Filosofia, Ética e Moral: Um estudo dos valores inerentes às artes marciais

 

Jefferson Campos Lopes 

Marcello Arias Dias Danucalov

Brazilian Union Educational College of São Vicente (UNIBR)

Resumo: As artes marciais têm origem milenar e foram utilizadas ao longo deste tempo para as guerras, autodefesa, saúde e esporte. Este artigo busca produzir informações sobre o contexto da Filosofia nas artes marciais, percorrendo seus significados e possibilidades a serem utilizados na vida pessoal, na convivência na sociedade e como forma de educação da construção da autonomia e sua consciência. Este estudo foi descritivo e exploratório bibliográfico buscando apresentar uma nova perspectiva do verdadeiro caminho entre uma ligação entre a verdade interior e pessoal com sua praticidade global.

Palavras Chaves: Filosofia, artes marciais, educação e sociedade.

Abstract: Martial arts have ancient origin and were used throughout this time for war, self-defense, health and sport. This paper aims to produce information about the context of philosophy in martial arts, running their meanings and possibilities for use in personal life, in living in society and as a means of education of the construction of autonomy and consciousness. This study was descriptive and exploratory bibliographic seeking to present a new perspective on the true path of a link between the inner and personal truth with its overall practicality.

Key words: philosophy, martial arts, education and society.

Filosofia, Ética e Moral

A palavra Filosofia é originária do verbo grego philosophein, que significa amar philia – a sabedoria – sophia – ou ainda, a busca amorosa pela verdade, dependente da corajosa reflexão e do pensar acerca da vida; do mundo; do universo; das relações; das interseções entre distintas consciências. A Filosofia tem sido edificada com base nos questionamentos das práticas políticas, das conquistas da Ciência, da aplicação das novas tecnologias, dos dilemas enfrentados pela Ética, dos desafios econômicos, entre outros como afirmam Pacheco e Nesi (2007). Dentro da Filosofia existem duas linhas que convergem diretamente dentro dos processos da experiência humana que são a Ética e a Moral. Marcondes (2007) diz que etimologicamente, a palavra “Ética” origina-se do termo grego ethos, que significa o conjunto de costumes, hábitos e valores de uma determinada sociedade ou cultura. Os romanos o traduziram para o termo latino mos, moris (que mantém o significado de ethos), dos quais provém moralis, que deu origem à palavra moral em português. De todas as áreas da Filosofia, a Ética ou Filosofia Moral será nosso eixo norteador neste artigo. Segundo Danilo Marcondes, a Ética é:

[…] Uma das áreas que maior interesse desperta no campo da filosofia, sobretudo porque diz respeito diretamente à nossa experiência cotidiana, levando-nos a uma reflexão sobre os valores que adotamos, o sentido dos atos que praticamos e a maneira pela qual tomamos decisões e assumimos responsabilidade em nossa vida (MARCONDES, 2007, p.9).

Etimologicamente, a palavra “ética” origina-se do termo grego ethos, que significa o conjunto de costumes, hábitos e valores de uma determinada sociedade ou cultura. Os romanos o traduziram para o termo latino mos, moris (que mantém o significado de ethos), dos quais provém moralis, que deu origem à palavra moral em português (MARCONDES, 2007, p.9).

Logo, Ética e Moral são a mesma coisa? Sim e não. Apesar dos termos serem sinônimos, aos poucos foi se estabelecendo na sociedade uma diferenciação entre eles.

Na época moderna, considerou-se com frequência que o termo “moral” pudesse estar reservado ao tipo de normas e valores herdados do passado e da tradição, ou então da religião. “Moral” especializou-se mais ou menos no sentido daquilo que “é transmitido”, como código de comportamentos e juízos já constituídos, mais ou menos cristalizados. Nesse sentido, aceitamos ou rejeitamos a moral de uma família ou de um meio, seguimos os preceitos que a caracterizam ou os transgredimos. A moral parece constituir um conjunto fixo e acabado de normas e regras. […] Hoje, ao contrário, o termo “ética” é empregado principalmente para os campos em que as normas e regras de comportamento estão por ser construídas, inventadas, forjadas por meio de uma reflexão que é geralmente coletiva. […] Em resumo, se nós quisermos distinguir os dois termos, “moral” seria referente às normas herdadas, “ética”, às normas em construção. “Moral” designaria principalmente os valores existentes e transmitidos; “ética”, o trabalho de elaboração ou de ajuste necessário em face das mudanças em curso (DROIT, 2012, p.18-19).

Segundo (COTRIM, 2004) a ação humana é fruto de uma escolha entre o certo e o errado, e entre o que é bom e o que é mal. O indivíduo procura se basear em parâmetros socialmente aceitos que lhe permite conviver com as outras pessoas. Em outras palavras, ele busca sempre se guiar pelos conceitos que norteiam a prática dos valores positivos e das qualidades humanas. Tanto a Ética quanto a Moral ocupam-se do estudo dos valores e das condutas humanas, e este estudo é imprescindível para que possamos compreender melhor as condutas consideradas corretas pelos antigos praticantes de artes marciais.

