CORRELAÇÃO ENTRE VIGOREXIA E OVERTRAINING EM PRATICANTES DE MUSCULAÇÃO

Indiana Bernard Baum

 

RESUMO

Tão importante é a imagem corporal que muitas pessoas vivem em prol da construção do corpo perfeito e acabam desenvolvendo transtornos relacionados à imagem. A vigorexia é um transtorno no qual o indivíduo tem a percepção alterada da imagem corporal e busca incessantemente a hipertrofia muscular. O overtraining, por sua vez, está relacionado ao excesso de treinamento sem a adequada recuperação. A pesquisa é quantitativa caracterizando-se por uma análise transversal de correlação ou de associação e tem por objetivo correlacionar indícios de vigorexia com sintomas de overtraining. Participaram do estudo 50 sujeitos, 35 homens e 15 mulheres praticantes de musculação há, pelo menos, doze meses com frequência mínima de treinos de duas vezes por semana na Academia High Fitness em Eldorado do Sul. Foram utilizados três questionários para a construção do estudo: a) Dados Complementares; b) Complexo de Adônis e c) Sintomas Clínicos do Overtraining. Após os esclarecimentos e a assinatura do termo de consentimento livre e esclarecido, os questionários foram preenchidos pelos voluntários e as respostas analisadas no programa SPSS versão 17. Conclui-se que características mais acentuadas de vigorexia se associam significativamente às características do overtraining e apesar de ser mais significativa para homens, as mulheres demonstram maior tendência ao desenvolvimento isolado tanto da vigorexia quanto do overtraining. Portanto, as mulheres demonstram maior negligência com a saúde em favor da estética.

Palavras-Chave: Autoimagem, Musculação, Desempenho esportivo.

 

ABSTRACT

So important is the body image that many people live for the sake of building the perfect body and end up developing disorders related to the image. Vigorexia is a disorder in which the individual has impaired perception of body image and incessantly searches for muscle hypertrophy. Overtraining, in turn, is related to over-training without adequate recovery. The research is quantitative, characterized by a transversal analysis of correlation or association and aims to correlate indications of vigorexia with symptoms of overtraining. Fifty subjects, 35 men and 15 women practicing bodybuilding for at least 12 months with minimum training frequency twice a week at the High Fitness Academy in Eldorado do Sul participated in the study. Three questionnaires were used to construct the study: a) Complementary Data; b) Adonis Complex and c) Clinical Symptoms of Overtraining. After the clarification and signing of the informed consent, the questionnaires were filled out by the volunteers and the responses analyzed in the SPSS version 17. It is concluded that more pronounced features of vigorexia are significantly associated with the characteristics of the overtraining and, despite being more significant for men, women show a greater tendency to development isolated from both vigorexia and overtraining. Therefore, women show greater health neglect in favor of aesthetics.

Keywords: Self image. Bodybuilding. Sports performance.

 

INTRODUÇÃO

A imagem corporal tem amplo valor na sociedade e pode refletir status social, estilo de vida, disciplina, saúde e jovialidade, mas nem sempre essa é a realidade por trás da boa aparência física.. O padrão de beleza é multifatorial e culturalmente definido, variando de uma nação para outra e segue o que dita a mídia e personalidades influentes.

A crescente supervalorização da imagem corporal é preocupante e como tudo que é excessivo pode acarretar prejuízos definitivos à saúde, como transtornos psicológicos, alimentares e de imagem, síndrome do excesso de treinamento e prática excessiva de cirurgias plásticas. Como não existe uma idade definida para o início do desenvolvimento dos transtornos de insatisfação corporal, é necessário conhecer e estar atento aos seus sinais e sintomas a fim de minimizar seus efeitos nocivos o mais cedo possível, pois desde muito cedo as crianças são expostas a idealização do corpo perfeito através de desenhos animados, filmes, bonecos de heróis e bonecas erotizadas.

