O Processo de aprendizagem das Lutas na Educação Física Escolar: novas propostas de uma cultura corporal através das três dimensões dos conteúdos

Jefferson Campos Lopes

Brazilian Union of Education. São Vicente, SP

Resumo: As lutas têm conquistado nos últimos anos seu espaço na educação física escolar dentro da grade curricular de alguns estados Brasileiros. No entanto há um distanciamento existente entre a formação inicial nas Instituições do ensino superior com a realidade encontrada no campo profissional em desenvolver nos ciclos (5 ao 9) e médio das escolas públicas trazendo lacunas e dificuldades no aprendizado pedagógico. Para tal foi realizado uma revisão da literatura nos últimos três anos abordando os seguintes tópicos: ensino das lutas na educação física escolar, a temática das lutas na cultura corporal e desenvolvimento das lutas através de conteúdos. Concluímos que as lutas precisam ser aprimoradas no ensino superior para que os profissionais possam aprender a desenvolvê-las de forma teórica e prática através das dimensões de conteúdos gerando assim aulas que visem a objetividade do movimento corporal como um todo.

Palavras-chave: Lutas, educação física escolar e conteúdo.

Abstract: The struggles have won in recent years its place in school physical education in the curriculum of some Brazilian states. However there is an existing gap between initial training in higher education institutions with the reality found in the professional field to develop in cycles (5-9) and secondary public schools bringing the gaps and difficulties in teaching learning. For this was carried out a literature review in the last four years covering the following topics: teaching of fights in school physical education, the theme of fights on body culture and development of the struggles through content. We conclude that the struggles need to be improved in higher education so that professionals can learn to develop them theoretical and practical manner through the contents of dimensions generating lessons that address the objectivity of body movement as a whole.

Keywords: Fights, physical education and content.

Introdução

As lutas sempre se fizeram presentes na história da humanidade, sejam ligadas contra a hostilidade do meio ambiente, para caça de alimentos, conquista de mulheres e razões de disputas políticas, territoriais e de riqueza.

O substantivo luta do Latim lucta, significa combate, com ou sem armas, entre pessoas ou grupos; disputa (LANÇANOVA, 2006), como o termo arte marcial, é uma composição em Latim arte, (conjunto de preceito ou regras para bem dizer ou fazer qualquer coisa), e maratiale (referente à guerra; bélico, relativo à militares ou a guerreiros),

Segundo (PAIVA, 2015) lutas são jogos regidos pela lógica da oposição entre duas ou mais pessoas no qual, embora o objetivo seja variável onde possui características especificas de ataque e defesa de alvos intrínsecos aos indivíduos e a possibilidade de ataque simultâneo e mútuo.

Na atual educação física brasileira como é direcionada pelos PCN’S , os conteúdos são organizados e selecionados da seguinte forma: conhecimento sobre o corpo; esporte; jogos; lutas; ginásticas e atividades rítmicas e expressivas. Onde o mesmo traz a seguinte definição sobre luta:

As lutas são disputas em que o(s) oponente(s) deve(m) ser subjugado(s), mediante estratégias de desequilíbrio, contusões, imobilizações ou exclusão de um determinado espaço na combinação de ações de ataque e defesa. Caracterizam-se por uma regulamentação específica, a fim de punir atitudes de violência e de deslealdade. Podem ser citados exemplos de luta desde brincadeiras de cabo-de-guerra e braço-de-ferro até práticas mais complexas como da Capoeira, do Judô e do Caratê (BRASIL, 1998).

Segundo os PCN’s (BRASIL, 1988: 96) os objetivos da prática das lutas na escola, são: a compreensão por parte do educando do ato de lutar (por que lutar, com quem lutar, contra quem ou contra o que lutar); a compreensão e vivência de lutas no contexto escolar (lutas X violência); vivência de momentos para a apreciação e reflexão sobre as lutas e a mídia; análise dos dados da realidade positiva das relações positivas e negativas com relação à prática das lutas e a violência na adolescência.

Esse conteúdo da Educação Física escolar está presente no cotidiano social de forma concreta, sobretudo pelo forte apelo midiático das lutas de competição. Nesse contexto, emerge um grande leque de oportunidades para o desenvolvimento de valores, potencialidades, limites e disciplina, além de manifestações socioculturais que permitem ao aluno vivenciar experiências motoras, contato corporal, elaboração de estratégias e troca de informações. Para tanto, propõe-se:

i) Conhecer os aspectos históricos, filosóficos e origem das lutas trabalhadas como conteúdo específico; ii) Apresentar os diversos tipos de lutas e seus desdobramentos na atualidade; iii) Vivenciar movimentos característicos das lutas trabalhadas em outras práticas corporais; iv) Vivenciar as relações corporais consigo mesmo e com o outro; v) Diferenciar formas de apresentação das lutas; vi) Identificar e compreender a influência da mídia, ciência e indústria cultural no âmbito das lutas; vii) Vivenciar modalidades e características peculiares de diferentes lutas; viii) Compreender aspectos relativos a apresentações, festivais e competições de lutas; ix) Ampliar repertório pessoal de movimentos (CONFEF, 2000).