Todos nós lidamos diariamente com desafios éticos. Conjecturamos sobre o bem e o mal, o certo e o errado, o justo e o injusto. Presenciamos o desenrolar da Ética e do estudo dos valores quando, por exemplo, um aluno escolhe sua futura carreira na fase pré-vestibular; um cliente toma uma decisão difícil durante um processo terapêutico qualquer; ou uma equipe de trabalho decide enfrentar um desafio corporativo lançando mão de uma, dentre dezenas de estratégias possíveis. Em todas essas situações estaremos escolhendo vidas supostamente mais valorosas e deixando de viver inúmeras outras que julgamos ter valor menor. Logo, estamos no coração da Ética quando fazemos as seguintes perguntas: Qual escolha é a mais adequada neste momento?; O que ganho se decidir trilhar o caminho A e não o B?; O que perco ao ir em direção de A ou de B?; Como o sistema no qual estou inserido será afetado pela minha escolha?; O que este sistema poderá perder?; O que poderá ganhar?; Como esta escolha afetará a minha vida nos próximos anos? Sendo assim, a Ética ou a Filosofia Moral pode ajudar-nos em pelo menos dois aspectos. O primeiro diz respeito às conjecturas que faz sobre os códigos e sistemas morais elaborados ao longo de nossa história, assim como seus impactos em nossa trajetória existencial. O segundo relaciona-se à organização dos princípios de vida ou valores de conduta capazes de nos orientar para uma ação eticamente correta durante processos deliberativos – ainda que isso seja discutível e enormemente complexo. Se levarmos em consideração a diferenciação dos termos comentada mais acima, o primeiro aspecto estaria relacionado à Moral, e o segundo a Ética.

Independente da cultura em que se esteja inserido, sempre será possível encontrar ideias que definem o que é considerado importante, válido e desejável para uma dada comunidade. Tais ideias refletem os princípios ou valores transmitidos de geração em geração, ou seja, os códigos morais que concedem sentido e direção aos agentes sociais que compõe essa comunidade e ajudam a erigir uma determinada cultura.

As Artes Marciais

As Artes Marciais tem como definição nas suas palavras uma divisão de categorial gramatical/gênero onde Arte é um substantivo feminino e Marcial é um adjetivo de dois gêneros. Assim sua etimologia vem do Latim onde “Ars” significa técnica, capacidade de fazer alguma coisa e “Martiale” refere-se ao Deus Romano da Guerra no sentido de guerra ou militares. Sendo assim segundo (PAIVA, 2015) Artes Marciais são atividades de combate fortemente relacionadas ao regionalismo, no qual o objetivo de defesa e conquista de uma comunidade ou território. As AM sofreram alterações ao longo do tempo, modificando-se com as sociedades em que estão inseridas, mas com alguns aspectos tradicionalistas continuam enraizados, como as de origem oriental. Segundo (DRIGO ET AL. 2005) outra mudança importante foi a transformação de várias delas em modalidades esportivas que podem ser chamadas de esportes de combates e estão inseridas em competições de grande repercussão mundial. Nesta evolução da humanidade foram criadas diversas artes marciais que podemos distingui-las em orientais (Ásia, china e Japão) e ocidentais (mundo) abaixo algumas delas:

  1. Orientais – Judô, karate, jiu jutsu, aikido, kung fu, kendo, taewondo, muay tae, sumo, hapkido, ninjutsu
  2. Ocidentais – boxe, esgrima, kick boxe, capoeira, full contact, savate, sambo, MMA, grego romana.

A sistematização corporal de cada arte marcial terá como diferenciação a sua função em relação às outras. Um dos objetivos na realização do golpe pode ser a imobilização ou projeção como no caso do Jiu Jutsu/Judo, a percussão de golpes com varias partes do corpo com a intenção de causar o nocaute ou minar o adversário como no caso do karate/boxe/muay tae. Assim podemos dizer que a um objetivo duplamente constituído nesta sistematização que o de golpear e não ser golpeado. Cada arte marcial tem uma objetividade característica diferenciada e no cotidiano atual de civilização entendemos que precisamos exercita-la constante par chegarmos a perfeição e controle. Neste sentido um dos caminhos para o alcance desse objetivo é o duelo onde segundo (BARREIRA, 2008) aproxima os participantes de atitudes e comportamentos reais como instrumentalização eficiente das técnicas desenvolvidas em cada arte marcial. Na prática a adesão à guerra é meramente figurativa, pois existe uma linha muito próxima que transita os caminhos da violência e da brutalidade que contradizem a intenção e o aperfeiçoamento natural de seus praticantes. Temos que entender que o duelo através de um combate é meramente um estímulo da qualificação e adequação aos objetivos e subjetivos que visa à preservação da integridade moral e física dos praticantes levando-os a consciência e responsabilidade de uma conduta ético-corporal para manutenção e desenvolvimento do ser humano de vínculo consigo e com seu oponente.

Bases filosóficas das artes marciais

Apesar de muitos estudiosos afirmarem que a Filosofia é oriunda do Ocidente, mais especificamente da Grécia, é inegável que o Oriente, representado, por exemplo, pela Índia, China, Japão, entre outras nações, sempre foi conhecido por seu rico pensamento, identificado por muitos autores como sendo Filosofia Oriental (ZIMMER, 2003). Confucionismo, Budismo, Taoismo e o Hinduísmo são exemplos clássicos do pensamento filosófico Oriental. Parte da Filosofia Oriental caracteriza-se por: reclusão monástica; ascetismo; meditação; oração; exercícios de yoga; cultos diversos e, apesar de diferirem em muitos aspectos, parte de suas Filosofias compartilham a noção de que tais ensinamentos devem nortear a convivência pelo resto da vida.