A distorção acerca de diferentes características físicas do corpo chama-se transtorno dismórfico corporal e o portador desse transtorno preocupa-se obsessivamente com diferentes características da face e/ou do corpo. A vigorexia é, dessa forma, uma subcategoria dos transtornos dismórficos corporais, onde a insatisfação acerca do corpo está relacionada especificamente a quantidade insuficiente de massa muscular. Como a principal atividade para o aumento do volume muscular é o treinamento de força, musculação, muitos indivíduos com vigorexia podem desenvolver verdadeira compulsão por treinar, passando horas na academia e deixando de lado aspectos importantes da sua vida social e laboral em prol do treinamento

A musculação traz inúmeros benefícios à saúde, isso é fato; contudo o treinamento excessivamente intenso e/ou com grande volume de exercícios sem o adequado descanso entre as sessões de treino e, consequentemente, sem a regeneração muscular pode causar o efeito contrário ao esperado, gerando decréscimo de longo prazo no desempenho físico. O decréscimo de longo prazo no desempenho físico é conhecido como síndrome do overtraining. Portanto, a pressão pela busca do corpo perfeito, ultrapassando as possibilidades fisiológicas, com músculos volumosos e bem desenhados, pode gerar prováveis relações entre vigorexia e overtraining.

A vigorexia é um tema atual, contudo possui pouca literatura e, assim como, o overtraining grande parte das pesquisas são direcionadas a atletas. Por isso emerge a necessidade de estudar outras populações, assim como, explanar profundamente as síndromes de forma isolada e conjuntamente correlacionando-as. A possível correlação entre vigorexia e overtraining tornará mais palpável o diagnóstico dessas síndromes, visto que a obsessão pelo ganho de massa muscular, característica da vigorexia, pode, consequentemente, levar à síndrome do excesso de treinamento.

MATERIAIS E MÉTODOS

O presente estudo possui abordagem quantitativa caracterizando-se por uma análise transversal de correlação (GAYA, 2015). O desenvolvimento dessa pesquisa seguiu todas as exigências da Resolução 466/12 do Conselho Nacional de Saúde.

A população é de praticantes de musculação da academia High Fitness do município de Eldorado do Sul e a amostra foi composta por 50 sujeitos, entre 15 e 60 anos, com pelo menos um ano de treinamento e com freqüência mínima de dois treinos por semana.

Três instrumentos foram utilizados na construção da pesquisa: a) questionário de caracterização da amostra com dados referentes à idade, sexo e questões relativas ao treinamento como intensidade, duração da sessão, freqüência dos treinos e tempo de prática; b) questionário do Complexo de Adônis (QCA) proposto por Popes, Olivardia e Phillips (2000) para entender as preocupações com a imagem corporal e aparência dos músculos e c) questionário do overtraining (QOT) validado por Bara Filho et al. (2013) para verificar os sinais e sintomas do excesso de treinamento.

Os dados foram coletados nas dependências da Academia High Fitness e os instrumentos foram preenchidos pelos próprios voluntários após esclarecimentos acerca da pesquisa e a devida assinatura do termo de consentimento livre e esclarecido.

O tratamentos dos dados se deu através do programa SPSS versão 17 e as medidas de correlação foram realizadas em dois momentos: a) estratificando a amostra por sexo e b) estratificando a amostra por faixas etárias através da correlação ordinal de Spearman com nível de significância de 0,05.

 

RESULTADOS

A tabela 1 expressa a correlação entre o Questionário do Complexo de Adônis (QCA) e o Questionário do Overtraining (QOT), demonstrando que a correlação é similar entre homens e mulheres, mas mais significativa para homens. Portanto, quanto maiores os sintomas da vigorexia, mais fortes tendem a ser os sinais da síndrome do excesso de treinamento, e vice-versa.

            

Por fim, analisando os objetivos dos indivíduos com a prática do treinamento de força, expressos na tabela 2, mais da metade dos homens e das mulheres objetivam prioritariamente o ganho de massa muscular. Para os homens o segundo objetivo mais almejado são os ganhos em saúde e para as mulheres a saúde encontra-se como o objetivo menos relevante, assim como, o desempenho esportivo.


DISCUSSÃO

Soler et al. (2013) observou que não existem diferenças significativas entre praticantes de musculação e fisiculturistas quanto aos níveis de vigorexia e dependência ao exercício. Também contatou-se que em ambos os grupos quanto maior o nível de vigorexia, maior o nível de dependência ao exercício. Em face disto, há evidências de que a dependência aos exercícios físicos é um fator de risco para o desenvolvimento de distúrbios psicológicos que podem levar à vigorexia. (VIEIRA, 2010, p. 35).

