das partidas, mas desta vez efetuando apenas duas. A pergunta mais relevante concentrava-se no seu foco atencional, ou seja: em que te concentraste no momento da partida?

A segunda parte do nosso trabalho consistiu na orientação e treino do foco atencional dos sujeitos para a tensão muscular dos músculos da coxa e glúteos. Este programa de treino foi, a variável independente deste estudo, que seguiu o desenho do pré-teste – pós-teste.

O programa de treino das partidas consistiu na visualização do vídeo (“Sprint Tecnics – correndo com Carl Lewis”) que continha no seu interior a técnica correta de partida, e os aspectos determinantes em que os atletas deveriam estar concentrados/focados, relativamente aos aspectos técnicos, mas no que se referia o componente cognitivo dos processos atencionais nenhuma informação foi contemplada. Daí a necessidade de adicionarmos a visualização dos aspectos técnicos uma intervenção com o objetivo de familiarizar os participantes com as sensações inerentes ao processo de foco atencional interno.

O vídeo foi mostrado com pausas para reforçar os aspectos determinantes da técnica de partida de blocos e da direção do foco atencional. Após a visualização do vídeo e do treino para o reconhecimento das sensações relativas ao foco atencional interno, foi pedido aos participantes que fechassem os olhos e que se concentrassem na sensação muscular que deviam sentir aquando da partida dos blocos (e que já tinham vivificado durante o treino). Este treino teve a duração de duas sessões de uma hora e meia cada e separadas uma da outra por um período de 7 dias.

Na terceira fase, foram recordados e reforçados os aspectos fulcrais visionados na aula anterior (qual a direção do foco atencional que deveriam ter, assim como o ponto de foco desejado e identificado na tensão muscular identificada pelo estado de prontidão da resposta ao sinal de partida).

Nesta parte, repetiu-se o procedimento efetuado no período do pré-teste, com a alteração de que os alunos não responderam a qualquer questionário.

Análise estatística

O presente trabalho recorreu à análise descritiva, para a mera comparação das médias, e recorremos ao t-Teste emparelhado. No entanto, num trabalho como este que tem por objetivo realçar o contributo da psicologia do desporto, tal como este pode ser quantificado cronometricamente, julgamos ser mais relevante à apresentação dos ganhos obtidos através do controle atencional em cada uma das tentativas.

Tendo por base os valores e princípios que orientam a aplicação do paradigma pragmatismo recorreu-se ao método de triangulação de dados (Tashakkori & Teddie, 1998).

Isto é, calculamos as médias de cada uma das tentativas (cinco). Depois calculamos a diferença aritmética entre a 1ª tentativa do pré-teste e a 1ª do pós-teste e assim sucessivamente para as cinco realizadas. Para a aplicação do T-teste emparelhado utilizamos as médias obtidas no pré-teste e as do pós-teste.

A variável independente, que suporta a realização do nosso estudo, é o foco atencional dirigido para a tensão muscular na partida de blocos em Atletismo.

Assim foi colocada a seguinte hipótese nula:

Não há influência do foco atencional, dirigido para a tensão muscular, nos valores do tempo de resposta na partida de blocos em Atletismo.

 

Apresentação dos resultados

A apresentação dos resultados tem como preocupação central tornar a leitura e consequente interpretação dos valores o mais fácil possível, uma vez que a nossa população alvo não foi prioritariamente a acadêmica, mas sim os treinadores, que como sabemos na sua maioria não tem formação para interpretar os outputs estatísticos. Assim, recorremos à descrição dos resultados em texto, seguidos de quadros elucidativos.

No que se refere aos dados da amostra, aferimos que todos os alunos praticavam, ou tinham praticado sistematicamente, qualquer desporto durante um ano ou mais anos, sendo a média de anos de prática de sete (7).

Na variável – tipo de desporto praticado (individual ou coletivo), como se pode ver no quadro 3, o número de alunos praticantes de desportos coletivos é superior (57.14%) ao número de alunos praticantes de desportos individuais (42.85%).

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Como podemos analisar no quadro 4, o desporto coletivo predominante foi o futebol com 29% do número total da amostra. Por outro lado, o desporto individual predominante na amostra foi o Atletismo com 14% dos sujeitos estudados (ver no quadro 3).

Em relação à experiência nos blocos de partida dos inquiridos, trinta e seis (36) dos inquiridos afirmaram não ter experiência suficiente nos blocos de partida de Atletismo e treze (13) afirmaram possuir essa familiarização.

Tomamos em conta a nota de disciplina de Atletismo do primeiro ano do currículo da Licenciatura em Educação Física e Desporto da UTAD, enquanto um indicador secundário da experiência ou não da partida de blocos. Foi-nos proporcionado informação de que as notas variavam entre 17 (dezessete) e 11 (onze) valores, sendo a média da turma de 13 (treze) valores.

Como podemos ver no quadro 5, os valores médios do tempo de resposta, do pré-teste (foco atencional direcionado para o apito) para o pós-teste (foco atencional dirigido para a tensão muscular) sofreram uma diminuição mais ou menos acentuada em todas as tentativas e uma consequentemente diminuição nos valores da média global. Verificando-se uma diferença de 2.24 na média das cinco tentativas do pré-teste para o pós-teste.

Quando calculamos o t-Teste emparelhado, com base nas médias das cinco tentativas do pré-teste e do pós-teste, verificamos existirem diferenças significativas entre os dois momentos (t = 3.224, Sig. = 0.032).

Quando tentamos verificar a existência de diferenças significativas entre as restantes variáveis e o tempo de resposta, não foram encontradas quaisquer diferenças.

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Discussão e conclusões

Nas modalidades de velocidade, ou naquelas em que a velocidade é determinante, como o são as disciplinas de velocidade pura, é fundamental conhecer todos os fatores intervenientes e determinantes para a consecução dos resultados máximos.

Temos então que o tempo de resposta é uma fração da velocidade extremamente difícil de treinar, isto porque todos os mecanismos que o constituem e limitam são internos (neuronais), determinados geneticamente.

Como foi visto a maior parte dos autores que falam sobre a velocidade de reação dizem que o fator mais preponderante no progresso desta, para se atingir a excelência, é a melhora da capacidade de concentração (Carvalho, 1988; Manso et al., 1998). Atendendo a que o tempo de reação, por si só, tem um valor relativo para o resultado da competição, achamos ser mais apropriado falar de tempo de resposta, em que a integração do ponto de foco atencional é um elemento crucial para a própria conceitualização e definição do conceito de tempo de resposta.

Com base nesta proposta, para se melhorar o tempo de resposta, é e da maior importância uma correta orientação do foco atencional dos atletas. Este tipo de orientação atencional deverá ser definida para cada momento da prova. É com base nesta definição prévia do que é essencial e secundário para a prestação que os treinadores e atletas, em conjunto, devem elaborar ou construir os planos de prova.

Os nossos resultados sugerem que a proposta de que o ponto de foco interno, materializado através do comando de execução dos movimentos inerentes à partida e cujo ponto de foco atencional (concentração) é a tensão muscular. Extrapolando, com base no conceito de “neurônio gating” (Surwillo, 1986), definimos o sinal de partida como a condição última e única para executar os comandos de partida já em memória de curta duração.

Os atletas têm conhecimento que o que vai fazer com que iniciem a prova é o disparo da pistola, só que para darem início aos seus movimentos é necessário terem a excitação muscular ótima, ou seja, têm que passar pelas cinco (5) fases propostas por Zaziorski em Manso et al. (1998) e Carvalho (1988), que ao decorrerem levam certo tempo (tempo de reação). Ao conseguir que os atletas estejam focados na tensão muscular existente nos seus glúteos, fazemos com que o mecanismo de processamento de informação seja encurtado. Isto porque ao soar o disparo todos os comandos para dar início ao movimento já estavam efetuados, agora apenas foi fechado o circuito de resposta.

Uma dos componentes psicológicas que reconhecidamente mais contribui para as boas prestações competitivas é a capacidade de concentração dos atletas. No entanto, para que assim seja é da maior importância que sempre que se solicite ao atleta que este se concentre que saiba a que nos estamos a referir e mais concretamente para que aspecto específico deva direcionar a sua atenção seletiva.

Ao longo da nossa experiência profissional, poucos treinadores e atletas sabiam explicar o que entendiam por concentração. Para muitos é algo como “saber o que fazer ao longo da prova”, “não pensar noutras coisas e ter pensamentos positivos para o que vai fazer”, “estar concentrado é não nos preocuparmos com os outros”, etc. Este tipo de definição, se bem que possa servir algum propósito, de forma alguma se aproxima do que os psicólogos do desporto procuram desenvolver quando solicitam aos treinadores e atletas que em conjunto construam um plano de prova, no qual sejam devidamente identificados momentos críticos e para os quais os atletas devem estar previamente preparados. Há mesmo alguns autores que sugerem que os atletas deverão, antecipadamente, dar as ordens de comando, para que quando a situação critica emerge a sua capacidade de resposta ser a mais rápida e eficaz possível.

Em 1989 William Morgan escrevia “The test of any model needless to say, is simply, does it work? Outro aspecto a que este autor faz referência é o fato de a vasta maioria da investigação nesta área ser de carácter teórico, e quando recorre a alguma teoria diga-se através da importação destas de outros contextos não específicos ao rendimento desportivo.

Com o presente trabalho, apesar das limitações impostas pelo equipamento utilizado, procuramos evitar dois aspectos: 1) nada é tão mau como uma má teoria; 2) a prática da ciência pela ciência é “cientismo” e não ciência.

Os resultados obtidos evidenciaram existir diferenças estatisticamente significativas entre o pré-teste e o pós-teste, ou seja, que o treino do foco atencional interno parece ser mais eficaz que o foco atencional externo, tal como expresso num ganho de 2.24ms no tempo de resposta na partida em atletismo.

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Fig.1. Representação gráfica de um sistema reverbatório e de velocidade de resposta ao estimulo, tal como introduzido pela presença do “neurônio gating”. (Surwillo, 1986).