Inspiradas na Filosofia budista, as artes marciais sempre foram vistas como algo bem mais profundo e significativo do que o mero desenvolvimento técnico com vistas a moldar o corpo e desferir golpes perfeitos. Para os primeiros praticantes, o desenvolvimento de virtudes como fidelidade, tolerância e disciplina, patrocinava o autoconhecimento e guiavam as condutas na vida cotidiana. O “Budismo Zen” surgiu na Índia, onde nasceu o príncipe Sidarta Gautama, o iluminado. Porém, de início, não foi bem aceito lá, alcançando aceitação somente na China e Japão, onde se encontrou com as culturas do Taoismo e Xintoísmo, respectivamente. Assim, o Budismo subdividiu-se em diversas formas de “arte zen” que chegaram ao Ocidente, como a cerimônia do chá, o Ikebana, os Haikais e as artes marciais. Àqueles que buscavam o Budismo para receber orientação sobre a vida-e-morte, os monges transmitiam os ensinamentos de Buda e os métodos de meditação, principalmente o Zazen. É interessante notar que o Zazen passou a ser a técnica por excelência dos praticantes de artes marciais, pois além de levar a pessoa a despertar sua visão interior para contemplar a Verdade, ou seja, a vida-e-morte assim como ela é, proporcionava uma tranquilidade mental e espiritual que se refletia na própria técnica do guerreiro. Podemos conceituar o Budō como o “Caminho Marcial”, sendo a combinação de outros dois conceitos: Bujutsu, que se refere especificamente à aplicação prática de táticas marciais e técnicas de combate real, e Bugei, aperfeiçoamento dessas táticas e técnicas com foco no caráter pessoal e desenvolvimento espiritual. Praticar o Budō significa adotar o Bushido, ou seja, a Moral que subjaz às artes marciais, o código de conduta do praticante. O Bushido enfatiza a disciplina, a tenacidade e o treinamento físico e espiritual. Segundo a filosofia do Budō moderno, o combate não se dá com um inimigo externo, e sim com o “ego”, considerado um inimigo interno, devendo ser combatido e derrotado.

Desenvolvido entre os séculos IX e XII, o Bushido amparou-se nos conceitos do Budismo, Xintoísmo e Confucionismo para elaborar seu próprio ensinamento. Assim, os guerreiros samurais eram treinados para não sentirem medo da morte, pois acreditavam que através da morte, caso esta fosse digna, renasceriam novamente como guerreiros. Essa crença na existência pós-morte foi herdada do budismo, assim como as técnicas de meditação Zen que eliminavam o temor do guerreiro samurai diante situações de perigo. O Xintoísmo contribuiu para a criação de preceitos como a lealdade, o patriotismo e principalmente a referência aos antepassados. A devoção que o samurai deve ter para com o seu povo e o representante do mesmo, o Imperador, são parte de sua essência. Traição ou desonra não se refletiam apenas sobre o malfeitor: todos seus ancestrais e descendentes seriam contaminados por ela. Quanto ao Confucionismo, ele ressalta as obrigações interpessoais de um samurai, seja para com um irmão, um pai, sua mulher etc. Todas essas obrigações são sempre conduzidas pelo ideal de justiça, amor e benevolência. A harmonia com a natureza também era contemplada no código Bushido, apoiada na crença de que a Terra não existe apenas para suprir as necessidades dos seres humanos. Um seguidor do Bushido acredita que a Terra é residência sagrada dos deuses e dos espíritos de seus antepassados e, portanto deve ser zelada com um amor intenso. Todos estes ideais já explanados são identificados em sete virtudes do Bushido: 1. GI = Justiça; 2. YUU = Coragem; 3. JIN = Benevolência; 4. REI = Educação; 5. MAKOTO = Sinceridade; 6. MEIYO = Honra; 7. CHUUGI = Lealdade.

Relação entre a Ética Oriental e a Ocidental

De todas as propostas éticas e morais que surgiram no ocidente, provavelmente a de Immanuel Kant é a que mais se assemelha àquela atrelada às artes marciais. Kant nasceu em Königsberg – atual Kaliningrado – em 22 de abril de 1724 e faleceu nessa mesma cidade em 12 de fevereiro de 1804. É interessante notar que, apesar serem oriundas culturas distintas, a proposta Ética de Kant e aquela encontrada no Bushido guardam entre si algumas similaridades.

É célebre o início de sua obra Crítica da razão pura, onde Kant escreve: “A razão humana, num determinado domínio dos seus conhecimentos, possui o singular destino de se ver atormentada por questões, que não pode evitar, pois lhe são impostas por sua natureza, mas às quais também não pode dar respostas por ultrapassarem completamente as suas possibilidades” (KANT, 1985, p.3). As questões as quais Kant se refere são oriundas da tradição Metafísica: O mundo teve ou não um começo?; O mundo sempre existiu ou foi criado?; A alma humana é imortal ou mortal?; Os seres humanos gozam de liberdade ou seus atos são totalmente determinados pelas leis da natureza? Esta última questão fez com que Kant se debruçasse sobre a Ética, arguindo-se sobre a melhor maneira que um ser humano deveria conduzir sua vida.