De acordo com os achados de Vargas et al. (2013) o motivo da prática de exercícios físicos pelas mulheres, em ordem decrescente é: emagrecimento e tonificação (37,8%), saúde/estética (27%), perda de peso (18,9%), saúde/manutenção do peso (5,4%), hipertrofia (5,4%), saúde/emagrecimento (2,7%) e trabalho (2,7%). Enquanto que para homens, no estudo de Amorim (2010), o que os motiva a treinar musculação é a estética, o prazer e a saúde de forma indissociável, sem diferença significativa entre as opções. Em contrapartida, no presente estudo o motivo principal da prática do exercício físico para as mulheres é o ganho de massa muscular, representando o objetivo de 53,3% da amostra feminina contra 57,1% da amostra masculina. Em ordem decrescente,  20% das mulheres almejam outros objetivos, 13,3% objetivam perda de peso, 6,6% saúde e 6,6% desempenho esportivo. Para os homens, o segundo objetivo principal foi saúde com uma porcentagem de 17,14%, enquanto que para as mulheres saúde aparece atrás de todos os outros.

De acordo com Malysse (2002, p. 6) a França do século XIX, só os homens podiam realizar proezas físicas ou metamorfoses musculares […]. Naquela época, uma mulher forte e musculosa seria considerada um monstro, talvez até exposta num circo. Hoje, no Brasil, são justamente as mulheres “fortes” que ganham as manchetes dos grandes jornais, e o que parece anormal é não cuidar do corpo.

Talvez pelo reflexo midiático, cada vez mais homens e mulheres busquem um corpo musculoso, pois essa é a tendência atual. O corpo sarado e esculpido pela musculação traz, além do status social, uma relação muito forte com bem-estar e saúde; contudo, muitas vezes, este corpo “saudável” é construído através de recursos cirúrgicos e esteróides anabolizantes.

 

CONCLUSÃO

Os resultados demonstram correlação entre os sinais da vigorexia e overtraining, sendo essa correlação mais significativa para homens que para mulheres. Quanto aos objetivos com a prática da musculação, mais da metade dos homens e das mulheres almejam o ganho de massa muscular e, mais fortemente que os homens, as mulheres parecem priorizar a estética em detrimento da saúde. Outros estudos devem ser realizados correlacionando as síndromes da vigorexia e do overtraining a fim de verificar se, de fato, há correlação entre ambas em outras populações.

REFERÊNCIAS

AMORIM, Diogo Perito. Motivação à prática de musculação por adultos jovens do sexo masculino na faixa etário de 18 a 30 anos. 2010. 48 f. TCC (Graduação) – Curso de Educação Física, Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, 2010.

BARA FILHO, Maurício Gattás et al. Adaptação e validação da versão brasileira do questionário de overtraining. Hu Revista, Juiz de Fora, v. 36, n. 1, p.47-53, 28 jul. 2010.

GAYA, Adroaldo e col. O Desafio da Iniciação Científica. Belo Horizonte: Casa da Educação Física, 2015.

MALYSSE, S. Em busca dos (H) alteres-ego: olhares franceses nos bastidores da cultura carioca. In: GOLDEMBERG, M. (org.). Nu e Vestido: dez antropólogos revelam a cultura do corpo carioca. Rio de Janeiro: Record, 2002.

POPE JUNIOR, Harrison G.; PHILLIPS, Katharine A.; OLIVARDIA, Roberto. O Complexo de Adônis: A Obsessão Masculina Pelo Corpo. Rio de Janeiro: Campus, 2000. 316 p.

SOLER, Patrícia Tatiana et al. Vigorexia e níveis de dependência de exercício em frequentadores de academias e fisiculturistas. Revista Brasileira de Medicina do Esporte, [s.i.], v. 19, n. 5, p.343-348, nov. 2013.

VARGAS, Camila Serro et al. Prevalência de dismorfia muscular em mulheres frequentadoras de academia. Revista Brasileira de Nutrição Esportiva, São Paulo, v. 7, n. 37, p.28-34, fev. 2013.

Vieira JLL, Rocha PGM, Ferrarezzi RA. A dependencia pela pratica de exercícios físicos e o uso de recursos ergogênicos. Acta Scientiarum. Health Sciences. 2010;32:35-41.

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