Já Correia e Franchini (2010) admitem que o termo “luta” possui um investimento diversificado de representações e significados, o que lhe confere uma dimensão “polissêmica”.

Em relação ao contexto dos embates físicos/ corporais, o termo “luta” é circunscrito por intenções de subjugações entre os sujeitos a partir de conflitos interpessoais e, algumas vezes, por conteúdos humanos contraditórios e ambivalentes.

Assim percebemos que podemos trabalhar as lutas através dos blocos de conteúdos que segundo Coll et al. (2000) definem conteúdo como uma seleção de formas ou saberes culturais, conceitos, explicações, raciocínios, habilidades, linguagens, valores, crenças, sentimentos, atitudes, interesses, modelos de conduta etc., cuja assimilação é considerada essencial para que se produza um desenvolvimento e uma socialização adequada ao aluno.

Esses conteúdos não devem ser ensinados e aprendidos pelos alunos apenas na dimensão do saber fazer (dimensão procedimental dos conteúdos), mas devem incluir um saber sobre esses conteúdos (dimensão conceitual dos conteúdos) e um saber ser (dimensão atitudinal dos conteúdos), de tal modo que possa efetivamente garantir a formação do cidadão a partir de suas aulas de Educação Física escolar. (DARIDO; RANGEL, 2005)

As lutas são um conteúdo legítimo da Educação Física e podem ser trabalhadas a partir das mais variadas e criativas maneiras. Inúmeros autores as citam e defendem sua utilização. O ensino de uma determinada luta, ou de apenas um determinado gesto, é muito pouco, perto dos inúmeros benefícios que as lutas podem trazer para o aluno. Este é um grande universo que se encaixa perfeitamente às aulas de Educação Física.

Discussão

Através desta revisão bibliográfica obteve-se 14 títulos referentes ao tema Lutas. Na educação física escolar onde abaixo optamos por seguir as perguntas de nossa pesquisa que se refere na abordagem dos tópicos do resumo deste estudo:

1

Figura 1- Tabela de publicações sobre lutas.

Nesta revisão bibliográfica podemos identificar que as lutas corporais devem ser ensinadas porque elas fazem parte da cultura corporal, ou seja, são práticas historicamente importantes e que acompanharam os seres humanos ao longo do tempo, sendo uma das mais elementares manifestações dessa cultura. (CORREIA, 2015; GOMES, 2014; RUFINO, 2013).

Outro fator importante é como definir os objetivos é premissa básica para a prática pedagógica das lutas corporais. Pois através do objetivo ele ajuda a orientar melhor a atividade do aluno no processo de construção de conhecimentos, e também permite que os professores decidam melhor o tipo e grau de ajuda que devem proporcionar. Além disso, é preciso ter em mente o público que será atendido, conhecimentos prévios dos envolvidos nos processos de ensino e aprendizagem, disponibilidade individual para a prática, motivação para realização das atividades, entre outros fatores.

As lutas proporcionam aos alunos oportunidades de desenvolvimento auto perceptivo, pois quando utilizado como instrumento de aprendizagem o seu ensino, colocam dificuldades motoras e psicológicas que ajudam na resolução de problemas. O professor de educação física deve proporcionar aos seus alunos a ampliação do repertório gestual, de maneira a capacitar o corpo para o movimento. Como referências de conteúdos possamos ter como direção o currículo do Estado de São Paulo (2010). (GONÇALVES, 2013; GOMES, 2014; LOPES, 2015).

O professor deve saber enxergar o potencial educacional que diversos conteúdos podem apresentar dentro de suas aulas. Muitos profissionais não tão bem qualificados ainda as consideram um espaço para o aluno exercitar apenas o corpo e aprender a jogar de acordo com as regras e as técnicas previstas em cada esporte, além da ênfase dada às competições.