Relativamente ao segundo aspecto, evitamos recorrer às teorias da atenção desenvolvidas no contexto da psicologia geral. Elaboramos uma proposta teórica com base em conceitos psicofisiológicos, nomeadamente o do sistema reverbatório, de “neurônio Gating” (ver figura 1), tempo de reação e tempo de movimento. A razão porque recorremos a estes conceitos prende-se com o nosso propósito de ultrapassar as limitações conceituais que prevalecem no mentalismo vigente na psicologia do desporto. Terry Orlick, é um dos psicólogos que descreve de forma mais detalhada o contributo e os processos que contribuem para as vantagens da preparação mental. No entanto, a sua perspectiva é, em nossa opinião, de caráter eminentemente mentalista. Por exemplo, relativamente aos planos mentais para a competição escreve: “…a crucial point is your focus of attention just before the start of the event. It should flow naturally out of a positive psychological warm-up. A specific psych plan is also helpful. This will generally consist of a brief reminder of your activation level, if necessary, and a focus plan of the first moves you will do, seconds before the start (Orlick, 1986:21).

Esta é uma prescrição que nos parece muito geral e que tem por base o princípio de que a realização mental das tarefas é por si só suficiente como contributo para a melhoria do rendimento. Em nossa opinião é insuficiente, na medida em que excluem os processos fisiológicos, nomeadamente aqueles em que se alicerçam as tarefas a serem realizadas.

A nossa proposta vai no sentido de se construir um plano de prova que consista da sequenciação dos comandos de execução a serem dados em todos os momentos da competição. Esses comandos prévios visam o desenvolvimento de um maior controle sobre os requisitos das múltiplas tarefas que integram o evento competitivo, como por exemplo a prova de 100m. A cada componente da prova deverá existir um referencial físico de forma potenciar os benefícios que o controle motor provoca a níveis de concentração, uma vez que permite uma maior seletividade, consequentemente eliminando o eventual impacto de variáveis externas ou até mesmo secundárias às tarefas a serem realizadas.

No caso do tempo de partida, o controle atencional deverá constituir-se pelo comando prévio da execução motora ficando em suspenso o sinal para o início da ação (Gating). Desta forma ganha-se o tempo que separa a ocorrência do sinal de partida (aparelho auditivo), o reconhecimento deste (no cérebro) e o comando para iniciar a ação. Assim a concentração na partida deverá consistir no comando prévio da ação motora imediatamente após o reconhecimento do sinal de partida. Porque desejamos que este comando não seja apenas uma ideia mental, treinamos os atletas a identificarem e a concentrarem-se na tensão muscular que imediatamente antecede o impulso dos blocos. Nos estudos que realizamos até este momento constatamos melhorias no tempo de resposta.

Presentemente temos em curso outro estudo que tem por objetivo medir o impacto cronométrico desta forma de concentração nos tempos parciais, medidos por células fotoelétricas aos 5, 10 e 15 metros. Somos ainda de opinião que os estudos a serem realizados nesta área, para que possam ser reivindicados como um contributo para a melhoria dos tempos de prova deverá ter presente que a melhoria num componente da prova poderá não representar um contributo real, na medida em que poderá interferir com a realização de outras tarefas a serem executadas ao longo da competição.

Em suma, julgamos que esta é uma linha de investigação merecedora de uma maior atenção e que, à priori, aparentemente se apresenta prometedora para a demonstração, via cronômetro, dos contributos que o treino mental pode dar para a melhoria do rendimento desportivo.

Em suma, julgamos que os treinadores podem e devem ter em conta estes dados, uma vez que apesar de o valor ser extremamente reduzido, ele ocorre num componente da prova que é fulcral no tempo total de prova, visto ser esta uma das fases mais importantes da corrida. Estamos ainda convictos que o treino do foco atencional, realizado com base na proposta que apresentamos faz sentir, também, na redução das falsas partidas.

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Anger level description in Jiu Jitsu fighters of competition

DESCRIÇÃO DO NÍVEL DE RAIVA EM LUTADORES DE JIU JITSU EM COMPETIÇÃO

Claudia Barbosa1

Ana Karoline Gomes Gurtat2

Fernanda Picoli Bonadiman2

Luciane Cristina Pramiu2

Rodrigo Poderoso3

Daniel Bartholomeu4

José Maria Montiel4

1Centro Universitário FAG/UNIOESTE

2Centro Universitário FAG

3Faculdade Anhanguera

 4Centro Universitário FIEO – UniFIEO

Resumo

É nos períodos de competição que habilidades atléticas são testadas e avaliadas, a pressão que o atleta suporta pode tornar-se um fator de influência negativa no desempenho. Ocasionando o aparecimento de sintomas de fadiga, ansiedade, irritabilidade, insegurança, agressividade e apatia. Assim o objetivo desta pesquisa foi avaliar de maneira, pré-luta os níveis de raiva em lutadores de artes marciais através de testagem psicológica. Os participantes foram 65 lutadores de Jiu Jitsu, com idades entre 15 e 45 anos, que responderam a seguinte testagem: Inventário de Expressão de Raiva como Estado e Traço (STAXI) – avaliar os componentes da raiva e suas influências uma semana antes do dia do campeonato e no dia do campeonato responderam novamente essa mesma testagem. Foram participantes 33 atletas, antes da luta, todas as subescalas aparecem com escores altos com percentil de 80, 90, 95 e 99. No dia da luta apenas as subescalas de Estado e Controle apresentaram escores altos com percentil de 80, 85, 90 e 95. Os resultados demonstraram que os atletas apresentam raiva para dentro e para fora. Ainda é possível observar com tais resultados que a influência da raiva nos atletas avaliados, podem ter consequências negativas em seu desempenho, bem como em atividades cotidianas.

Palavras-Chaves: Raiva, Atletas, Competição, Psicologia do Esporte.

Abstract

It is in competition periods athletic abilities that are tested and evaluated, the pressure that supports the athlete can become a negative influence on the performance factor. Causing the onset of fatigue symptoms, anxiety, irritability, insecurity, aggression and apathy. So the aim of this study was to evaluate the way, pre-fight levels of anger in martial arts fighters through psychological testing. Participants were 65 fighters Jiu Jitsu, aged 15 and 45, who answered the following testing: Inventory Anger Expression as State and Trait (STAXI) – to evaluate the components of anger and its influences one week before the day championship and the championship of day again answered the same testing. Participants were 33 athletes before the fight, all subscales appear with high scores to percentile 80, 90, 95 and 99. On the day of the fight only the subscales of State and Control showed high scores to percentile 80, 85, 90 and 95. the results have shown that athletes experience anger in and out. It is still possible to observe with such results that the influence of anger in the assessed athletes, can have negative effects on their performance as well as in daily activities.

Key Words: Rage, Athlete, Competition, Sport Psychology.

Introdução

As artes marciais são atividades corporais de ataque e defesa, podendo também ser caracterizadas como lutas esportivas, a partir do momento que são praticadas de forma sistematizada, com regras, envolvendo competição e visando rendimento. Há mais de 2500 anos, surgiu na Índia à primeira forma de autodefesa criada pelo homem sem o uso de armas, o Jiu-Jitsu, criado por monges budistas de características físicas franzinas, alvo de ataques constantes em suas peregrinações. O instinto de ataque e de defesa está latente no homem. A coordenação desta agressividade, a sua estilização e o respeito pelas “leis da natureza” resultaram na criação das artes marciais (Filho, 2007). O Jiu-Jitsu de acordo com Filho (2007) é um esporte intelectualizado, considerando sua complexidade. Melhora o bem estar físico e mental por meio de exercícios físicos que trabalham com princípios da Física. Alavancas, pontos de apoio e centros de gravidade, melhorando assim a coordenação motora e proporcionando bem estar, autoconfiança e equilíbrio. É praticado, no espaço chamado tatame, em pé e no chão, para melhor execução dos golpes e a fim de aumentar o coeficiente de atrito, os atletas usam o quimono preso por uma faixa amarrada na cintura pélvica e os pés nus.

Historicamente, o Conde Koma envolveu-se na tentativa do Império Japonês em colonizar a região norte do Brasil. Conheceu então Gastão Gracie que possuía grande influência política. Gracie solicitou aulas de Jiu-Jitsu ao Conde Koma para serem ministradas ao seu filho Carlos. Em retribuição ao acolhimento de Gastão Gracie na fase em que todos os japoneses eram rejeitados no Brasil, Conde Koma, passou a ensinar a sua arte a Carlos Gracie. Mesmo com a Lei Japonesa que era proibido ensinar Jiu-Jitsu a ocidentais, Conde Koma ensinou a Carlos os principais fundamentos da luta. Em 1930, Carlos Gracie abriu a primeira academia de Jiu-Jitsu no Brasil, o outro filho de Gastão, Hélio Gracie tornou-se também professor de Jiu-Jitsu. Carlos e Hélio Gracie, modificaram algumas regras do Jiu-Jitsu japonês, que passou a chamar-se de Jiu-Jitsu brasileiro, dando início a uma grande divulgação da modalidade no Brasil (Filho, 2007).

Em relação ao perfil psicologico do atleta de Jiu Jitsu, estudos tem apontado que são indivíduos com características de personalidade introvertida. Ainda, tendem a apresentar maior tolerância à dor, alto nível de atenção e concentração, comumente ajustados ao controle emocional, com moderada resistência ao estresse e níveis de ansiedade. Corriqueiramente são tratados como indivíduos com alta dose de coragem e confiança ao estarem expostos a “riscos” como adversários incertos. Com o passar do tempo, ou seja, quantidade de treinos é possível observar que tais indivíduos apresentam  forte  resistência às frustrações, maturidade e dominação de ambiente (Barreto, 2003).

Neste contexto (Filho, 2007) cita que a prática dessa modalidade pode contribuir significativamente no desenvolvimento físico e psicológico do sujeito ao longo de sua vida. Um estudo descrito por (Filho, 2007), teve como objetivo investigar a relação entre ansiedade-traço competitiva em homens praticantes de Jiu-Jitsu, em função da idade, do tempo de prática e do número de participações em torneios. A ansiedade foi escolhida por ser identificada como uma variável capaz de interferir tanto positiva quanto negativamente no rendimento esportivo. Outro apontamento descreve as competências psicológicas, que podem ser consideradas como competências básicas, presentes na preparação psicológica dos atletas, englobando a autoconfiança, a concentração e a motivação. O autor aponta ainda que as competências mais relevantes, incluem as citadas a cima, e menores níveis de ansiedade ou maiores níveis de controle da mesma.