Em duas de suas obras, Fundamentos da metafísica dos costumes de 1785 e Crítica da razão prática de 1788, Kant apresentará suas ideias a respeito das maneiras como acredita, o homem deveria conduzir sua vida e orientar suas condutas. Apesar de ser um cristão convicto, para Kant a Moral não pode ser fundamentada em Deus, uma vez que é impossível conhecê-lo. E mesmo que tivéssemos certeza da existência de Deus, ainda assim a Moral seria impraticável, pois nossas ações seriam fundadas no temor e na esperança, no medo da punição e na perspectiva da recompensa, e não na liberdade deliberativa. Agiríamos de forma interessada, e isso para Kant é inadmissível, pois ele ampara sua proposta de filosofia moral em três noções basilares: A liberdade; a definição da virtude como intenção desinteressada; e a universalidade à qual deve tender a ação boa. No que diz respeito à questão Moral, Kant não parte de Deus e sim da antropologia de Rousseau expressa em seu texto Discurso sobre a origem e os fundamentos da desigualdade entre os homens de 1750:

Em todo animal vejo apenas uma máquina engenhosa, à qual a natureza deu sentidos para retornar à sua própria origem e para se garantir até certo ponto de tudo o que tende a destruí-la ou perturbá-la. Percebo exatamente as mesmas coisas na máquina humana; com a diferença de que a natureza sozinha faz tudo nas operações do animal, enquanto o homem participa das suas na qualidade de agente livre. Uma escolhe ou rejeita por instinto, e a outra, por um ato de liberdade: o que faz com que o animal não possa afastar-se da regra que lhe é prescrita, mesmo quando lhe fosse vantajoso fazê-lo, e com que o homem se afaste dela muitas vezes em seu próprio prejuízo. Assim, um pombo morreria de fome perto de uma bacia repleta das melhores carnes, e um gato, sobre montes de frutas ou grãos, embora um e outro pudessem muito bem nutrir-se do alimento que desdenham se ousassem prová-lo. Assim, os homens dissolutos entregam-se a excessos que lhes causam febre e morte, porque o espírito deprava os sentidos e a vontade continua a falar quando a natureza se cala […] Porém, quando as dificuldades que cercam todas essas questões deixam em alguma ocasião de discutir essa diferença entre o homem e o animal, há outra qualidade muito específica que os distingue e sobre a qual não pode haver contestação: é a faculdade de se aperfeiçoar, faculdade que, graças a circunstâncias, desenvolve sucessivamente todas as outras e reside entre nós tanto na espécie quanto no indivíduo; enquanto um animal, ao final de alguns meses, é aquilo que será por toda a vida, e sua espécie, ao final de mil anos, é aquilo que era no primeiro desses mil anos. Por que apenas o homem está sujeito a tornar-se imbecil? Não seria porque, desse modo, ele retorna a seu estado primitivo e, ao perder pela velhice ou outros acidentes tudo o que sua perfectibilidade lhe havia feito adquirir, chega a descer a um nível ainda mais baixo do que o próprio animal, que, por nada ter adquirido nem perdido, continua sempre com seu instinto? (ROUSSEAU, 1983, p.242-243; FERRY, 2012, p.93).

Note que, para Rousseau, a diferença entre o ser humano e o gato não é sustentada por uma fronteira de grau, explicitada na frase “O homem é mais inteligente que o gato”. A diferença repousa no fato de pertencermos a categorias diferentes. Homem é homem e transcende sua natureza. Vai além dela. Já o gato é somente porta voz de sua natureza. Somente manifesta o seu instinto. Somente dá vazão aos seus desejos. Daí emana a conhecida frase de Rousseau: “A vontade ainda fala quando a natureza cala”.

Em sua obra Fundamentação da metafísica dos costumes de 1785 (KANT, 1964) Kant quer determinar por meio da pesquisa o princípio supremo da moralidade, ou seja, aquilo que antecede qualquer dilema moral efetivamente vivido; aquilo que paira sobre tais dilemas; aquilo que está além deles; que os transcenda e seja independente deles; que não esteja atrelado a qualquer tipo de particularidades circunstanciais. Mas, de onde Kant tirou isso? Qual é o conteúdo desse a priori moral? Ao se perguntar sobre o valor das coisas, Kant observa que quase tudo que é assumido como sendo bom pode ser tomado por ruim, e vice versa. A beleza, por exemplo, pode ser usada para amar ou para subjugar; dominar; seduzir com intenções espúrias. A inteligência pode estar a favor da paz ou da guerra. Enfim, aparentemente não há nada que seja intrinsecamente bom ou ruim. O valor das coisas parece não estar ancorado em nada, ao contrário, flutua à deriva e ao sabor das circunstancias. Logo, é necessário encontrar o que é indiscutivelmente bom, e a constatação que Kant faz é que a única coisa que é incontestavelmente boa é a boa vontade. O que é indubitavelmente bom é uma produção a priori da mente, do intelecto. É um juízo sintético feito a priori! Age bem aquele que quis agir bem! A vontade – que é uma característica eminentemente humana -, transcende a natureza humana. Subjuga o desejo; refreia as paixões; contém as inclinações; sobrepuja as pulsões.

No senso comum é bastante recorrente que usemos a palavra vontade como sinônimo de desejo. Todavia, para Kant esses termos são opostos entre si. O homem tem vontade, e ela traduz sua capacidade de deliberar a vida para além de sua natureza, para além de seus impulsos mais desejantes. Como nos ensina Rousseau, o homem não é totalmente governado pelos seus instintos. O homem não nasce pronto. Tem que aprender a viver ao longo de sua trajetória existencial. Por este motivo que o ponto de partida da Moral kantiana é a vontade, pois, segundo Kant, por meio dela podemos decidir agir na contramão dos instintos.