Para ensinar as lutas na aula de educação física, o professor pode contar com inúmeros recursos como pesquisas na Internet, através dos sites das Federações e Confederações de diferentes lutas, artigos e livros publicados também nos trazem inúmeras informações. Assistir a vídeos e também passá-los aos alunos. Jogos de videogame, desenhos animados, revistas e gibis são ótimos, pois fazem parte do universo da criança. Não devemos abordar somente os aspectos teóricos, mas também os práticos, que por sua natureza mais dinâmica, acabam retendo mais a atenção. O professor também pode contar com a ajuda de outros professores especializados em determinadas lutas no momento de montar as aulas. Ele pode assistir a algumas aulas em academias ou em outras escolas e até mesmo convidar um profissional para ir até a escola em que atua. (GOMES, 2013; LUDGERO, 2014; SILVEIRA, 2014; CORREIA, 2015).

Novas possibilidades do ensino das lutas

Existe a necessidade de procedimentos didáticos pedagógicos do professor que pretende ensinar diversos conteúdo da temática das lutas, sem se prender à apenas uma prática marcial, abrangendo diversos tipos de modalidades diferentes. Dessa forma, GOMES (2008) contribui para a compreensão das lutas/ artes marciais ao propor que a luta é uma:

Prática corporal imprevisível, caracterizada por determinado estado de contato, que possibilita a duas ou mais pessoas se enfrentarem numa constante troca de ações ofensivas e/ou defensivas, regida por regras, com o objetivo mútuo sobre um alvo móvel personificado no oponente.

Assim proponho para uma melhor visualização o modelo adaptado do sistema de interação de lutas (ALMEIDA, 2010) conforme abaixo:

Figura 2- Distâncias e condições de lutas.

Quando falamos em modalidade de lutas estamos descrevendo todas que possam ter um tipo contato físicos. Segundo (GOMES, 2008) uma modalidade de curta distância possui um espaço praticamente nulo entre os oponentes e, para a realização das técnicas e alcance dos objetivos da luta, é necessário que os praticantes se coloquem em contato direto, na distância média seria um espaço moderado que permite a aproximação em situações de ataque entre os oponentes, pois a intenção e o propósito ofensivo vão determinar a distância entre os lutadores e na longa distância, definida pela presença de um implemento, deve haver uma distância maior entre os oponentes para que os mesmos possam manipular de forma adequada esse implemento, fazendo com que o contato entre eles seja através de um objeto.

Seguindo o modelo acima iremos identificar para um melhor entendimento das formas de condição:

  1. TIPO DE CONTATO – pode ocorrer de várias maneiras (através das mãos, dos punhos, dos braços, das pernas, do corpo inteiro ou mediado por um implemento; contínua ou intermitentemente) e deve acontecer para que haja Luta e para que ela se desenvolva. Essa condição exige que os oponentes se toquem (intenção/ propósito) de alguma forma (técnica-tática) para conquistarem o objetivo da luta e obter êxito sobre os adversários.
  2. FORMAS DE ATAQUE /DEFESA – é a interação entre os indivíduos (em alguns momentos é difícil saber se os lutadores estão realizando ações ofensivas ou defensivas) ou nas ações de um dos lutadores (que pode defender com a perna e atacar com os membros superiores concomitantemente).
  3. REGRAS – as Lutas dependem das regras para sua legitimidade e elas devem ser respeitadas para que aconteça um combate. O que é permitido ou proibido tende a determinar as técnicas e táticas usadas pelos lutadores.
  4. IMPREVISIBILIDADE – por mais que se treine ou se planeje uma forma de atuação numa luta, é a relação entre os oponentes que dita uma nova organização ou reestruturação do planejado a cada novo momento durante o combate. Essa imprevisibilidade faz com que o pensar a luta seja tão importante quanto o realizar a ação da luta.
  5. ALVO – os alvos são os próprios lutadores, o contato é o meio pelo qual deverão atingi-los, além de poder ser um fim à medida que determinadas técnicas dependem dele. Com o alvo personificado no adversário, a luta torna-se incondicionalmente imprevisível.

Dessa forma proponho ainda seguir um caminho onde possamos trabalhar as 03 dimensões existentes dentro do Pcn´s. Para que haja essa ampliação das dimensões (COLL, POZO, SARABIA e VALLS 2000) propõem que eles devem ser tratados em três diferentes dimensões: atitudinal, conceitual e procedimental. A dimensão conceitual deve responder à pergunta: “o que se deve saber?” A dimensão procedimental relaciona se à pergunta: “o que se deve fazer?” E, por fim, a dimensão atitudinal abrange a seguinte indagação: “como se deve ser?”

Podemos entender as três dimensões seguindo este modelo de Tese de qualificação Doutorado em Ciências do desporto (UTAD/PORTUGAL) do autor deste artigo com o título de Propostas Metodológicas do ensino das lutas na Educação física escolar:

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Figura 3- Modelo de ensino de lutas.

Considerações finais

Esperamos que nossas reflexões em torno da construção da cultura corporal pelo ensino das lutas partam da premissa de que esse é um tema exigem um continuo e progressivo de pesquisa pelos interessados da área. Assim significa dizer que o nosso desenvolvimento profissional depende, por um lado, da organização sistemática do trabalho que desenvolvemos durante a prática cotidiana e, por outro, da reelaboração. A cada dia devemos desenvolver sobre os nossos próprios saberes para ensinar as lutas nas aulas de Educação Física para que possamos refletir sobre as nossas próprias possibilidades e limitações que enfrentamos no cotidiano escolar. Tivemos a intenção de evidenciar os componentes técnicos da aprendizagem da modalidade bem como propor intervenções pedagógicas que se fazem necessárias para uma melhor condição da aprendizagem. A intervenção sobre essa realidade para transformá-la exige que os próprios profissionais da área mobilizem-se para tornar público os saberes articulados e operacionalizados para atuar no espaço escolar bem como em outros. Estudar sobre os saberes docentes indica e implica que a prática pedagógica dos professores de Educação Física escolar e profissional precisa passar por uma introspecção, sistematização e partilha de saberes. Esse exercício criativo foi muito desafiador para este pesquisador, mesmo considerando que existe poucas publicações expressivas e que se trata de conhecimentos que devem compartilhados e discutidos durante a experiência para o ensino das lutas. Verificou-se que o ensino através das três dimensões do conteúdo ao proporem uma pedagogia dos esportes às Lutas. São exemplos do conceitual: ao trabalhar com os aspectos históricos das Lutas; procedimental: a aprendizagem do saber fazer corporal preconizado nas situações propostas nos diferentes jogos; atitudinal: ao desmitificar os comportamentos violentos associados às Lutas. Vale ressaltar ainda, que tais conteúdos devem estar em consonância com os objetivos almejados, bem como com as estratégias e métodos de ensino e sua consequente avaliação (GOMES et al., 2013). Para finalizarmos gostaria de relembrar que a formação dos profissionais depende dos seus docentes. Segundo (DEL VECCHIO E FRANCHINI, 2006) relatam pelos seus conhecimentos no assunto que os docentes da disciplina de lutas, são frequentemente praticantes ou ex-praticantes de determinado tipo de luta, o que ameniza a falta de domínio do conhecimento, porém limita este domínio para um único estilo ou modalidade de luta.

Referências

  1. BRASIL. Parâmetros Curriculares Nacionais: Educação Física. Brasília: Secretaria de Educação Fundamental, MEC/SEF, 1998.
  2. CORREIA, W. R.; FRANCHINI, E. Produção acadêmica em lutas, artes marciais e esportes de combate. Motriz. Rio Claro, v. 16, n. 1, p. 01 – 09. 2010.
  3. CONSELHO FEDERAL DE EDUCAÇÃO FÍSICA – CONFEF. Carta Brasileira de Educação Física, 2000.
  4. COLL, C.; POZO, J.I.; SARABIA, B.; VALLS, E. Os conteúdos na reforma: ensino e aprendizagem de conceitos, procedimentos e atitudes. Porto Alegre: Artmed, 2000
  5. DARIDO, S.C; RANGEL. I. C. A. Educação física na escola: implicações para a prática pedagógica. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2005.
  6. DEL VECCHIO, Fabrício. B.; FRANCHINI, Emerson. Lutas, artes marciais e esportes de combate: possibilidades, experiências e abordagens no currículo da Educação Física. In: SOUZA NETO, Samuel; HUNGER, Dagmar. Formação profissional em educação física: estudos e pesquisas. Rio Claro: Biblioética, 2006.
  7. GOMES, M. S. P. Procedimentos pedagógicos para o ensino das lutas: contextos e possibilidades. 2008. 119f. Dissertação (Mestrado em Educação Física) – Faculdade de Educação Física Universidade Estadual de Campinas, Campinas, 2008.
  8. GOMES, Nathalia C. et al. O conteúdo das lutas nas séries iniciais do ensino fundamental: possibilidades para a prática pedagógica da Educação Física escolar. Motrivivência, Florianópolis, n. 41, p. 305-320, nov. 2013.
  9. LANÇANOVA, J. E. S. Lutas na Educação Física Escolar: alternativas pedagógicas. 2006. 70 f. Monografia (Licenciatura em Educação Física) – Universidade da Região da Campanha, Alegrete, 2006.
  10. PAIVA, LEANDRO. Olhar clínico nas lutas, artes marciais e modalidades de combate. 1 ed. Manaus; OMP EDITORA, 2015.
  11. SÃO PAULO (Estado). Secretaria da Educação. Currículo do Estado de São Paulo: linguagens, códigos e suas tecnologias. São Paulo: SEE, 2010.
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