É sabido que treinadores tendem a conhecer os sentimentos de decepção quando lidam com atletas que atingem níveis elevados de desempenho durante os treinos, mas que não conseguem alcançar esses mesmos níveis durante a competição. Uma vez que as capacidades físicas não chegam para justificar estas diferenças de desempenho, a hipótese de que essa justificação seja psicológica tem ganhado cada vez mais força. É importante a aprendizagem de competências psicológicas relevantes nesse meio, porém, é necessário diferenciar bem os movimentos próprios de cada modalidade esportiva das decisões sobre o plano estratégico de cada competição. Na maioria das ocasiões os indivíduos tornam-se vulneráveis porque não receberam orientação específica que lhes permita desenvolver as competências psicológicas necessárias das tarefas que desempenham. As capacidades, ou habilidades, não são características totalmente inatas, estáticas e inalteráveis, pelo contrário, podem ser potencializadas através de treino intensivo e apurado, o que sucede da mesma forma com as características psicológicas, que podem ser maximizadas com vista à obtenção dos melhores desempenhos do atleta (Filho, 2007).

Spielberger (2003), cita que as expressões de raiva, hostilidade e agressão têm sido usadas de maneira ambígua e algumas vezes contraditórias. Uma bofetada, o suicídio até a raiva geralmente se refere a um estado emocional, com sentimentos que variam desde um aborrecimento leve, irritação até a fúria e agressão. Sendo que raiva e hostilidade se referem a sentimentos e atitudes, e a agressão é utilizada comumente para demonstrar comportamentos destrutivos e punitivos. O autor ainda continua dizendo que a agressão pode ser dividida entre hostil ou reativa e instrumental. Na agressividade hostil ou reativa o indivíduo tem a intenção explícita de prejudicar ou lesar o oponente. Na agressão instrumental, percebe-se que mesmo podendo envolver o dano ou prejuízo ao adversário, o indivíduo está preocupado em alcançar as suas próprias metas ou impedir que a outra pessoa alcance as suas metas, como é o caso de atletas de Jiu-Jitsu.

Muitas vezes o progresso e a realização dependem de uma agressividade adaptada na vida e nos esportes. Assim sendo, a agressividade deve ser usada de maneira construtiva e positiva, respeitando as regras culturais e esportivas, ela não é obrigatoriamente um atributo indesejável da personalidade. Silva e Casal (2000) desenvolveram uma pesquisa onde a arte marcial foi qualificada pelos indivíduos como uma forma de desenvolvimento pessoal, levando a uma melhor qualidade de vida. Sendo que, em nenhum momento foi analisada como uma forma de propagar a raiva ou meio de atingir alto desempenho em lutas, mas o oposto disso, as lutas seriam um modo de apropriar-se do controle destes sentimentos de raiva, através do domínio do corpo. Chegando então a conclusão de que as particularidades dos treinos tais como o estabelecimento de hierarquia ou exigência de disciplina e controle, podem ser um dos fatores que intervêm na forma como os indivíduos aprendem a lidar com a própria raiva e a conter impulsos. Hokiro e Casal (2001), citam que para os atletas, a prática de artes marciais seria como uma forma de propagarem suas intenções agressivas, tornando seus praticantes mais sociáveis e amistosos. Para os autores ainda é possível influenciar na personalidade do atleta, de modo que este controle seus sentimentos de raiva e expresse sua agressividade de maneira adequada desenvolvendo o autocontrole.

A ansiedade refere-se a um estado emocional em que ocorre uma inquietação, uma preocupação prejudicial, durante certo período, acendendo um medo geral no indivíduo, causado pela probabilidade de algum perigo, ameaça ou desafio existente. Pode ser manifestada em um momento específico em que os sentimentos de tensão e apreensão são temporários, momentâneos, variando em intensidade e alterando-se com o tempo – ansiedade-estado – ou manifestada em uma ampla gama de circunstâncias – ansiedade-traço. A ansiedade-traço é considerada como um fator de personalidade que predispõe à pessoa a ansiedade, influenciando seu comportamento (Bertuol & Valentini, 2006).

A pressão dos pais e professores para a vitória pode ser considerada, como um dos fatores causadores de níveis altos de ansiedade e estresse pré-competitivo em crianças e adolescentes. Em períodos de competição, quando as habilidades atléticas são publicamente testadas e avaliadas, a pressão que o atleta suporta pode tornar-se um fator de influência negativa no desempenho. Essa pressão pode levar ao aparecimento de sintomas de fadiga, ansiedade, irritabilidade, insegurança, agressividade e apatia. Muitas vezes, quando passam por experiências competitivas desagradáveis, crianças e adolescentes tem sua autoestima afetada, o que pode causar um alto nível de ansiedade e levar a consequências indesejáveis, como, por exemplo, o abandono total da atividade. Experiências negativas podem ocorrer com maior frequência com crianças e adolescentes que evidenciam níveis baixos de autoestima os quais tendem a vivenciar maior ansiedade pré-competitiva e, em consequência, carência de prazer pessoal na competição (Bertuol & Valentini, 2006). Seguindo tais apontamentos, este estudo tem o objetivos de investigar os níveis de raiva de atletas de Jiu-Jitsu em situação pré-competitiva, possibilitando novas estratégias psicológicas no período que antecede a luta.

Método

Participantes

Os participantes foram 65 lutadores de Jiu Jitsu, com idades entre 15 e 45 anos, de ambos os sexos. Alfabetizados e que frequentavam um dos teams das academias que aceitaram participar da pesquisa, sendo que dos 60 participantes, 40 não participaram da competição e 22 atletas participaram. A coleta de dados foi realizada nas academias onde são realizadas as aulas de artes marciais, em horário previamente combinado com a organização, os professores e os atletas e no dia da luta no ginásio de esportes.

Instrumentos

Para a realização do estudo foi utilizado o Inventário de Expressão de Raiva como Estado e Traço (STAXI), com a finalidade de avaliar os componentes de raiva e suas influências. O teste é composto por quarenta e quatro itens, os quais formam seis escalas e duas subescalas. Tais informações Fornecem medidas concisas da experiência e da expressão da raiva sob a forma de estado e traço. Cabe ressaltar que segundo Spielberger (2003) a raiva varia em intensidade e flutua com o passar do tempo. Quanto ao Traço de Raiva, este pode ser definido em termos de diferenças individuais na frequência com que o Estado de Raiva é experienciado com o passar do tempo. Ainda cabe destacar que a Raiva para Dentro é uma escala representada por oito itens que medem a frequência com que os sentimentos de raiva ocorrem. Já a Raiva para Fora é uma escala de expressão da raiva composta por oito itens que medem com que frequência o indivíduo expressa a raiva em relação aos outros.

Procedimentos

O organizador do evento permitiu a aplicação da pesquisa durante a competição, e também nas academias, e os treinadores (professores), permitiram a participação do seu team¹ na pesquisa, uma vez que foram aplicados os testes durante os treinos e minutos antes da luta, e os alunos permitiram a sua participação através da assinatura do Termo de Consentimento Livre Esclarecido. Foram aplicados em dias de treino nas academias o Inventário de Expressão de Raiva como Estado e Traço (STAXI) – finalidade de avaliar os componentes da raiva e suas influências. E novamente foram aplicados nos lutadores que participaram da competição dos Mestres.

Resultados

Em relação aos resultados encontrados os desempenho nos testes pré-luta (academia) STAXI, dos 33 participantes nesta etapa da aplicação, dos resultados do teste STAXI (Splielberger, 2003), dias antes da luta os resultados encontrados com percentil alto foram: Para o percentil 80, um para a escala de Estado da Raiva, 2 para Traço, 3 para Reação, 1 para Dentro, 3 para Controle e 2 para Expressão. Para o percentil 85 foram, 3 Estado, 1 Traço, 5 para Temperamento, 2 para Dentro, 1 para Controle e 2 para Expressão. Para o percentil 90 foram os seguintes resultados: 1 para Estado, 3 para Traço, 2 Temperamento, 1 para Reação, 3 Dentro, 1 Fora, 2 Controle, 4 Expressão. Para o percentual 95, 1 Traço, 4 Temperamento, 2 Reação, 1 Dentro, 6 Fora e 2 Controle. Já para o percentual 99 foram os seguintes resultados: 3 Estado, 3 Traço, 1 Reação, 1 Dentro, 1 Fora e 2 para Expressão.

Percebe-se que os valores de Raiva para Fora, aparecem apenas nos percentil 90 com um sujeito, no percentil 95 com 6 sujeitos, e no percentil 99 com um sujeito. Indivíduos com percentil altos nesta escala, normalmente experimentam raiva, que expressam em comportamento agressivo dirigido a outras pessoas ou objetos no meio, talvez ela seja expressa por meio de atos físicos, tal como agredir uma pessoa ou bater portas, talvez seja expressa na forma verbal por meio de criticas, sarcasmos, insultos, ameaças e uso extremo de palavrões. É possível observar que Expressão de Raiva apareceu nos percentuais 80, 85, 90 e 99, totalizando 10 indivíduos. Pessoas com escores altos em Expressão de Raiva que também apresentam escores elevados em Raiva para Dentro e Raiva para Fora, manifestam raiva em várias facetas do comportamento. Tais indivíduos são inclinados a ter extrema dificuldade em relações interpessoais e também correm o risco de desenvolver distúrbios médicos.

Sete participantes tiveram escores altos na escala de Reação de Raiva, indivíduos com escores alto nesta subescala são altamente sensíveis a críticas, afrontas e avaliações negativas. Eles vivenciam sentimentos de raiva intensos quando se encontram nessas situações. Em relação à subescala Estado nota-se também que 13 dos 33 participantes apresentaram percentil 5 na subescala Estado.

Capturar2

Os resultados em relação ao desempenhos obtidos no dia da luta dos 33 participantes da pré-luta, 22 participantes responderam o teste nesta etapa, porém 13 foram excluídos devido ao preenchimento incorreto do teste e/ou idade, assim apenas nove testes foram considerados na análise dos dados do dia da luta. Observa-se que em relação aos dados obtidos pelo teste STAXI no dia da luta, foram encontrados com percentil elevado os seguintes resultados: Para o percentil 95, um para estado, e um Controle. Para o percentil 90, 1 Dentro, 1 Fora e 2 Controle. Para o percentil 80 um para Traço, e para o percentil 85 um para Controle.

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Discussão

Como cita Filho (2007) as artes marciais são atividades corporais de ataque e defesa, podendo também ser caracterizadas como lutas esportivas, a partir do momento que são praticadas de forma sistematizada, com regras, envolvendo competição e visando rendimento. Em relação à raiva, observa-se que no dia da luta apenas um atleta apresentou raiva para fora com percentil 90. Assim, observa-se que o esporte é considerado como uma prática saudável para esses atletas, o que possibilita os dados obtidos por Gimeno (2002) onde a prática dessa modalidade pode contribuir significativamente no desenvolvimento físico e psicológico do sujeito ao longo de sua vida, uma vez que a Reação de raiva manteve-se com números na média e apenas um para raiva para fora. Como apontado por Bina e Matias (s/d), a agressividade deve ser usada de maneira construtiva e positiva, respeitando as regras culturais e esportivas, ela não é obrigatoriamente um atributo indesejável da personalidade.

Hokiro e Casal (2001), relatam que é possível influenciar na personalidade do atleta, de modo que este controle seus sentimentos de raiva e expresse sua agressividade de maneira adequada desenvolvendo o autocontrole. Pode ser observado no gráfico 2, onde o atleta apresentou no dia da luta raiva para dentro com um valor muito mais significativo do que a apresentada dias antes da luta, além disso, no dia da luta essa prevaleceu sobre a raiva para fora. Observa-se que muitas escalas estudadas apresentaram os mesmos resultados para dias antes da luta e no dia da luta, como apresentado, onde o atleta apresenta os mesmos resultados para, estado, traço, temperamento, reação e raiva para fora. É possível ainda observar que apenas o controle de raiva para esse atleta se manteve igual, em relação as outras escalas os resultados foram mais altos para dias antes da luta do que no dia da luta.

Barreto (2003) cita que o perfil psicológico ideal de um atleta de Jiu-Jitsu está voltado para um perfil com inteligência acima da média, tolerância à dor, alto nível de atenção e concentração, forte ajustamento ao controle emocional, alta resistência ao estresse, nível de ansiedade de moderado a baixo, alto nível de controle da agressividade e resistência à frustração. Na presente amostra observa-se que no dia da luta, entre os 20 testes válidos, três testes apresentam resultado médio superior e dois testes superiores, ainda oito testes inferiores. Observa-se que somando os resultados para médio, médio superior e superior, somam o total de nove e somando médio inferior e inferior somam 11.

Apesar de a diferença ser pequena ainda assim os atletas da presente amostra em sua maioria não apresentaram atenção concentrada em sua maioria no dia da luta. Ainda sobre o que o autor aponta em relação à ansiedade, observa-se que dos respondentes no dia da luta, todos apresentaram nível mínimo de ansiedade, o que corresponde ao apresentado na literatura citada anteriormente e com os estudos de Vealey (1988), onde as competências mais relevantes, incluem entre outras menores níveis de ansiedade ou maiores níveis de controle da mesma. Bertuol e Valentini (2006), citam que a pressão dos pais e professores para a vitória pode ser considerada, como um dos fatores causadores de níveis altos de ansiedade e estresse pré-competitivo em crianças e adolescentes. A presente amostra contava com sua maioria adulta, porém considerando o alto nível de cobrança em relação ao campeonato pode-se observar que a pressão sobre os atletas pode ocorrer em todas as faixas etárias. O que também pode explicar os resultados para raiva em dias antes da luta.

Considerações Finais

Os atletas apresentam raiva para dentro e para fora com uma porcentagem pequena, podendo apresentar influência durante a luta. Também no dia da luta, o nível de ansiedade foi mínimo o que possibilita um melhor desempenho para o atleta sem influências negativas desse aspecto. Já em relação a atenção concentrada observa-se que esta ficou falha nos atletas em sua maioria na competição, sendo a maioria com resultados inferiores, o que possibilita que esse aspecto possa trazer consequências negativas para o atleta. Ainda, vale destacar que as limitações do estudo especialmente o número de participantes deve ser considerado em novos estudos de modo a poder averiguar com maior amplitude os resultados descritos. Estudos ainda devem considerar outros instrumentos de avaliação de forma a detectar com maior precisão os estilos de funcionamentos de atletas desta modalidade esportiva.

Referências

Barreto, J. A. (2003). Psicologia do desporto para o atleta de alto rendimento. Rio de Janeiro: Shape Ed.

Bertuol, L. & Valentini, N. C. (2006). Ansiedade competitiva de adolescentes: gênero, maturação, nível de experiência e modalidades esportivas. Revista da Educação Física UEM, 17(2), 15-32.

Bina, C. F. T. & Matias, T. S. (2013). Expressão de raiva em praticantes de jiu-jitsu: revisão de literatura. Monografia publicada. UDESC. Florianópolis, s/d. Disponível em: <http://www.pergamum.udesc.br/dados-bu/000000/00000000000C/00000CFF.pdf> Acesso em 04 Jul. 2013

Filho, J. A. M. (2013). Competências psicológicas nos atletas de Jiu-Jitsu participantes do 3º Campeonato Europeu. Dissertação de Mestrado publicada. S.I. Disponível em: < http://repositorio.ispa.pt/handle/10400.12/983> Acesso em 30 Jun. 2013.

Hokino, M. H. & Casal, H. M .V. A (2001). Aprendizagem do judô e os níveis de raiva e agressividade. EDF Esporte.com. Bueno Aires: n.31, 2001. Disponível em: <http://www.efdeportes.com/efd31/raiva.htm> Acesso em 06 Jun. 2013.

Kazdin, A. E. (1982). Single-case research designs.  New York: Oxford University Press.

Silva, E. G. & Casal, H. M. V. (2000). Manifestação de comportamentos agressivos em praticantes de artes marciais. EDF Esporte.com. Bueno Aires: n.25, 2000. Disponível em: <http://www.efdeportes.com/efd25/artesm.htm> Acesso em 06 Jun. 2013.

SpielbergeR, C. D. (2003). Manual do Inventário de Expressão de Raiva como Estado e Traço (STAXI). Tradução e adaptação BAGGIO, A. M. B. Porto Alegre: Vetor.

Alto nível de rendimento: a problemática do desempenho esportivo

ALTO NÍVEL DE RENDIMENTO: A PROBLEMÁTICA DO DESEMPENHO ESPORTIVO

Andrigo Zaar1

Victor Machado Reis2

1Group of Life Sciences Research. Department of Physical Education at the University of the West of Santa Catarina. Chapecó, Brazil.

2Research Center for Sport Sciences, Health and Human Development. University of Trás-os-Montes and Alto Douro (UTAD), Portugal.

Introdução

Desde 1979, data dos primeiros grandes êxitos de Agberto Guimarães, até 2004, com a medalha conquistada por Vanderlei Cordeiro de Lima nos Jogos Olímpicos de Atenas na Grécia, os corredores brasileiros não obtêm sucesso internacional.

Esta lacuna tem atraído vários investigadores desejosos de vislumbrar e perscrutar, em diferentes vertentes, as possíveis respostas e justificações para tal fenômeno. Assim, a investigação nesta área do conhecimento (desempenho no Atletismo) tem sido enfatizada preferencialmente sobre as provas de velocidade, meio-fundo e fundo (VMFF) de alta competição e/ou elite, na tentativa de lhe transmitir mais estabilidade e segurança.

Podemos citar como exemplos, estudos publicados no âmbito da metodologia do treino (Borin e Gonçalves, 2004; Cafruni et al. 2006); sobre bioenergética da corrida (Caputo et al. 2009); no âmbito da caracterização fisiológica, antropométrica e motora (Hegg et al. 1982; Guedes e Guedes, 1997; Tartaruga et al. 2009; Kruel et al. 2007); na vertente sócio-antropológica (Miranda, 2006); e sobre o controle do treino (Colaço, 1999) .

Todavia, apesar de concordarmos ser necessário dar mais solidez aos fenômenos exteriormente mais relevantes, ao Atletismo de alta competição, é também coerente e oportuno pensar, que as razões para esta estagnação nas provas VMFF radica, não só no estágio de plena realização das aptidões desportivas, mas também na profundidade, ou seja, em tudo aquilo que se localiza a montante do êxito, nomeadamente no trajeto ou percurso que decorre até que este seja efetivamente alcançado.

Aludindo a este fato Neves (1995), indica que, a crescente importância atribuída ao sucesso desportivo bem como o prestígio rapidamente conseguido no processo desportivo, tem contribuído para que um vasto número de crianças e jovens submetam-se por vezes, a programas de treino de elevada intensidade e duração, nem sempre compatíveis e ajustados às suas necessidades.

Face ao panorama aqui desenhado e às muitas questões e problemas levantados e que carecem de resposta, constitui-se como propósito do nosso estudo verificar a associação entre o perfil antropométrico, características demográficas e do treinamento dos atletas da seleção brasileira juvenil, participantes de Campeonatos Pan-Americanos e Mundiais de Atletismo.

 

Métodos

Amostra foi compreendida pelos campeões brasileiros juvenis 2013. Foram avaliados 7 atletas do sexo masculino e 6 do sexo feminino, integrantes da seleção brasileira de Atletismo especialistas nas provas de velocidade, meio-fundo e fundo, participantes de Campeonatos Pan-americanos e Mundiais de Atletismo.

A pesquisa desenvolveu-se em duas etapas, sendo a primeira relativa a uma revisão de literatura e a segunda referente a uma pesquisa exploratória ex post facto, do tipo descritiva.

Coleta de dados

Após contatar os atletas e apresentar formalmente os objetivos desta pesquisa, os mesmos assinaram o consentimento informado (livre e esclarecido). Os atletas responderam o questionário sócio demográfico e vinte e quatro horas após a prova procedeu-se a coleta das medidas antropométricas. Para avaliação da massa corporal utilizou-se balança digital portátil, Filizola (Brasil), com variação de 0,1 kg e capacidade de até 150 kg (Gordon et al. 1988). A composição corporal determinada pela técnica de espessura do tecido celular subcutâneo foi realizada com um adipômetro científico da marca Cescorf, com pressão constante de 10 g/mm² na superfície de contato e precisão de 0,1 mm. Foram consideradas as dobras cutâneas tricipital, abdominal, subescapular, suprailíaca e femoral (Harrison et al. 1988). O coeficiente teste-reteste para cada um dos pontos anatômicos com erro de medida de, no máximo ± 1,0 mm. A gordura corporal relativa (percentual de gordura) foi calculada pela fórmula de Siri, a partir da estimativa da densidade corporal (Guedes e Guedes, 1997). Os dados foram analisados através de técnicas de estatística descritiva, e seus resultados apresentados em tabelas com médias ± desvio padrão.

Resultados

Na tabela 1, são apresentadas informações referente a caracterização da amostra. Na tabela 2, são apresentadas as características demográficas dos atletas da seleção brasileira de Atletismo juvenil especialistas nas provas de VMFF.

Tabela 1. Perfil antropométrico dos atletas da seleção brasileira de Atletismo juvenil especialistas nas provas de velocidade, meio-fundo e fundo

Capturar

Tabela 2. Características demográficas dos atletas da seleção brasileira de Atletismo juvenil especialistas nas provas de velocidade, meio-fundo e fundo

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No Quadro 3, confrontam-se as características demográficas e do treino em função da especialidade.

Tabela 3. Características do treino dos atletas da seleção brasileira de Atletismo juvenil especialistas nas provas de velocidade, meio-fundo e fundo

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Discussão

O objetivo deste estudo foi analisar o perfil antropométrico, características demográficas e do treino da seleção brasileira juvenil de Atletismo. O que nos levou a este estudo foi a busca de subsídios para uma resposta à seguinte questão: porque as provas de VMMF brasileiro conseguiram durante as duas últimas décadas do Século XX manter um elevado nível de resultados desportivos que agora parecem difíceis de atingir?

Os resultados do presente estudo indicam que os velocistas e meio-fundistas juvenis estão com níveis de gordura adequado para a especialidade. Porém, os corredores de fundo possuem valores que situam-se no limite superior do referido na literatura, 9% no Masculino e 13,1% no Feminino, quando o ideal é 5% no Masculino e 8% no Feminino (Pollock e Wilmore, 1993).

No que tange as características do treino dos atletas, nota-se que os velocistas e os meio-fundistas iniciaram o treino especializado aos 11 anos de idade. Estes resultados representam um desajuste temporal entre o período ótimo de maturação física e técnica dos corredores brasileiros e as exigências que os mesmos enfrentam no seu treino e competição. De realçar que este fenômeno (possível desajuste na estruturação da carreira) é algo comum nos melhores atletas jovens da América e do Mundo, nas categorias jovens, nas quais se observa incapacidade de confirmar bons resultados enquanto atletas adultos. Este fato poderá ser evitado se o planejamento da metodologia do treino for dividido em etapas, afastando a hipótese de especialização precoce, e contribuindo para o alcance da máxima performance no futuro (Borin e Gonçalves, 2004; Coquart e Bosquet, 2010).

Informações obtidas referente a carreira de atleta, dentre os campeões brasileiros de VMFF juvenis, 30% pensam em outra profissão e 53% não estão convictos em prosseguir a carreira de atleta profissional. Importa aqui destacar a relevância que alguns fatores, como princípios do treinamento, sua estruturação a longo prazo e as etapas de preparação, especialização e aperfeiçoamento, exercem na periodização do treinamento do jovem praticante que objetiva alcançar o alto nível. Neste sentido, a preparação deve ser organizada na base dos pressupostos gerais do ensino, em que o treinamento torna-se uma das formas de educação (Rolim et al. 2003). Assim, a atuação com crianças e adolescentes não deve ser orientada com intenção de rendimento nas primeiras etapas do processo, bem como, a necessidade de se respeitar o princípio da individualidade, a fim de que o atleta possa construir e conduzir-se de acordo com as suas particularidades etárias, suas capacidades e seu nível de preparação (Borin e Gonçalves, 2004).

As provas de VMFF podem ser entendidas como uma atividade que exige dos praticantes uma grande probidade de resistir ao estresse físico e emocional, que implica em capacidade de luta, tenacidade e, por vezes, sofrimento (Rolim et al. 2003).

Mesmo considerando tais condições, que podem variar entre o prazer da auto superação e o desgaste gerado pelo estresse físico e mental, as provas de VMFF são reconhecidamente um fenômeno cuja prática tem se multiplicado rapidamente, atraindo participantes de todas as idades e em todas as camadas sociais do mundo inteiro, tornando sua prática regular para um importante número de jovens e adultos (Rolim et al. 2003). Esta generalizada proliferação da prática desportiva, fez com que o desporto adquirisse grande relevância social.

Apesar de não se conhecer com suficiente profundidade a situação do Atletismo jovem no Brasil, a informação decorrente de estudos exploratórios e tendo por base o nosso conhecimento fatual da realidade, permite-nos ter uma noção suficientemente balizada da dimensão dos problemas. Parte deles também salientados por autores noutros países como Austrália (Arens, 1986), Portugal (Rolim et al. 2003), e Espanha (Grosser et al. 1989), que congregam em nós uma constante preocupação, destacando-se: (i) Atribuição de prêmios em dinheiro aos escalões jovens (infantis a juniores) nas provas de estrada; (ii) Incentivar financeiramente jovens “talentos”, desde a categoria infantil e iniciado, para treinarem; (iii) Transformar os jovens com aparente “talento” em autênticas vedetes; (iv) Começar desde muito cedo a viver um Atletismo demasiado adulto, no plano dos objetivos, dos conteúdos e das práticas; (v) Treinar e competir conjuntamente com os atletas adultos; (vi) Abandonar a escola, o emprego, para se lançar numa dedicação integral ao Atletismo; (vii) Adoção de metodologias de treino desajustadas e à imagem do adulto (especialização precoce, treino intensivo precoce); (viii) Ausência de uma moralização das distâncias das provas de estrada, associada a uma exagerada e frequente participação em competições;  (ix) Aparecimento de muitos jovens com “talento”, mas que jamais o confirmam como adultos; (x) Efêmero sucesso vivido pela quase totalidade dos atuais jovens atletas de VMFF que participam em campeonatos do Mundo ou da América de juvenis, muitas vezes resultado de uma lapidação prematura dos “diamantes” ou o querer colher as maçãs antes da sua plena maturação (Marques, 2004); (xi) Ignorar de uma diferente estrutura de rendimento das disciplinas de VMFF e da importância assumida pela categoria Sub 23 anos, particularmente nos homens; (xii) Na combinação de alguns destes fatores que, não raras vezes, determinam o abandono da prática desportiva.

No conjunto de estudos produzidos sobre treino desportivo é dada menor atenção ao desporto dos jovens que ao desporto dos adultos, apesar de algumas evidências reclamarem e exigirem outras atitudes (Neves, 1995; Rolim et al. 2003; Neves, 2005).

Associados aos motivos expostos, pela sua generalizada importância, também ocasionam maiores e sobretudo mais profundos investimentos no estudo do treino desportivo de crianças e jovens: (i) A pouca consistência do quadro conceitual do treino dos mais jovens, dado que a compreensão nesta área do conhecimento está muito dispersa e difusa; (ii) O reduzido número de atletas jovens que chegam ao alto rendimento, apesar de manifestarem performances de qualidade em idades jovens (Harre, 1982; Grosser et al. 1989; Martin et al. 2001); (iii) A importância que a prática desportiva adquire nos mais jovens, nomeadamente, pelo seu contributo para a saúde (Bar-Or, 1993; Treiber et al. 1989), melhoria da condição física (Pate et al. 1990; Wells, 1986; Zauner et al. 1989), promoção de valores educativos sólidos (Vargas, 1995).

O treino dos mais jovens constitui um novo ramo do treino desportivo, necessariamente distinto do treino do adulto. Os objetivos, os conteúdos, os procedimentos, as preocupações são específicas e diferentes das do desporto dos adultos, havendo necessidade de se enquadrar problemas e particularidades que, muitas das vezes vão além do próprio desporto (Kirsch, 1986).

Para além das fortes motivações pessoais e das razões conferidas, outras há pela sua importância, nomeadamente: (i) A elevada população de jovens que praticam VMFF em comparação com as outras disciplinas do Atletismo; (ii) A generalizada falta de formação específica dos treinadores de Atletismo; (iii) A crescente importância dada pelas instituições e treinadores as etapas iniciais da Preparação Desportiva a Longo Prazo dos atletas jovens (Marques, 2004); (iv) O efetivo desconhecimento de como se processa no Brasil as etapas iniciais da preparação; (v) O elevado número de abandonos da prática do Atletismo de VMFF, por parte de atletas jovens considerados como promissores (Rolim et al. 2003); (vi) O injustificado desajustamento do quadro competitivo do Atletismo jovem (Andrade, 1996); (vii) Os testemunhos de diferentes intervenientes na prática de crianças e jovens e, enfim, a pertinência e relevância do assunto.

Apesar da evolução da metodologia do treino desportivo estar consolidada, o desporto nos jovens parece, ao que tudo indica, enquadrar-se e a reger-se segundo as práticas do desporto dos adultos, às vezes, com a introdução de ligeiras alterações e adaptações de alcance pedagógico muito duvidoso, como, por exemplo as alterações e adaptações para os jovens das regras do Atletismo adulto, destacando-se: (i) Extenso ciclo anual de treino; (ii) Especialização num único desporto e, no caso do Atletismo, num único tipo de prova; (iii) Acentuada especificidade do treino; (iv) Aumento do número de horas de treino por ano; (v) Utilização compulsiva e exagerada de cargas de treino desajustadas; (vi) Participação competitiva especializada.

Além do exagerado valor que o modelo desportivo do adulto tem desde sempre assumido na prática desportiva dos mais jovens (Berryman, 1988), apresenta-nos outras evidências frequentemente encontradas e descritas como a intensificada orientação e supervisão por parte do adulto, nomeadamente exigências de rendimento colocadas por pais, treinadores, dirigentes e adeptos, a ampla cobertura pelos órgãos de comunicação social e a proliferação de competições com exigências elevadas.

Acrescentando a tudo isto, no Atletismo existe a convicção de uma desmedida e sobretudo, inconsequente formação desportiva dos jovens com aparente “talento” para as disciplinas de VMFF, frequentemente salientada através de opiniões de vários intervenientes, como, treinadores, dirigentes, jornalistas, organizadores de provas, médicos, atletas e ex-atletas de alta competição, opiniões estas que, no essencial, se agregam em torno das questões já salientadas.

Neste contexto, os nossos resultados sugerem que existe um desajuste relacionado a solicitação do treino dos integrantes da seleção brasileira juvenil de Atletismo, fato que reflete sobre a perspectiva futura quanto a carreira de atleta profissional.

Conclusão

Em síntese, os atletas da seleção brasileira de Atletismo especialista nas provas de fundo, participantes de Campeonatos Pan-americanos e Mundiais de Atletismo Junior estão com níveis de gordura inadequados para a especialidade. No que tange as características do treino, nota-se que os velocistas e os meio-fundistas iniciaram o treino especializado demasiadamente sedo, em média aos 11 anos de idade. Referente as informações coletadas quanto a carreira de atleta, cerca de 30% pensam em outra profissão e 53% não estão convictos em prosseguir a carreira de atleta profissional. Estes resultados representam um desajuste temporal entre o período ótimo de maturação física e técnica dos corredores brasileiros e as exigências que os mesmos enfrentam no seu treino e competição. Futuras pesquisas sobre a influência do treino e maturação física na evolução da performance com a idade, deverão ter em consideração outras variáveis, como o desempenho destes atletas na categoria adulta.

 

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Esporte e Educação Física: o desafio de educar

 

 

Deyvid Tenner de Souza Rizzo1
Ágata Cristina Marques Aranha2
Clara Maria Silvestre Monteiro de Freitas3
Luciene Pimentel Valençoela4

Ana Paula Moreira de Sousa4

1Universidade Federal da Grande Dourados (UFGD). Universidade de Trás os Montes e Alto Douro (UTAD)

2Universidade de Trás os Montes e Alto Douro (UTAD)

3Universidade Estadual de Pernambuco (UPE). Universidade Federal da Paraíba (UFPB)

4Faculdades Magsul (FAMAG). Departamento de Educação Física

Resumo

O presente estudo é de natureza qualitativa e de cunho etnográfico, que trata da relação do esporte com alunos dentro e fora do contexto escolar. O objetivo principal é observar e descrever as significações de 14 alunos e um professor de Educação Física durante os treinos de futsal e nas aulas de Educação Física na escola por meio de uma etnografia. Objetiva ainda analisar as dimensões do cotidiano escolar e as faces que o esporte possui nesse contexto, assim como a prática pedagógica do professor e seus impactos causados na vida dos sujeitos do estudo e na comunidade escolar. Considerou-se que as significações dos alunos sobre o esporte estão principalmente relacionadas a expectativas e anseios de uma vida melhor e crenças sobre a ampliação de oportunidades que a educação pode garantir por meio da prática esportiva.

Palavras chaves: esporte, educação física, alunos, atletas.

 

Abstract

This study is qualitative and ethnographic, is the sport’s relationship with students inside and outside of school. The main objective is to observe and describe the meanings of 14 students and a teacher of Physical Education during the futsal training and in physical education classes in school through an ethnography, objective remains to examine the dimensions of daily school and faces the sport has in this context, as well as the teacher’s pedagogic practice and its impacts on the life of the study subjects and the school community. It was considered that the meanings of the students about the sport are mainly related to expectations and aspirations for a better life and beliefs about the expansion opportunities that education can ensure through sports.

Key words: sport, physical education, students, athletes.

 

Introdução

O esporte é considerado um dos fenômenos mais importantes do início do século XXI, objeto de estudo de diferentes áreas do conhecimento, no qual a pedagogia contribuiu significativamente para intervenções sobre o processo de ensino e aprendizagem por meio da disciplina Pedagogia do esporte.

Ao falarmos de esporte de excelência (termo que consideramos mais adequado do que esporte de rendimento, contudo, remete a ideia de esporte de alta performance, de espetáculo, de alto nível) ou esporte educacional, acreditamos numa educação para o movimento esportivo, na descoberta e vivência da prática esportiva de forma consciente, autônoma e prazerosa, e estes são alguns dos aspectos presentes no seio de uma prática esportiva consciente, com intuito de ampliar constantemente o repertório motor das pessoas por meio da inclusão de uma prática esportiva para todos, buscando garantir que vivenciem um leque de possibilidades; um esporte voltado para contemplar as diferenças de todos, assim como as singularidades de cada sujeito envolvido.

Não é de hoje que as discussões entre Educação Física (EF), esporte e seus valores pedagógicos vem permeando pesquisas de estudiosos sobre hegemonia e disseminação (GALATTI et al., 2014; KRAVCHYCHYN; OLIVEIRA, 2016; RIZZO et al., 2016). Podemos observar que muitas aulas de EF carregam a hegemonia do esporte dos anos 70 e 80 nos dias atuais. Estudos alertam que o esporte é um fenômeno rico de significados e deve ser tratado pedagogicamente (KUNZ, 2006; GAYA, 2009; VAZ, 2009; LOVISOLO; STIGGER, 2005. TAFFAREL, 2000; BORGES; MUNIZ, 2013).

Na ótica da pedagogia do esporte, estudos demonstram que o tratamento educacional da prática esportiva tem sido marcado por transformações significativas nos dias atuais, as quais começam pela análise da natureza do jogo, gestão das informações e procedimentos aplicados no âmbito da intervenção, da iniciação, especialização, evolução da performance, vivência, recursos, instrumentos e principalmente o processo de ensino dos esportes em geral (BETTEGA et al., 2015; GALATTI et al., 2014; MESQUITA; PEREIRA; GRAÇA, 2009; REVERDITO; SCAGLIA; MONTAGNER, 2013; SADI, 2010; SOARES; MILLEN NETO; FERREIRA, 2013).

Com esse estudo, concluímos que existem situações favoráveis para a aprendizagem e consequentemente o gosto pelo esporte. Ora, se a Educação Física estuda o corpo humano em movimento, o esporte pode ser um componente resultante de uma proposta pedagógica que visa estruturar a aprendizagem não apenas do movimento, mas também aspectos ligados ao próprio movimento, situação que envolve o tratamento educacional, pois se baseia em questões culturais e sociais fundamentadas nas experiências e necessidades das pessoas.

Processos Metodológicos Percorridos

A abordagem da pesquisa é de natureza qualitativa, e caracteriza-se descritiva e interpretativa (TURATO, 2011). Optamos por realizar uma etnografia, no que Geertz (1989) chama de descrição densa do que foi dito e não dito pelos sujeitos do estudo.

O estudo ocorreu com alunos/atletas (entre 11 e 12 anos de idade) que integram uma equipe de futsal de uma escola da rede estadual de Mato Grosso do Sul, sendo estes estudantes do 6º e 7º ano do ensino fundamental, estando todos matriculados na mesma escola. O que levou esses 14 alunos serem selecionados para o estudo foi o fato do treinador de futsal também ser o professor de EF do ensino fundamental. Os treinos ocorreram no contra turno das aulas, e nesse contexto social o professor de EF também era o professor treinador de futsal.

A pesquisa está delineada como em estudo etnográfico. Geertz (1989) define a etnografia como “ciência da descrição cultural”. Velho (2016) afirma que a prolongação dos eventos observados no campo da pesquisa justifica a escolha da etnografia, para um maior aprofundamento sobre tal fenômeno social.  Para a interpretação do que foi anotado ocorreu à elaboração de um diário de campo para análise e interpretação (SILVA; FERREIRA, 2016).

Weber (2009) salienta que é no diário de campo que se exerce plenamente a “disciplina” etnográfica, para que ocorra a relação entre os eventos observados e compartilhados, assim obtendo materiais para análises das práticas, dos discursos e posições dos observados.

Um diário de campo foi utilizado para que as situações e discursos pudessem ser anotados (SEVERINO, 2007), além da realização de entrevistas com diálogos descontraídos e informais.

No contexto de intervenção cotidiana a observação participante caracterizou-se pelo convívio com entre os sujeitos da pesquisa e pesquisadores (SILVA; FERREIRA, 2016). As observações ocorreram às quartas-feiras durante as aulas de EF no período de aula do turno vespertino (13h00min às 13h50min no 6º ano e das 13h50min às 14h40 min no 7º ano). As observações dos treinos ocorreram às terças e sextas-feiras (entre as 07h30min às 09h00min) e nos sábados (08h00min às 10h00min), durante o primeiro semestre de 2016.

Resultados e Discussão

O treino de futsal da presente escola sempre começava com: alongamento, aquecimentos, fundamentos (dribles, passes, chutes, jogadas, etc.). As aulas de EF na escola seguiam um formato diferente dos treinos, causando uma espécie de indagação: — Será que as aulas são sempre assim? Ou será que elas só estão sendo assim pelo fato da presença do pesquisador?

Durante a observação das aulas do professor na escola, percebeu-se que a resposta para as indagações feitas poderiam estar no próprio âmbito escolar dentro e fora da quadra de aula. Reconhecíamos nesse momento o quão seria uma árdua tarefa enquanto etnógrafos analisar as significações dos alunos na escola e no universo da cultura esportiva, as reflexões começam a partir deste momento.

A atenção do professor durante os treinos é especialmente com os alunos de 11 e 12 anos, que no segundo semestre do ano de 2016 ingressarão na disputa do estadual de futsal. Esses mesmos alunos já carregam em suas curtas histórias de atletas vários troféus e medalhas. A escola é famosa por carregar vários títulos em diferentes modalidades, e estes troféus e medalhas são expostos com orgulho na sala da recepção e secretaria da escola.

O futsal deve ter objetivo diferente a do rendimento quando praticado por alunos na escola, uma vez que ele busque benefícios aos alunos assim como o desenvolvimento motor dos mesmos (COIADO, 2013). Por isso, o trabalho do professor para incentivar o retorno de alunos que haviam desistido foi dificultoso. Muitos dos alunos mais velhos optaram por desistir do esporte por conta do estresse, devido as cobranças exacerbadas do antigo treinador e também pela pressão de alguns familiares.

A pressão que meus pais fazem em cima de mim é muito forte, se eu levo gol então, não sei como Max aguenta… a sorte do meu irmão é que passou em duas peneiradas, mó chato essas cobranças da minha mãe, ela dá uma palestra, nem meu pai cobra assim, afs! (KAUÊ)

No intuito de encorajar os jovens alunos, na primeira semana do mês de Abril o professor organizou um campeonato interno para incentivar os chamados de “menos habilidosos”, para que os ensine a lidar com situações adversas, além de proporcionar a prática do espírito de liderança de seus atletas, para que tenham uma melhor conduta nos jogos, e em casa.

Ao final de uma das aulas, perguntei ao professor sobre o papel do esporte nas aulas de EF, ele diz acreditar em uma EF inclusiva por meio do esporte. O professor ainda relatou acreditar ser possível, “fazer com que os garotos possam praticar esporte de uma forma amigável, tanto nas suas aulas quanto nos treinos de futsal”. E ao ser questionado sobre as cargas de treinos, ele deixou claro que mesmo nos treinamentos “pega leve” com os alunos, e nas aulas de EF também, pois respeita o limite de cada um.

Como ratifica Taffarel (2000), muitos professores sofrem com a dicotomia de não saber separar o conteúdo “esporte” da EF escolar. Quando isso ocorre, as aulas tendem a ser parecidas com o treino, e a disseminação do futsal ocorre.

Ao contrário disso, o professor demostrou querer fazer a diferença na vida dos alunos oferecendo-lhes aulas diferentes dos treinos. No início das suas aulas de EF na quadra eram frequentes frases como: “vamos jogar bola professor; quando vai ter futsal; não consigo fazer; isso é chato”. Contudo, mesmo diante de tantas cobranças e reclamações o professor se pautava nas diretrizes curriculares e proporcionava por meio de atividades físicas diversas momentos de enriquecimento do repertório motor dos alunos.

As reclamações dos alunos são parte do cotidiano das aulas de EF, principalmente quando falamos de um número de pessoas cada vez mais sedentárias. As aulas nem sempre agradam a todos, mas cabe aos professores desse ciclo constante de transformações da EF garantirem conteúdos e conhecimentos que signifiquem a cultura do movimento na vida de seus alunos.

Quando nos propomos a ensinar, sabemos dos riscos da aceitação do novo, a rejeição e formas de discriminação que teremos em nossa jornada enquanto professores, os novos métodos não são aceitos muitas vezes só por que são novos, mas pela cultura aos quais os alunos já estão acostumados (FREIRE, 2013).

Vivemos em uma sociedade imediatista e cada vez mais intolerante, os alunos sentem-se mais cômodos com o velho método de ensino que recebiam e com a disseminação do futsal, a explicação das atividades em suas representações são consideradas como menos tempo para a prática do futsal. A predominância do desporto na EF vem sendo tratado como conteúdo trabalhado na escola sem embasamentos científicos, pedagógicos e éticos que podem causar danos e sérios problemas na formação de criança e jovens (TAFFAREL, 2000).

Acabamos tendo enquanto professores a tarefa de capacitar nossos educandos para que possam compreender o contexto e objetivo da aula através dos diálogos e explanações do professor. Forquin (1992) ressalta que se devem fornecer meios para que possam de maneira crítica examinar as crenças de sua própria cultura, ter evolução da representação do mundo, permitir que suas perspectivas aumentem.

Kunz (2006), Neira (2006), Rizzo e Souza (2013), Marcel (2015) afirmam que a principal missão do professor hoje é desenvolver nossos alunos para que sejam cidadãos políticos, sociais e críticos, que saibam de seus deveres enquanto cidadãos; que por meio do esporte possam praticar a solidariedade e adotar tal atitude, que sejam contra atitudes de injustiça que façam mais pela cooperação, ficando incumbido como parte da missão dos educadores em transformar as ações em práticas para desenvolver práticas pedagógicas coerentes.

Os alunos mostraram serem fortemente influenciados pelas palavras do professor, que muitas vezes faz papel de pai, amigo e psicólogo; e desta forma, confirma que a cada dia que se passa a responsabilidade dos professores só aumentam.

Em uma manhã de terça-feira em Maio o treino começou com estranhamentos entre os alunos (discussões e ofensas verbais), e um dos alunos enfurecido com os erros de seu colega deferiu um festival de palavrões. Quatro dos alunos expressavam-se apenas com palavrões, isso demonstra um pouco do ambiente ao qual estão inseridas, essas situações sempre marcavam o treino e aos poucos o professor foi proibindo o uso de algumas palavras colocando punições (advertências verbais e suspensões do treino) aos que as falassem.

Os meninos eram de famílias pobres e não usufruíam de acervos materiais esportivos de boa qualidade, os tênis que eles usavam machucavam, apertavam, perdiam a aderência pelo seu uso acentuado. Certo dia um dos garotos machucou o calcanhar, chegando ao ponto do menino caminhar com dificuldades amparado pelos outros. Mas o quanto suportar a dor pode ser prejudicial à saúde e o cognitivo dessas crianças?

“No sistema esportivo o próprio rendimento máximo tornou-se o objetivo a atingir” (VAZ, 2001, p. 91). Quando questionado, o aluno alegou não querer perder os treinos, pois os jogos se aproximavam. —“Não vou esquentar banco”, disse o aluno com uma expressão de dor e raiva.

Numa conversa após o final da aula de EF, o professor ressaltou a visão que a comunidade escolar tem sobre o esporte; valoriza o esporte apenas pelo caráter competitivo, ou seja, a valorização do seu trabalho era reconhecido por outros colegas de profissão apenas se retornasse de torneios com alunos campeões e com troféu e medalhas.

Contudo, enquanto professores faz-se necessário alertar os alunos quanto à valorização do momento e reconhecimento do próprio corpo e dos outros, não como progresso ou domínio, mas como reconciliação, para que se possa estar atento as alertas que o corpo indica diante dos limites, as próprias e os dos outros, para poder ter consciência da renúncia da busca incessante do progresso (VAZ 2001). É preciso que os alunos saibam respeitar seus limites e interpretar esses sinais, para não ultrapassar os limites das dores causando maiores danos à saúde.

Stigger (2001) alerta que o professor deve buscar manter uma prática esportiva rica de possibilidades.  Na fala e ações dos alunos estudados era perceptível perceber que a concepção de aula e o conteúdo esporte vinham aos poucos mudando. No universo do esporte faz-se necessário descrevermos e interpretarmos o significado do mundo real.

Afinal é através dos nossos discursos que tentamos traduzir, descrever e interpretar o mundo real. É através de nosso verbo que tentamos descrever ou interpretar sobre o significado real do esporte. É também pelas palavras que vemos nos esportes realidades convergentes ou divergentes (GAYA, 2000, p. 04).

As aulas de EF deve ter cooperação, em que os alunos podem aprender significados da derrota e vitória. E para que ocorresse essa interação entre os alunos que treinavam após a aula com os demais estudantes, o professor descaracterizava o esporte, dando mais ênfase no lúdico, buscando a socialização e cooperação entre o grupo.

E como em qualquer aula prática o caráter competitivo dos alunos aflorava, e para que a competitividade não se tornasse agressiva, o professor realizava algumas interferências para que ocorresse a cooperação, para que os alunos pudessem aprender por si só a cooperar e aprender a lidar com o sentimento de derrota e euforia.

A perspectiva sobre a vitória pode deixar de fazer sentido caso os jogadores sintam-se frustrados quando o adversário não parece impor qualquer dificuldade. É possível observar tal fenômeno dia a dia nos campos de competição. O treino também pode perder sentido se não houver esforço para compreender a superação do adversário, pois ganhar e perder faz parte do esporte, e talvez essa prática possa ser considerada uma forma de aprendermos a conviver com ambas as faces da disputa (GAYA, 2000).

Na escola, quando o conteúdo envolve a atividade esportiva, sempre terá algum grau de competição, contudo a mesma não implica que o objetivo principal da escola seja competição, e o esporte não deve ser uma parte agregada, ele deve estar articulado e estruturado no projeto da escola como soma de um todo (LOVISOLO, 2011).

Nas últimas semanas de Junho os treinos ficaram mais intensos, os alunos se preparavam para a disputa dos interescolares. O professor foi convocado para fazer parte da comissão técnica da seleção da cidade, e recebeu a missão de escolher quatro de seus quatorze alunos/atletas (essa denotação “aluno/atleta” é no sentido de caracterizar o aluno enquanto sujeito ativo na escola, mas agora com a tarefa de representar a equipe de futsal de sua cidade como atleta.), e como se estivesse divergindo de suas crenças teve que escolher somente os melhores para fazer parte da seleção que representará o município no estadual de futsal.

Ao abordar o esporte de excelência na escola, percebemos que surgiram sonhos entre alguns alunos, a vontade de dar uma vida melhor para os familiares, a busca pelo reconhecimento, “ser bom” no que se faz e principalmente fazer o que gosta e ainda ganhar dinheiro, logo, são estas algumas significações encontradas entre os alunos que visam se tornar atletas de alto nível.

Considerações Finais

Umas das lutas do professor e também da EF no contexto escolar nos dias atuais é estabelecer uma relação harmoniosa entre esporte e escola, no intuito de garantir que os alunos saibam reconhecer os valores positivos que o esporte em suas dimensões mais amplas pode transmitir, para que seus objetivos sejam maiores do que apenas o da vitória a qualquer custo, para reconhecerem que as aulas não são uma extensão dos treinos.

Foi possível observar a partir do registro descritivo a cultura dessa escola, as características antropológicas e sociais e ainda analisar as diferentes significações que os alunos têm referente ao esporte. Os garotos imersos nas práticas esportivas têm mais chances em relação à perspectiva que a sociedade tem oferecido, o contato com as drogas pode ser muito acessível para garotos que vivem à margem de região onde o tráfico está fortemente inserido e que está arraigado no cotidiano desses alunos/atletas.

Esses garotos buscam além do prestígio e dinheiro uma vida melhor para os seus familiares, eles enxergam no esporte a oportunidade de mudar de vida. Por isso, a prática pedagógica do professor deve sempre respeitar os interesses dos alunos quanto ao esporte, cultura e crenças, para que a prática esportiva não se torne “insignificante”, levando-o mais para o lado democrático, atendendo as necessidades físicas e psicológicas de seus alunos.

Com esse estudo, percebemos que experiências com valores positivos pautadas na prática esportiva proporcionam a seus participantes bem-estar e interesse pela atividade. Somente a obrigatoriedade de participar da prática esportiva não oportuniza efeito educativo para vida do aluno. Das as aulas de EF na escola aos treinos de futsal, o tratamento pedagógico do esporte se mostra importante para oportunizar a construção de valores, do caráter, de respeito às individualidades de alunos/atletas.

 

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O treino em “step” e os protocolos utilizados para análise do VO2máx: uma revisão

Training in “step” and protocols used for analysis vo2max: a review

Juliana Costa1, Adriane Carla Vanni1, Alessandra Dalla Rosa da Veiga1
1URI, Erechim. Brazil

Resumo – A relação entre saúde e exercício físico gera uma busca constante por métodos e alternativas para melhorar o condicionamento físico. Várias modalidades de exercício físico podem ser utilizadas, dentre elas o “step training” que tem sido aplicado pelo profissional de Educação Física. O treinamento em “step” além de aumentar o gasto energético total diário que é uma recomendação comum para aqueles indivíduos que desejam manter o peso ou perder peso, possibilita a melhora da sua capacidade cardiorrespiratória (VO2máx. ). Objetivo foi verificar nas bases de dados quais são os protocolos utilizados no “step training” para análise do VO2máx. na população feminina e masculina com faixa etária entre 18 e 45 anos. Uma revisão de literatura nas bases de dados PubMed, Sport Discus e MEDLINE. Compilados os artigos identificados através de palavras-chave, títulos e pesquisas de bases de dados eletrônicas acima. Os protocolos utilizados para a mensuração do VO2máx. foram em esteira rolante e cicloergômetro. De acordo com os estudos selecionados, pode-se verificar que há um aumento significativo no VO2, independente do protocolo de mensuração utilizado nas pesquisas.

Palavras-chave: consumo de oxigênio; teste de degrau; saúde.

Abstract – The relationship between health and exercise generates a constant search for alternative methods and to improve fitness. Various exercise modalities can be used, among them the “step training” that has been applied by the professional of Physical Education. Training in “step” and increase the total daily energy expenditure which is a common recommendation for those individuals who wish to maintain weight or lose weight , enables improved their cardiorespiratory fitness (VO2max.). To verify the databases which protocols are used in the “step training” for analysis of VO2max. the female and male population aged between 18 and 45 years. A literature review in the databases PubMed, Sport Discus and MEDLINE. Compiled the articles identified by keywords, titles and search electronic databases up. The protocols used for measuring VO2max. They were on a treadmill and cycle ergometer. According to the studies selected, it can be seen that there is a significant increase in VO2, regardless of the measurement protocol used in research.  Keywords: oxygen consumption; step test; Health.

INTRODUÇÃO

A relação entre saúde e exercício físico gera uma busca constante da população por métodos e alternativas para melhorar o condicionamento físico. Várias modalidades de exercício físico podem ser utilizadas e dentre elas, o “step training” que tem sido aplicado pelo profissional de Educação Física.

Para Vasconcelos (2003), o “step” pode ser considerado como uma das inovações mais significativas desde o surgimento da ginástica aeróbica de baixo impacto, ele definitivamente substituiu a ginástica aeróbica.

Segundo Jucá (1993), em 1986, a professora Gym Miller, em virtude de uma lesão sofrida, foi recomendada pelo seu fisioterapeuta a ficar subindo e descendo num banco de madeira, com a finalidade de reforçar os músculos da coxa (quadríceps). Miller, usando de sua criatividade, para não ficar naquele sobe-desce repetitivo, começou a conjugar movimentos de braços com as pernas e fazer variações interessantes.

Olson et al., em 1991, realizaram um dos primeiros estudos em “step”, com coreografia contínua, durante 20 minutos em quatro diferentes alturas. Esse estudo mostrou uma diferença significativa no aumento do consumo de oxigênio (VO2) nas alturas maiores de treinamento. Segundo o Colégio Americano de Medicina do Esporte (ACSM,2006), a aptidão cardiorrespiratória (ACR) é um componente importante na promoção da saúde, refletindo as capacidades funcionais do coração, dos vasos sanguíneos, do sangue, dos pulmões e de grupos musculares específicos aos vários tipos de exercício. A ACR está relacionada à capacidade de executar um exercício, de intensidade moderada a alta, de natureza dinâmica, com participação de grandes grupos musculares, por tempo prolongado. Na perspectiva de tornar a prescrição dos exercícios em “step” mais qualificada, esta pesquisa tem como propósito, verificar quais são os métodos utilizados pelos pesquisadores para avaliar o VO2máx, na modalidade “step training”.

 

METODOLOGIA

Foram selecionadas as pesquisas nas bases de dados: PubMed, Sport Discus e Medline, publicados entre o período de 1980 a 2011, nos idiomas espanhol, inglês e português, que utilizaram protocolos de avaliação do VO2máx em “step training”. Selecionados previamente trinta estudos, foram utilizados três pesquisas que enquadravam-se nos critério de inclusão deste estudo, a mensuração de VO2máx  durante um período de 6 e 24 semanas de treinamento em step com participantes de 18 a 45 anos.

 

RESULTADOS

Figura 1. Estudos em “step training” e seus respectivos protocolos de análise de VO2máx.

JU 

DISCUSSÃO

Após verificar nas bases de dados (PubMed, Sport Discus e MEDLINE) quais são os protocolos utilizados no “step training” para análise do VO2máx.  constatou-se que em nenhum dos estudos utilizou-se  protocolo específico a modalidade.

A escolha de um protocolo se dá, em grande parte, em função de sua aplicabilidade. O protocolo de banco de Balke utiliza bancos de alturas variáveis, envolvendo desta forma, cargas variadas durante o decorrer do teste e pode ser aplicado em crianças a partir de 10 anos até idosos com 60 anos de idade com bom condicionamento físico. Também requer materiais simples e é de baixo custo, o que facilitaria ainda mais a sua aplicabilidade à modalidade apontada nesse estudo. A especificidade denomina o caráter qualitativo das capacidades motoras do homem.  Primeiro, o corpo reage através do meio complexo; logo em seguida há uma adaptação de origem seletiva, condicionada pela especificidade motora do exercício em si, ou seja, há uma correspondência predominante às exigências concretas da atividade ou exercício físico que se está praticando.

Gomes (2002), complementa que a especialização é um princípio de fundamental importância no aperfeiçoamento de qualquer tipo de atuação esportiva,  por isso que, na prática, são usados exercícios semelhantes àqueles que compõem a modalidade esportiva trabalhada. Também Barbanti (1997) diz que a especificidade do treinamento envolve a melhora das capacidades motoras, das atividades funcionais ou específicas do esporte ou exercício físico, com atividades que se aproximem da modalidade trabalhada, de forma a atingir um padrão de recrutamento muscular que acarreta a melhora da sincronização das unidades motoras.

Uma avaliação mais efetiva do desempenho do desporto específico é resultado de uma mensuração laboratorial mais próxima da atividade desportiva real. Portanto, o exercício específico acarreta adaptações específicas que criam efeitos específicos do treinamento. Ao treinar, por exemplo, para atividades aeróbias específicas, a sobrecarga deve solicitar os músculos apropriados, exigidos pela atividade, e proporcionar um estresse do exercício para o sistema cardiovascular.

Para Vasconcelos (2003), o “step” pode ser considerado como uma das inovações mais significativas desde o surgimento da ginástica aeróbica de baixo impacto, ele definitivamente substituiu a ginástica aeróbica. Tendo em vista sua importância fica clara a necessidade de uma mensuração específica de consumo de oxigênio adaptado à modalidade. Tubino e Moreira (2003), acrescentam ainda que, a especificidade refere-se às adaptações nas funções metabólicas e fisiológicas que dependem do  tipo de sobrecarga imposta.

No estudo de Lucca et al. (2008), foram avaliadas 10 mulheres em treinamento de “step training” por 10 semanas, e o protocolo utilizado para mensuração do VO2máx foi o de Bruce, em esteira rolante. Silva et al (2011), aponta que a falta de procedimentos padronizados dificulta a comparação entre os resultados de testes. Isso, aliás, explica a popularidade mantida de protocolos como o de Bruce, cujos resultados são facilmente comparáveis e contam com bases de dados extensas em diversos centros de avaliação. Na pesquisa de Williford et al. (1998), foi utilizado o mesmo tempo de treinamento (10 semanas) para comparar a diferença de ganhos com relação ao VO2máx entre a modalidade corrida (n=20) e o “step training” (n=28) e um grupo-controle (n=11). Já, o estudo de Kraemer et al. (2000) distingue-se dos outros dois estudos supracitados, pelo tempo de treinamento que foi de 12 semanas, com 35 voluntárias e pelo protocolo utilizado em ciclo ergômetro e espirometria indireta.

A modalidade do exercício, a hereditariedade, o estado de treinamento, o sexo, a idade e composição corporal são fatores que afetam o VO2máx. As mulheres alcançam escores de VO2máx 15 a 30 % abaixo dos valores dos homens. E as crianças, até 12 anos de idade, apresentam valores de VO2máx iguais. A partir dos 14 anos, as medidas passam a ser 25% maiores nos meninos do que para as meninas. Aos 16 anos, essa diferença pode ultrapassar os 50%. Isso se explica pelo fato de que os meninos aumentam muito mais sua massa muscular no desenvolvimento, por apresentarem um maior nível de atividade física e testosterona. Já, após os 25 anos, o VO2máx sofre um declínio de 1% ao ano. É importante destacar que, apesar do efeito significativo do envelhecimento, o exercício físico exerce uma influência muito maior, sobre a ACR, do que a idade cronológica, conforme complementam Rogers e Roberts (2002).

De acordo com os estudos selecionados, pode-se verificar que há um aumento significativo no VO2, independente do protocolo de mensuração utilizado nas pesquisas. Verificamos que em nenhum dos estudos selecionados utilizou-se o protocolo específico de acordo com a modalidade trabalhada (teste de degrau). Sabe-se que o VO2máx é considerado o melhor indicador da ACR, mas, por causa do esforço árduo exigido pelo participante, medir VO2máx é muitas vezes nem conveniente e nem seguro para alguns indivíduos. Consequentemente, vários estudos de campo utilizam o exercício submáximo para estimar VO2máx, na tentativa de fornecer um método simples, mas válido, para estimar a ACR em ambientes onde a medida direta da máxima VO2máx não é viável. O teste do degrau é um desses testes e é considerado um teste de campo prático para avaliar a capacidade aeróbia individual (LIU e LIN, 2007). O que não ocorreu com nenhum dos estudos encontrados.

Dantas (1995) salienta que o princípio da especificidade está ligado diretamente aos gestos específicos de uma determinada modalidade e o treinamento utilizado para o aprendizado e o desenvolvimento destes respectivos gestos específicos. E, dessa forma, os resultados obtidos serão muito melhores e mais significativos, independentemente se os indivíduos são atletas, ou apenas pessoas que buscam a melhor qualidade de vida, promovida pelo exercício físico. O autor complementa que, a especificidade sempre esteve intrínseca em todo o treinamento esportivo, desde o mais rústico nas práticas utilitárias, mas tê-lo como princípio norteador e como um dos parâmetros que devem ser levados em consideração, é essencial ao estudo e planejamento crítico e consciente nos treinamentos contemporâneos.

 

CONCLUSÃO

Nenhum dos estudos selecionados utilizou o protocolo específico de acordo com a modalidade trabalhada. Subentende-se que, a falta de procedimentos padronizados dificulta a comparação entre os resultados de testes e explica a popularidade de protocolos como o de Bruce, cujos resultados são facilmente comparáveis. Sugere-se novas pesquisas em que se utilize o protocolo específico da modalidade “step training” para melhor demonstrar estes resultados.

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