Opondo-se ao senso comum, que costuma definir o homem livre como sendo aquele que faz o que quer, Kant nos convida a pensar de forma radicalmente diferente. Para ele, um homem que satisfaça constantemente os seus desejos não poderá ser considerado um homem livre, pois se tornou escravo dos seus apetites. Sua razão é subjugada pelos seus instintos, suas pulsões, suas paixões, seus desejos. Para Kant, o homem só é verdadeiramente livre quando delibera agir na contramão de seus desejos, ou seja, quando faz aquilo que não quer. Desejos são inclinações do corpo e vontade é um atributo da razão. A vontade negocia constantemente a possibilidade e a conveniência da satisfação de certos desejos, e é uma das bases da responsabilidade, tão cara nos de tomada de decisão. É forçoso transcender a própria natureza por meio da vontade – razão. Daí o significado dos Fundamentos da metafísica dos costumes. A vontade vai além – meta -, dos desejos – natureza/plano físico. Para Kant, a boa vontade é o único bem incondicionado. Todos os demais valores não são bons a priori. Tudo depende de confirmação, exceto a boa vontade. A boa vontade é um valor bom a priori. Independe da experiência. A noção do dever é um dos grandes pilares da filosofia Moral de Kant, e neste sentido ela é muito parecida com as condutas éticas adotadas pelo Bushido e os samurais japoneses, que levavam tão a sério seus deveres que não hesitavam em por fim a própria vida quando as circunstancias contrapunham os seus deveres como samurais aos seus desejos em manter a própria vida. A lei moral kantiana não é natural assim como não são os códigos de conduta dos samurais. Ambos são construídos e supõe esforços constantes por parte de seus agentes e pressupõe a adoção de imperativos hipotéticos e categóricos. O imperativo hipotético é um imperativo de segunda classe. Recebe esse nome devido ao fato dele obedecer a um arcabouço condicionado. Na hipótese de que você queira algo, deverá fazer uma determinada ação! Note que o dever de realizar a ação está condicionado à hipótese de se querer algo. Sendo assim, esse imperativo só o é na hipótese, por exemplo: Na hipótese de querer defender-se, aprenda uma arte marcial. Na hipótese de querer ser mais lúcido e aprender a pensar com mais profundidade e radicalidade, estude Filosofia. A diferença entre o imperativo categórico e o imperativo hipotético é que o categórico não se preocupa com o que você quer, pois suas leis são universais e independem de qualquer circunstância, de qualquer sujeito, em suma, de qualquer coisa, como a honra do samurai ao seu senhor. O imperativo categórico tem relação com o porquê se quer e não com o que se quer. O imperativo categórico nos ajuda a nos opor à natureza, pois muitos deles opõem-se aos nossos desejos mais comezinhos e às nossas pulsões mais animalescas. Todavia, é importante entender que Kant fala como devemos agir e nem impõe valores. Ele simplesmente apresenta procedimentos para que possamos chegar, nós mesmos, às nossas conclusões. “Haja de tal maneira a pretender que o princípio que rege a tua conduta possa se converter num princípio universal”. O critério do imperativo categórico é o da universalidade! Se ao pensar em roubar você aplicar o procedimento acima e chegar à conclusão que o mundo seria insuportável se todas as pessoas – universalidade – agissem da mesma forma, deverá adotar a conduta de não roubar em qualquer circunstancia, em qualquer contexto, em qualquer ocasião. Não roubar tornar-se-á para você, um imperativo categórico, assim como o são as sete virtudes do Bushido.

Budo, Zen, Bushido

Nas artes marciais o Budo refere-se aos sistemas de combate, caminhos marciais, trilhas que representam a consolidação dos princípios mais profundos, decorrentes principalmente nos dias de hoje em tempos de paz exterior e interior. No mundo oriental um dos caminhos para atingir esta evolução parte do principio BUDO que descrever o estilo de vida dos praticantes dessas artes, no qual engloba uma série de aspectos físicos, filosóficos e morais, com foco no auto-aperfeiçoamento, disciplina e crescimento pessoal e espiritual. Não faz sentido definir o budô pelos seus traços de austeridade e de severidade, ou pela espiritualidade do ascetismo. Budô significa literalmente a via marcial. É necessário refletir sobre a prática técnica das artes marciais (bu) em associação com a noção de via (dô). Podemos conceituar o Budō como o “Caminho Marcial”, sendo a combinação de outros dois conceitos: Bujutsu (refere-se especificamente à aplicação prática de táticas marciais e técnicas de combate real) e Bugei (aperfeiçoamento dessas táticas e técnicas com foco no caráter pessoal e desenvolvimento espiritual). Budo é antes de tudo uma atitude, que pode ser inserida em cada pequeno detalhe de nossa vida, pois quando se relaciona o significado latente de Do, que em japonês não significa caminho simplesmente como “via”, mas encerra em si um significado extensamente mais profundo, pois refere-se a todo o “caminho” percorrido em uma vida, do nascimento à morte de uma pessoa, entendemos a magnitude que essa palavra encerra.. Já nas civilizações ocidentais todas as transformações tecnológicas maturaram o então conceito do Budo – transformaram radicalmente as técnicas, os equipamentos e armamentos revolucionando para um paradigma de uma nova finalidade que consiste em imprimir um caráter formador, educacional e esportivo em detrimento da busca pela eficiência letal para o combate bélico. Através do treino das técnicas se cultivaria corpo, mente e espírito para o autodesenvolvimento. Segue caminhos de desenvolvimento da arte, do desporto e de uma perspectiva integrativa entre o homem e seu interior com ele mesmo e a sociedade. No Japão, o Budo (a via do guerreiro) agrupa a totalidade das artes marciais. O Budo aprofundou de maneira direta as relações existentes entre a ética, a religião e a filosofia. Os textos antigos que lhe são consagrados dizem respeito essencialmente à cultura mental e à reflexão sobre a nossa natureza: quem sou eu? Portanto, okanji “Bu” significa também parar a luta, pois o objetivo no Budo não é concorrer com os outros, mas sim encontrar sabedoria, paz e mestria de si. “Do” é a via, o método, o ensinamento para compreender perfeitamente a natureza do nosso próprio Eu, o não-ego (Deshimaru, 1983). Portanto, as artes marciais são essencialmente uma via espiritual (Durix, 1978). A sua relação com o desporto é muito recente (Deshimaru, 1983).

O progresso em Zen significa simplesmente ser humano, se envolver em coisas cotidianas ordinárias e conviver com as pessoas, ajudando que não conseguem sentir pelo menos um pequeno momento de Zen, e assim para um pequeno passo para melhorar a sua própria consciência e generosidade do mundo. É realmente trabalho diário, sem (qualquer expectativa) salário. E por isso, deve ser entendida como uma experiência. A maior diferenciação entre as lutas e outras modalidades esportivas é o fato do objetivo principal ser o enfrentamento físico direto com um adversário ou oponente. Portanto, ao longo das ações técnicas e táticas, há possibilidades que vão sendo criadas devido a este fator de imprevisibilidade, já que o adversário nunca ficará inerte e responderá às reações de forma inesperada, imprevisível. As lições da relação filosofia e artes no âmbito escolar seguem em direção de dar um significado mais apurado aos alunos quanto a se ter através de uma alternativa corporal uma forma de poder buscar as melhores condições para a transição do adolescente para a vida adulta. Pois segundo Formiga et all (2008), os jovens apresentam características biopsicossociais, sendo tais características obtém uma tendência à espontaneidade, passando a descarregar, quase que normalmente, seus impulsos agressivos direta ou indiretamente. Sendo assim, os jovens indicam-se vulneráveis e suscetíveis às influencias vindas do meio social. Logo procuram fora da família aspectos que almejam incorporar a sua realidade pessoal com os quais precisam lidar que constitui uma parte do seu “eu”, porém nem sempre esse “eu” encontra-se integrado a personalidade e a sociedade. Esses jovens procuram se auto-afirmar e também a se identificar, podendo assim, compreender a sua rebeldia e revolta por meio das manifestações agressivas, permeando a abstração que ele mesmo faz e desenvolve de si mesmo acerca dos atributos, capacidades, objetos e atividades que tem e deseja alcançar.

Dentro das escolas a filosofia das artes marciais esta inserida junto ao termo sobre cultura corporal do movimento que neste caso se faz através das lutas que são definidas (PCN´S 1998) como: “disputas em que o(s) oponente(s) deve(m) ser subjugado(s), com técnicas e estratégias de desequilíbrio, contusão, imobilização ou exclusão de um determinado espaço na combinação de ações de ataque e defesa”. Assim o Zen acompanha diretamente o Budo em caminho mental onde desenvolve o corpo, mas especialmente a força mental (e espiritual) e abre o caminho para a sabedoria ou pensando no sentido de exercício que vão superar seus adversário ou situações extremas. Podemos associar a mente humana a um suposto que compreende tudo e tornar-se todo e parte de uma harmonia global e de conformidade com os princípios de uma vida, sobreviveu a todas as exigências e limitações do que é promissor e dedicando- que e sua vida (Suzuki de 2005).

Podemos tentar entender que a mente move a corpo, que para tal exigem um movimento-cuidado de aprender a unir corpo-mente que devera ser ensinado pelo professor no intuito de manter sempre uma vigilância da compreensão da mente sobre o corpo. Podemos através destes seis aspectos, fatores ou perguntas que devem ser feitas a mim mesmo (Cheng Man Ching de 2005):

1. Time (o quanto você exercita a mente?)

2. Alcance (o quanto mergulha no que é mais valioso para alcançar?)

3. Descreva (exercita você músculos apertados em movimentos fortes ou omissões músculo prejudiciais sem esforço?)

4. A adaptação (como desenvolveu a capacidade de aplicar o princípio pelas condições especiais para evitar formas de fixação “servis”?)

5. Competência (com quanta precisão e facilidade de movimentos realizados?)

6. Entendimento (como clara e rapidamente reconhece a importância do princípio?).

Assim ao realizar um estudo sobre o Bushido estes autores mereceram destaque: os trabalhos sobre o espírito guerreiro japonês (LONE, 2005; RAJANIKANTH, 2005); o código de ética do Samurai (bushidô) (SHIN’ICHI, 2008); a análise da obra de Nitobe e o código de ética do Samurai (bushidô) (BEEBY; RODRIGUES, 2009; RODRÍGUEZ NAVARRO; BEEBY, 2010); a missão japonesa e a educação da moral (ITO, 2010); o público japonês e o filme “O último Samurai” (CHUN, 2011); o código de ética bushidô como pedagogia no treinamento esportivo no Japão (MILLER, 2011); e sobre o código de ética bushidô nos relacionamentos interpessoais (LI et al., 2012).

Segundo Hoffmann (2007), o bushidô é um código moral baseado nos costumes dos samurais e acabou por influenciar a nação nipônica, tanto no comportamento, como também, em sua maneira de pensar. Mais do que normas e palavras, o bushidô foi passado de geração em geração e está presente na essência do povo japonês. Ao desmembrar a palavra bushidô, depara-se com dois termos japoneses: bushi e do, em que bushi significa “guerreiro” e do significa “caminho”, logo o sentido de bushidô justamente é: “o caminho do guerreiro” (HOFFMAN, 2007).

O termo bushidô, em japonês Caminho do Guerreiro, designa o código de conduta dos samurais criado durante o Período Tokugawa (1603-1868) quando o ritmo das guerras internas no Japão diminuiu e todo o arquipélago desfrutou de um prolongado tempo de paz. Este código surgiu como instrumento para regrar a vida dos samurais que estavam sem qualificação dentro da sociedade devido à ausência de guerras, visto que quando este estamento surgiu no Período Sengoku (1467-1573) as batalhas eram constantes e havia demanda por este tipo de profissional.

Há quem afirme ser o bushidô um desenvolvimento natural do shidô – código entre os samurais comum no Período Sengoku, outros, como (NAVARRO, 2008) afirmam ser provenientes do kakun – preceitos familiares seguidos por todos pertencentes a um clã ou família, porém, independentemente da origem, devemos ter em mente que se trata de um código ético de influência confucionista. Este código não era escrito e sua transmissão era exclusivamente oral, ou seja, era passado ao discípulo pelo mestre para garantir o domínio da interpretação que o discípulo viesse a ter. Sabe-se que este código ajudou a controlar os samurais que ao final do Período Tokugawa já se encontravam em decadência (SONODA, 1990), sendo que muitos de seus membros eram obrigados a ocuparem cargos públicos, ou se tornavam mercadores e camponeses, visto não haver alocação para eles dentro da sociedade. Ou seja, o regramento do estilo de vida dos samurais evitou que se tornassem outsiders.

Estando longe de finalizar o estudo desse artigo devemos compreender ainda, que nas Artes Marciais, mesmo a questão do “lutar” busca em sua essência original o desenvolver-se com o outro e não contra o outro. Sobretudo, a proposta do caminho da Arte, em seu princípio fundamental, deve ultrapassar as barreiras do local de treino e dar continuidade à vida dos que ali estão envolvidos, pois visa a uma aprendizagem para a vida. Segundo (BREDA at.al. 2010) devemos compreendemos que o princípio de aprendizagem que norteia as Artes Marciais baseia-se na construção do Ser na sua maneira mais significativa. E, a verdadeira compreensão dessas Arte, só se torna possível àqueles que se abrem, de coração puro e de desejos que perpassam a lógica da razão. Assim, esse Ser precisa estar, de fato, aberto a aprender, disposto a entrar nessa relação se doando por inteiro. Podemos tecer essa relação teórica proposta por Mendes e Nóbrega (2009), passando a refletir sobre uma concepção de corpo que busca superar as conhecidas dicotomias, por exemplo, entre corpo e mente, e apontam para uma compreensão de corpo pleno, de historicidade e subjetividade dentro de uma filosofia de vida. Dessa forma, dialogando com os estudos de corpo e a filosofia das Artes Marciais, passamos a entendê-los sobre novos olhares, sobre o viés da educação. Ao pensarmos sobre o corpo devemos compreendê-lo como aspecto primordial da existência humana, já que ele “é a medida da nossa existência no mundo”. Além disso, “o corpo não é uma coisa, nem ideia, o corpo é movimento, gesto, linguagem, sensibilidade, desejo, historicidade e expressão criadora”. Assim, concebemos que o corpo é um múltiplo de dimensões que não se fragmentam, mas, ao contrário, se complementam para caracterizar cada sujeito (NÓBREGA, 2010).

Considerações finais

Cada momento do tempo, segundo sua própria essência, põe uma existência viva e intemporal na construção do Ser. Essas experiências encarnam e contemplam o Ser em sua maneira puramente verdadeira, e é possível evocá-las sem precisar pedir autorização a nenhum dos outros tempos, seja passado, presente ou futuro. Essas experiências adquiridas são da mesma forma que sou meu corpo. Elas não estão ali para mim, eu sou assim por elas me serem. Enquanto sou corpo, engajo-me entre as coisas, e atrelo significações a elas. Minha experiência a partir da presença corporal fazem as coisas existirem para mim enquanto sujeito encarnado, o que torna comum que haja uma educação proveniente dessa relação deste corpo, fundado aqui, nos princípios das Artes Marciais. As Artes Marciais ampliam os conceitos de educação expressiva do Ser. Uma educação para a vida. E apresenta elementos significativos para compreender a aprendizagem que se desenrolam durante o tempo, durante o caminho, e se desenvolve a partir do movimento que atrelam acontecimentos e significações ao corpo. Esses corpos nas Artes Marciais, não expressam somente e tão somente movimentos direcionados com um objetivo único. É gesto, ao mesmo tempo em que é expressão, ao mesmo tempo em que é movimento, é educação. É sutil, é belo, é harmônico, é tradição. Também é doloroso, é árduo e trabalhoso. Trata-se de uma dialética de compreender o corpo e o movimento nas Artes Marciais, a partir de uma lógica recursiva em que as ações são complementares, mas, que este corpo em movimento é o ser-no-mundo capaz de aprende as coisas do mundo de forma a trazer sentidos e significados a partir de uma educação sensível. Dessa forma, pensar nas Artes Marciais enquanto aporte filosófico para a formação do indivíduo, aqui pensado no âmbito da educação e do corpo, é deixar-se levar pela obra de um legado que há séculos existe e que permeia toda a vida de seus disseminadores, professores e alunos, Mestres e Discípulos. Pensando assim, a formação integral do Ser aprofunda-se em seus princípios e valores, permitindo que este elabore e reconheça as estruturas que alicerçam toda a fundamentação que norteiam a prática das Artes Marciais, passando a configurar-se não somente como uma prática desgarrada de seus valores, mas se representando como principio fundamental para sua formação e para a vida. Segundo Chaui (1994), filosofia difere da sabedoria de vida ou modo de viver, pois a filosofia deve ser entendida como análise, reflexão, crítica e busca do fundamento e do sentido da realidade em suas múltiplas formas e indagações. Em outras palavras, filosofia é um modo de pensar e exprimir os pensamentos que surgiu especificamente com os gregos e que, por razões históricas e políticas, tornou-se, depois, o modo de pensar e exprimir predominante da chamada cultura ocidental, embora tenha a filosofia dívidas inestimáveis com a sabedoria dos orientais, em particular pelas viagens que colocaram os gregos em contato com os conhecimentos produzidos por aqueles. Por outro lado, sabedoria de vida ou modo de viver tem relação com contemplação do mundo e dos seres humanos para nos conduzir a uma vida justa, sábia e feliz, ensinando-nos o domínio sobre nós mesmos, e é nesse sentido que se fala em “filosofia” do budismo.

Referências 

APOLLONI, Rodrigo Wolff. Shaolin à Brasileira: Estudo Sobre a Presença e a Transformação de Elementos Religiosos Orientais no Kung-Fu Praticado no Brasil. Dissertação de Mestrado em Ciências da Religião. São Paulo: Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, 2004.

BRASIL, Secretaria de Ensino Fundamental. Parâmetros curriculares nacionais 3º e 4º ciclos do Ensino Fundamental: Educação Física. Brasília: MEC/SEF, 1998.

BREDA, M. et al. Pedagogia do esporte aplicada às lutas. São Paulo: Phorte, 2010.

CHAUI, Marilena. Convite à filosofia. São Paulo: Ática, 1994.

CHENG, M.C. Tai Chi Chuan, Karlovac: Diorama,2007.

Deshimaru, T. (1983). Zen & arts martiaux. Paris: Albin Michel.

Durix, C. (1978). Artes marciais, Super-homem ou Tatsujin? Do-Revista de artes marciais e cultura oriental, 1, 42-43.

DROIT, R.P. Ética: uma primeira conversa. São Paulo: WMF Martins Fontes, 2012.

FERRY, L. Kant. Uma leitura das três “Críticas”. 3ª Edição. Rio de Janeiro: DIFEL, 2012.

FORMIGA, Nilton Soares et alli. Agressão e Autoestima: Um Estudo preliminar em Adolescentes Brasileiros. 2008. Disponívelem:www.psicologia.pt/artigos/textos/A0403.pdf.

HUME, D. Investigações sobre o entendimento humano. São Paulo: Editora UNESP, 2004.

Israel, L. (1998). Cérebro direito, Cérebro esquerdo, Culturas e civilizações. Lisboa: Instituto Piaget.

KANT, I. Crítica da razão pura. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 1985.

KANT, I. Metafísica dos costumes. Petrópolis: Vozes, 2013.

KANT, I. Fundamentação metafísica dos costumes. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1964.

Kauz, H. (1992). A path to liberation, A spiritual and philosophical approach to the martial arts. Woodstock & New York: The Overlook Press.

MARCONDES, D. Textos básicos de Ética: de Platão a Foucault. Rio de Janeiro: Zahar, 2007.

MENDES, Maria Isabel Brandão de Souza; NÓBREGA, Terezinha Petrúcia.Cultura de movimento: reflexões a partir da relação entre corpo, natureza e cultura. Rev. Pensar a prática, vol. 12, nº 2, p. 1-10, maio/ago. 2009.

NIPPON BUDOKAN Foundation. The Martial Ways of Japan.2009.

NOBREGA, Terezinha Petrúcia. Uma fenomenologia do corpo. São Paulo: Editora Livraria da Física, 2010. ______. Merleau-Ponty: o corpo como obra de arte. Cronos, Natal-RN, vol. 9, nº 2, p. 393-403, jul./dez.

OTRIM, Gilberto. Fundamentos de Filosofia. 15ª Ed. São Paulo: Saraiva 2004.

PACHECO, L.K & NESI, M.J. Filosofia. Palhoça: Unisul Virtual, 2007.

ROUSSEAU, J.J. (Os Pensadores). Discurso sobre a origem e os fundamentos da desigualdade entre os homens. 3ª Edição. São Paulo: Abril Cultural, 1983.

Suzuki, Daisetz T. (2005), Zen i samuraji, Karlovac: Dioram.ZIMMER, H. R.(2003) Revisão. Filosofia da India/ compilado por Joseph Campbell; tradução Nilton Almeida, Claudia Bozza e participação de Adriana Césare; versão final Lia. Diskin.Sao Paulo: palas Athena.2 edição 2003.

0 respostas

Deixe um Comentário ou Dúvida

Tem algum comentário ou dúvida sobre o artigo?
Sinta-se livre para contribuir!

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *