Marcadores cognitivos em escolares praticantes e não praticantes de atividades esportivas

Marcadores cognitivos em escolares praticantes e não praticantes de atividades esportivas

1Patrício Ruan de Sousa Barbosa, 1Matheus Peixoto Dantas, 1Thaisys Blanc dos Santos Simões, 1Breno Guilherme de Araújo Tinoco Cabral

Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN). Departamento de Educação Física.

Introdução: O controle inibitório, que é um dos componentes das funções executivas, dá a possibilidade de escolha e mudança nas ações que teriam respostas condicionadas e impulsivas, sendo também associado ao bom desempenho esportivo e acadêmico de crianças e adolescentes. Objetivo: Comparar o desempenho no teste de controle inibitório de jovens que participam de treinamento esportivo e educação física escolar com os que se restringem à educação física na escola. Métodos: Foram selecionados 148 (10,75 + 0,67 anos; 40,38 + 10,75 Kg; e 1,45 + 0,07 metros), sendo 61 que praticavam apenas a educação física escolar (PEF) e 87 que adicionavam treinamento esportivo à sua rotina (PTE). A mensuração do desempenho de controle inibitório foi realizada através do stroop test, mediante a utilização de um notebook e os resultados foram expressos em milissegundos. Antes das avaliações foi realizada a familiarização. Resultados: Os participantes do grupo (PTE) mostraram melhor desempenho no tempo de reação total (68476,00+13033,00) comparado ao grupo (PEF) (85016,00+19941,00). Além disso, na etapa 3 do stroop test, na qual o controle inibitório é efetivamente avaliado, o grupo (PTE) foi superior ao grupo (PEF), (2275,00+526,90) e (2762,30+869,80), respectivamente. A quantidade de erros também se mostrou menor nessa etapa para o grupo (PTE) em relação ao grupo (PEF), sendo (1,00+2,00) e (3,00+8,00), respectivamente. Para todos os resultados houve diferença significativa (p<0,05). Conclusão: O desempenho de controle inibitório dos jovens que participam de treinamento esportivo somado a prática de educação física escolar se mostrou melhor, em comparação aos que praticam apenas educação física na escola, sendo possível inferir que a prática de treinamento esportivo pode promover melhora no controle inibitório de jovens. Além disso, é possível sugerir que o aumento no número de sessões de exercício físico pode ter relação com o desenvolvimento do controle inibitório.

Introdução

As funções executivas são processos mentais necessários ao planejamento, concentração, organização de informações e resolução de problemas, sendo consenso a sua divisão em três seguimentos principais que são a memória de trabalho, a flexibilidade cognitiva e o controle inibitório (CI) (DIAMOND, 2013). O CI dá a possibilidade de escolha e mudança a ações que teriam respostas condicionadas e impulsivas, portanto é de grande importância para diversos aspectos do cotidiano, como o bom rendimento acadêmico (DIAMOND, 2013) e o sucesso esportivo (VESTBERG et al., 2012). Concomitantemente, tem se mostrado que a capacidade de CI pode ser desenvolvida com a prática esportiva (DIAMOND, 2011), pois a prática de exercício físico pode aumentar o fluxo sanguíneo no cérebro e consequentemente o aporte de nutrientes, resultando numa melhora das funções cognitivas (MEREGE FILHO et al., 2014).

Além disso, em um estudo que utilizou um programa de treinamento de futebol durante seis meses foram encontradas melhoras significativas nas funções executivas, em aspectos como planejamento, atenção e inibição (ALESI et al, 2016). Adicionalmente, foi sugerido que sujeitos que praticam modalidades abertas (e.g. tênis) possuem melhor desempenho cognitivo do que os sujeitos que participam de modalidades fechadas (e.g. natação) (WANG et al., 2013), sendo possível que este resultado ocorra devido ao contexto de imprevisibilidade das modalidades abertas, exigindo dos praticantes uma constante adaptação para a precisão das ações técnicas, táticas e físicas, enquanto que nas modalidades fechadas o praticante sabe o que fazer, pois o ambiente é estável (RUSSO et al., 2010).

Seguindo essa linha, um estudo prévio com crianças praticantes de tênis verificou que um alto nível de aptidão física está relacionado com níveis mais elevados de controle inibitório, memória de trabalho e flexibilidade cognitiva (ISHIHARA et al., 2017) e a melhora desses componentes podem auxiliar no desempenho acadêmico e no futuro profissional (DIAMOND, 2013; MOFFITT et al., 2011). De fato, em um estudo com 1000 indivíduos que foi realizado durante 30 anos, em que ambos os grupos possuíam equivalentes níveis intelectual, socioeconômico e de estrutura familiar, foi possível evidenciar que os participantes que na infância tiveram melhor autocontrole, que é um componente do controle inibitório, estavam mais saudáveis, com melhor qualidade de vida, bem sucedidos financeiramente e menos envolvidos na criminalidade do que os seus pares que apresentaram menor controle inibitório na infância (MOFFITT et al., 2011). Portanto, compreender os componentes relacionados ao desenvolvimento do controle inibitório durante a infância é primordial para o desenvolvimento acadêmico e social dos indivíduos. Assim, o objetivo do estudo é comparar o desempenho no teste de controle inibitório de jovens que participam de treinamento esportivo e educação física escolar com os que se restringem à educação física na escola.

Métodos

Amostra

Foram selecionados em duas escolas 148 sujeitos (10,75 + 0,67 anos; 40,38 + 10,75 Kg; e 1,45 + 0,07 metros), sendo 61 que praticavam apenas a educação física escolar (PEF) e 87 que adicionavam treinamento esportivo à sua rotina (PTE). Como critérios de inclusão, foram adotados: (I) Participar das atividades reportadas; (II) não possuir deficiência cognitiva; (III) entregar o termo de consentimento e o termo de assentimento livre e esclarecido devidamente assinado. Toda a pesquisa seguiu a resolução do conselho nacional de saúde nº 466/12 e as normas da declaração de Helsinque. A pesquisa foi aprovada no Comitê de Ética da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (CEP-UFRN), sob o parecer (nº 1249937/2015).

Procedimentos

As coletas foram realizadas em dois dias diferentes, sendo um dia em cada escola. Em ambas foram realizadas a familiarização do teste de controle inibitório, as avaliações físicas e a separação dos grupos em quem participa de treinamento esportivo e educação física escolar (PTE) e quem se restringe à educação física na escola (PEF).

Instrumentos

Massa e estatura

A massa foi registrada em quilogramas e mensurada através de uma balança eletrônica Filizola®. Enquanto que para medir a estatura, foi utilizado um estadiômetro Sanny ES2020®.

Controle inibitório

Para avaliar o controle inibitório utilizou-se um notebook hp®, no qual foi realizado o teste de stroop proposto por Córdova et al., (2008) que consiste em três etapas de associações, sendo as duas primeiras etapas congruentes e a última incongruente. Na primeira etapa, a criança deveria associar a cor do quadro com a opção de cor correspondente, que estava descrita abaixo. Já na segunda etapa o participante deveria associar as duas palavras iguais. Enquanto que na terceira etapa deveria associar a cor da palavra no centro da tela com a palavra que a designa. Foram obtidos os dados do tempo de reação total (TR) e etapa 3 em milissegundos, o número de erros totais e da etapa 3.

Tempo de Prática contínua (TCP)

Para estipular o tempo de prática contínua em modalidades esportivas foram adotados os seguintes valores numéricos: 1 (TCP menor do que 1 ano); 2 (TCP entre 1 ano e 3 anos); 3 (TCP entre 3 anos e 5 anos); 4 (TCP Acima de 5 anos). Para os não praticantes de esporte, foi atribuído o número 0.

Análise estatística

A normalidade dos dados foi testada através do teste de Kolmogorov-Smirnov. Como o pressuposto de normalidade foi negado, os dados foram expostos em mediana e intervalo interquartil. O teste U de Mann-Whitney foi usado para comparar os grupos. Correlação de Spearman foi usada para verificar associação entre as variáveis e foi adotado os limiares de Hopkins (2002): r< 0,1 trivial; 0,1 – 0,3 pequeno; 0,3 – 0,5 moderado; 0,5 – 0,7 forte; 0,7 – 0,9 muito forte; 0,9 – 0,99 quase perfeito; e 1,0 perfeito. Para todos os procedimentos foi adotado p<0,05.

Resultados

Os dados da tabela 1 mostram que houve diferença significativa (p<0,05) entre os dois grupos, tanto para tempo de reação total e erro total, como também para a etapa 3.

 

A tabela 2 reporta a relação moderada entre o TPC e o desempenho de controle inibitório, demonstrando que quanto maior a experiência com a modalidade esportiva, melhor será o desempenho do tempo de reação, assim como da quantidade de erros na etapa 3 do teste de stroop.

Tabela 2 – Relação entre o tempo de prática continua em modalidades esportivas e controle inibitório.

Discussão

O principal objetivo do estudo foi comparar o controle inibitório de jovens que participam de treinamento esportivo em horário extraescolar e seus pares que se limitam à prática da aula de educação física. Nossa hipótese inicial que adicionar a prática esportiva para os jovens poderia proporcionar maiores benefícios à capacidade de controle inibitório, de fato, foi comprovada. Além disso, nosso estudo mostrou que o tempo de prática contínua de modalidades esportivas tem relação negativa com controle inibitório. Seguindo essa linha de pesquisa e corroborando com os resultados do presente manuscrito, um estudo transversal comparou um grupo de atletas de nível escolar com não atletas e encontrou melhor tempo de reação, com diferença significativa, para o primeiro grupo (0.626 + 0.09) em relação ao segundo (0.656 + 0.11) (TOMCZYK et al., 2018). Em consonância, um estudo longitudinal sugeriu que a prática esportiva em substituição às atividades físicas em intensidades moderada a vigorosa aumenta o desenvolvimento cognitivo de crianças, bem como programas esportivos podem facilitar o desenvolvimento das funções executivas (ISHIHARA; MIZUNO, 2018). Isso mostra a importância do envolvimento das crianças em programas de treinamento esportivo.

Embora nosso estudo não possua um grupo controle para comparar, a prática de atividade física no âmbito escolar pode promover melhora no desempenho cognitivo (ARDOY et al.,2014), porém nossos achados sugerem que a diferença no desempenho entre os grupos pode ser atribuída ao volume de treinamento ao qual os participantes são submetidos na sua rotina. Alinhado com esse resultado, um estudo prévio mostrou que um aumento no número de sessões promove melhoras tanto no desempenho cognitivo quanto acadêmico (ARDOY et al., 2014). Ainda considerando o volume de treinamento, Ishihara e Mizuno (2018), em estudo de 12 meses, identificaram melhoras mais significativas na função executiva dos sujeitos que praticaram tênis quatro vezes por semana, comparadas com outro grupo que realizou o treinamento apenas duas vezes na semana. Considerando essas questões é possível sugerir a necessidade de aumentar o volume de sessões de exercício físico, nos casos em que os indivíduos em idade escolar não tenham acesso ao treinamento específico de uma modalidade esportiva, objetivando a promoção de um melhor desenvolvimento cognitivo.

A intensidade do exercício também aparece como fator importante para as funções cognitivas. Nessa linha de estudo Peruyero et al., (2017) evidenciaram que atividades físicas realizadas em intensidade moderada a vigorosa promoveram melhoras significativas no controle inibitório de adolescentes, se comparada às atividades em intensidade leve a moderada. Já Moreau, Kirk e Waldie (2017) apontam que o exercício de alta intensidade promove melhorias cognitivas robustas, incluindo ganhos tanto no controle cognitivo quanto na memória de trabalho de crianças. Por outro lado, o comportamento sedentário é altamente prevalente em jovens dos países latino-americanos, tendo um índice de 15% que atenderam as recomendações de atividade física e apenas um terço que afirmou participar das aulas de educação física pelo menos três vezes por semana (AGUILAR-FARIAS et al., 2018), portanto, esse cenário pode induzir a uma menor contribuição para o desenvolvimento de controle inibitório em jovens. Todos esses dados somados são relevantes para que sejam elaborados modelos de treinamento eficazes com o objetivo de melhorar os aspectos cognitivos de crianças e adolescentes saudáveis (MEREGE FILHO et al., 2014).

Em conclusão, a participação em programa de treinamento esportivo promove melhora no controle inibitório de jovens. Além disso, é possível sugerir que aumento no número de sessões de exercício físico pode ter relação com o desenvolvimento do controle inibitório.

Referências

AGUILAR-FARIAS, Nicolas et al. A regional vision of physical activity, sedentary behaviour and physical education in adolescents from Latin America and the Caribbean: results from 26 countries. International Journal Of Epidemiology, [s.l.], p.1-11, 15 mar. 2018. Oxford University Press (OUP).

ALESI, Marianna et al. Improving Children’s Coordinative Skills and Executive Functions. Perceptual And Motor Skills, [s.l.], v. 122, n. 1, p.27-46, fev. 2016. SAGE Publications.

ARDOY, D. N. et al. A Physical Education trial improves adolescents’ cognitive performance and academic achievement: the EDUFIT study. Scandinavian Journal Of Medicine & Science In Sports, [s.l.], v. 24, n. 1, p.52-61, 5 jul. 2013. Wiley-Blackwell.

DIAMOND, Adele. Executive Functions. Annual Review Of Psychology, [s.l.], v. 64, n. 1, p.135-168, 3 jan. 2013. Annual Reviews.

 ISHIHARA, Toru et al. Relationship between sports experience and executive function in 6-12-year-old children: independence from physical fitness and moderation by gender. Developmental Science, [s.l.], v. 21, n. 3, p.1-13, 2 maio 2017. Wiley.

ISHIHARA, Toru; MIZUNO, Masao. Effects of tennis play on executive function in 6–11-year-old children: a 12-month longitudinal study. European Journal Of Sport Science, [s.l.], p.1-12, 13 mar. 2018. Informa UK Limited.

MEREGE FILHO, Carlos Alberto Abujabra et al. Influência do exercício físico na cognição: uma atualização sobre mecanismos fisiológicos. Revista Brasileira de Medicina do Esporte, [s.l.], v. 20, n. 3, p.237-241, jun. 2014. FapUNIFESP (SciELO).

MOFFITT, T. E. et al. A gradient of childhood self-control predicts health, wealth, and public safety. Proceedings Of The National Academy Of Sciences, [s.l.], v. 108, n. 7, p.2693-2698, 24 jan. 2011. Proceedings of the National Academy of Sciences.

MOREAU, David; KIRK, Ian J; WALDIE, Karen e. High-intensity training enhances executive function in children in a randomized, placebo-controlled trial. Elife, [s.l.], v. 6, p.1-26, 22 ago. 2017. ELife Sciences Organisation, Ltd..

PERUYERO, Fernando et al. The Acute Effects of Exercise Intensity on Inhibitory Cognitive Control in Adolescents. Frontiers In Psychology, [s.l.], v. 8, p.1-7, 31 maio 2017. Frontiers Media SA.

RUSSO, Francesco di et al. Benefits of Sports Participation for Executive Function in Disabled Athletes. Journal Of Neurotrauma, [s.l.], v. 27, n. 12, p.2309-2319, dez. 2010. Mary Ann Liebert Inc.

TOMCZYK, Christopher P. et al. An Examination of Adolescent Athletes and Nonathletes on Baseline Neuropsychological Test Scores. Journal Of Athletic Training, [s.l.], p.000-000, 15 mar. 2018. Journal of Athletic Training/NATA.

 WANG, Chun-hao et al. Open vs. Closed Skill Sports and the Modulation of Inhibitory Control. Plos One, [s.l.], v. 8, n. 2, p.55773-55773, 13 fev. 2013. Public Library of Science (PLoS).

CORRELAÇÃO ENTRE VIGOREXIA E OVERTRAINING EM PRATICANTES DE MUSCULAÇÃO

Indiana Bernard Baum

 

RESUMO

Tão importante é a imagem corporal que muitas pessoas vivem em prol da construção do corpo perfeito e acabam desenvolvendo transtornos relacionados à imagem. A vigorexia é um transtorno no qual o indivíduo tem a percepção alterada da imagem corporal e busca incessantemente a hipertrofia muscular. O overtraining, por sua vez, está relacionado ao excesso de treinamento sem a adequada recuperação. A pesquisa é quantitativa caracterizando-se por uma análise transversal de correlação ou de associação e tem por objetivo correlacionar indícios de vigorexia com sintomas de overtraining. Participaram do estudo 50 sujeitos, 35 homens e 15 mulheres praticantes de musculação há, pelo menos, doze meses com frequência mínima de treinos de duas vezes por semana na Academia High Fitness em Eldorado do Sul. Foram utilizados três questionários para a construção do estudo: a) Dados Complementares; b) Complexo de Adônis e c) Sintomas Clínicos do Overtraining. Após os esclarecimentos e a assinatura do termo de consentimento livre e esclarecido, os questionários foram preenchidos pelos voluntários e as respostas analisadas no programa SPSS versão 17. Conclui-se que características mais acentuadas de vigorexia se associam significativamente às características do overtraining e apesar de ser mais significativa para homens, as mulheres demonstram maior tendência ao desenvolvimento isolado tanto da vigorexia quanto do overtraining. Portanto, as mulheres demonstram maior negligência com a saúde em favor da estética.

Palavras-Chave: Autoimagem, Musculação, Desempenho esportivo.

 

ABSTRACT

So important is the body image that many people live for the sake of building the perfect body and end up developing disorders related to the image. Vigorexia is a disorder in which the individual has impaired perception of body image and incessantly searches for muscle hypertrophy. Overtraining, in turn, is related to over-training without adequate recovery. The research is quantitative, characterized by a transversal analysis of correlation or association and aims to correlate indications of vigorexia with symptoms of overtraining. Fifty subjects, 35 men and 15 women practicing bodybuilding for at least 12 months with minimum training frequency twice a week at the High Fitness Academy in Eldorado do Sul participated in the study. Three questionnaires were used to construct the study: a) Complementary Data; b) Adonis Complex and c) Clinical Symptoms of Overtraining. After the clarification and signing of the informed consent, the questionnaires were filled out by the volunteers and the responses analyzed in the SPSS version 17. It is concluded that more pronounced features of vigorexia are significantly associated with the characteristics of the overtraining and, despite being more significant for men, women show a greater tendency to development isolated from both vigorexia and overtraining. Therefore, women show greater health neglect in favor of aesthetics.

Keywords: Self image. Bodybuilding. Sports performance.

 

INTRODUÇÃO

A imagem corporal tem amplo valor na sociedade e pode refletir status social, estilo de vida, disciplina, saúde e jovialidade, mas nem sempre essa é a realidade por trás da boa aparência física.. O padrão de beleza é multifatorial e culturalmente definido, variando de uma nação para outra e segue o que dita a mídia e personalidades influentes.

A crescente supervalorização da imagem corporal é preocupante e como tudo que é excessivo pode acarretar prejuízos definitivos à saúde, como transtornos psicológicos, alimentares e de imagem, síndrome do excesso de treinamento e prática excessiva de cirurgias plásticas. Como não existe uma idade definida para o início do desenvolvimento dos transtornos de insatisfação corporal, é necessário conhecer e estar atento aos seus sinais e sintomas a fim de minimizar seus efeitos nocivos o mais cedo possível, pois desde muito cedo as crianças são expostas a idealização do corpo perfeito através de desenhos animados, filmes, bonecos de heróis e bonecas erotizadas.

A distorção acerca de diferentes características físicas do corpo chama-se transtorno dismórfico corporal e o portador desse transtorno preocupa-se obsessivamente com diferentes características da face e/ou do corpo. A vigorexia é, dessa forma, uma subcategoria dos transtornos dismórficos corporais, onde a insatisfação acerca do corpo está relacionada especificamente a quantidade insuficiente de massa muscular. Como a principal atividade para o aumento do volume muscular é o treinamento de força, musculação, muitos indivíduos com vigorexia podem desenvolver verdadeira compulsão por treinar, passando horas na academia e deixando de lado aspectos importantes da sua vida social e laboral em prol do treinamento

A musculação traz inúmeros benefícios à saúde, isso é fato; contudo o treinamento excessivamente intenso e/ou com grande volume de exercícios sem o adequado descanso entre as sessões de treino e, consequentemente, sem a regeneração muscular pode causar o efeito contrário ao esperado, gerando decréscimo de longo prazo no desempenho físico. O decréscimo de longo prazo no desempenho físico é conhecido como síndrome do overtraining. Portanto, a pressão pela busca do corpo perfeito, ultrapassando as possibilidades fisiológicas, com músculos volumosos e bem desenhados, pode gerar prováveis relações entre vigorexia e overtraining.

A vigorexia é um tema atual, contudo possui pouca literatura e, assim como, o overtraining grande parte das pesquisas são direcionadas a atletas. Por isso emerge a necessidade de estudar outras populações, assim como, explanar profundamente as síndromes de forma isolada e conjuntamente correlacionando-as. A possível correlação entre vigorexia e overtraining tornará mais palpável o diagnóstico dessas síndromes, visto que a obsessão pelo ganho de massa muscular, característica da vigorexia, pode, consequentemente, levar à síndrome do excesso de treinamento.

MATERIAIS E MÉTODOS

O presente estudo possui abordagem quantitativa caracterizando-se por uma análise transversal de correlação (GAYA, 2015). O desenvolvimento dessa pesquisa seguiu todas as exigências da Resolução 466/12 do Conselho Nacional de Saúde.

A população é de praticantes de musculação da academia High Fitness do município de Eldorado do Sul e a amostra foi composta por 50 sujeitos, entre 15 e 60 anos, com pelo menos um ano de treinamento e com freqüência mínima de dois treinos por semana.

Três instrumentos foram utilizados na construção da pesquisa: a) questionário de caracterização da amostra com dados referentes à idade, sexo e questões relativas ao treinamento como intensidade, duração da sessão, freqüência dos treinos e tempo de prática; b) questionário do Complexo de Adônis (QCA) proposto por Popes, Olivardia e Phillips (2000) para entender as preocupações com a imagem corporal e aparência dos músculos e c) questionário do overtraining (QOT) validado por Bara Filho et al. (2013) para verificar os sinais e sintomas do excesso de treinamento.

Os dados foram coletados nas dependências da Academia High Fitness e os instrumentos foram preenchidos pelos próprios voluntários após esclarecimentos acerca da pesquisa e a devida assinatura do termo de consentimento livre e esclarecido.

O tratamentos dos dados se deu através do programa SPSS versão 17 e as medidas de correlação foram realizadas em dois momentos: a) estratificando a amostra por sexo e b) estratificando a amostra por faixas etárias através da correlação ordinal de Spearman com nível de significância de 0,05.

 

RESULTADOS

A tabela 1 expressa a correlação entre o Questionário do Complexo de Adônis (QCA) e o Questionário do Overtraining (QOT), demonstrando que a correlação é similar entre homens e mulheres, mas mais significativa para homens. Portanto, quanto maiores os sintomas da vigorexia, mais fortes tendem a ser os sinais da síndrome do excesso de treinamento, e vice-versa.

            

Por fim, analisando os objetivos dos indivíduos com a prática do treinamento de força, expressos na tabela 2, mais da metade dos homens e das mulheres objetivam prioritariamente o ganho de massa muscular. Para os homens o segundo objetivo mais almejado são os ganhos em saúde e para as mulheres a saúde encontra-se como o objetivo menos relevante, assim como, o desempenho esportivo.


DISCUSSÃO

Soler et al. (2013) observou que não existem diferenças significativas entre praticantes de musculação e fisiculturistas quanto aos níveis de vigorexia e dependência ao exercício. Também contatou-se que em ambos os grupos quanto maior o nível de vigorexia, maior o nível de dependência ao exercício. Em face disto, há evidências de que a dependência aos exercícios físicos é um fator de risco para o desenvolvimento de distúrbios psicológicos que podem levar à vigorexia. (VIEIRA, 2010, p. 35).

De acordo com os achados de Vargas et al. (2013) o motivo da prática de exercícios físicos pelas mulheres, em ordem decrescente é: emagrecimento e tonificação (37,8%), saúde/estética (27%), perda de peso (18,9%), saúde/manutenção do peso (5,4%), hipertrofia (5,4%), saúde/emagrecimento (2,7%) e trabalho (2,7%). Enquanto que para homens, no estudo de Amorim (2010), o que os motiva a treinar musculação é a estética, o prazer e a saúde de forma indissociável, sem diferença significativa entre as opções. Em contrapartida, no presente estudo o motivo principal da prática do exercício físico para as mulheres é o ganho de massa muscular, representando o objetivo de 53,3% da amostra feminina contra 57,1% da amostra masculina. Em ordem decrescente,  20% das mulheres almejam outros objetivos, 13,3% objetivam perda de peso, 6,6% saúde e 6,6% desempenho esportivo. Para os homens, o segundo objetivo principal foi saúde com uma porcentagem de 17,14%, enquanto que para as mulheres saúde aparece atrás de todos os outros.

De acordo com Malysse (2002, p. 6) a França do século XIX, só os homens podiam realizar proezas físicas ou metamorfoses musculares […]. Naquela época, uma mulher forte e musculosa seria considerada um monstro, talvez até exposta num circo. Hoje, no Brasil, são justamente as mulheres “fortes” que ganham as manchetes dos grandes jornais, e o que parece anormal é não cuidar do corpo.

Talvez pelo reflexo midiático, cada vez mais homens e mulheres busquem um corpo musculoso, pois essa é a tendência atual. O corpo sarado e esculpido pela musculação traz, além do status social, uma relação muito forte com bem-estar e saúde; contudo, muitas vezes, este corpo “saudável” é construído através de recursos cirúrgicos e esteróides anabolizantes.

 

CONCLUSÃO

Os resultados demonstram correlação entre os sinais da vigorexia e overtraining, sendo essa correlação mais significativa para homens que para mulheres. Quanto aos objetivos com a prática da musculação, mais da metade dos homens e das mulheres almejam o ganho de massa muscular e, mais fortemente que os homens, as mulheres parecem priorizar a estética em detrimento da saúde. Outros estudos devem ser realizados correlacionando as síndromes da vigorexia e do overtraining a fim de verificar se, de fato, há correlação entre ambas em outras populações.

REFERÊNCIAS

AMORIM, Diogo Perito. Motivação à prática de musculação por adultos jovens do sexo masculino na faixa etário de 18 a 30 anos. 2010. 48 f. TCC (Graduação) – Curso de Educação Física, Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, 2010.

BARA FILHO, Maurício Gattás et al. Adaptação e validação da versão brasileira do questionário de overtraining. Hu Revista, Juiz de Fora, v. 36, n. 1, p.47-53, 28 jul. 2010.

GAYA, Adroaldo e col. O Desafio da Iniciação Científica. Belo Horizonte: Casa da Educação Física, 2015.

MALYSSE, S. Em busca dos (H) alteres-ego: olhares franceses nos bastidores da cultura carioca. In: GOLDEMBERG, M. (org.). Nu e Vestido: dez antropólogos revelam a cultura do corpo carioca. Rio de Janeiro: Record, 2002.

POPE JUNIOR, Harrison G.; PHILLIPS, Katharine A.; OLIVARDIA, Roberto. O Complexo de Adônis: A Obsessão Masculina Pelo Corpo. Rio de Janeiro: Campus, 2000. 316 p.

SOLER, Patrícia Tatiana et al. Vigorexia e níveis de dependência de exercício em frequentadores de academias e fisiculturistas. Revista Brasileira de Medicina do Esporte, [s.i.], v. 19, n. 5, p.343-348, nov. 2013.

VARGAS, Camila Serro et al. Prevalência de dismorfia muscular em mulheres frequentadoras de academia. Revista Brasileira de Nutrição Esportiva, São Paulo, v. 7, n. 37, p.28-34, fev. 2013.

Vieira JLL, Rocha PGM, Ferrarezzi RA. A dependencia pela pratica de exercícios físicos e o uso de recursos ergogênicos. Acta Scientiarum. Health Sciences. 2010;32:35-41.

Heart Rate Response During a Professional Football Match

Gian Baldassari Silvestre, Rodrigo Ferro Magosso, Cássio Mascarenhas Robert-Pires

 

RESUMO

A demanda fisiológica à qual um indivíduo esta submetido durante uma partida de futebol tem sido relatada a partir de diferentes parâmetros, como a frequência cardíaca (FC). O objetivo do presente trabalho foi identificar a intensidade de esforço (através da análise da FC) de futebolistas durante sua prática esportiva. A FC de 19 atletas (idade de 26,7± 4,6 anos e peso corporal de 78,1 ± 7,3 kg), foi analisada com uso do software Firstbeat® durante seis partidas, com o menor tempo registrado de 3 minutos durante uma partida. Os atletas apresentaram uma FC média correspondente a 82 ± 0,9% da frequência cardíaca máxima dentro do período analisado. Os menores valores encontrados durante o jogo corresponderam a 62 ± 2,8% da FCmáx e os picos de FC corresponderam a 97,0 ± 0,8% da FCmáx.

Palavras-chave: Frequência cardíaca, futebolistas, intensidade de esforço

 

ABSTRACT

The physiological stress imposed to an individual during a soccer match has been reported by different parameters such as heart rate (HR). The objective of the present study was to identify the intensity of effort (through FC analysis) of soccer players during their sports practice. The HR of 19 athletes (age 26,7 ± 4,6 years old and body weight 78,1 ± 7,3 kg) was analyzed using the software Firstbeat® during six matches, with the shortest recorded time of 3 minutes during a match. Athletes presented average HR corresponding to 82 ± 0.9% of maximum heart rate within the analyzed period. The lowest values found during the game corresponded to 62 ± 2.8% of HRmax and the HR peaks corresponded to 97.0 ± 0.8% of HRmax.

Key words: Heart rate, soccer players, effort intensity

 

INTRODUÇÃO

O futebol é uma modalidade esportiva com características intermitentes, estruturado por movimentos cíclicos e acíclicos, com predominância do metabolismo aeróbio e, em suas ações decisivas, pelo anaeróbio1.

Esta variabilidade de movimentos exige o desenvolvimento de capacidades motoras como resistência e potência aeróbia, resistência e potência anaeróbia, velocidade, agilidade e ótimos níveis de força.

Nos últimos anos, vem crescendo o interesse dos pesquisadores e da população como um todo em conhecer e compreender as reais demandas fisiológicas durante a prática deste esporte.

A demanda fisiológica à qual um individuo esta submetido durante uma partida de futebol tem sido relatada a partir de diferentes parâmetros, como a distância total percorrida, velocidade média de corrida, a temperatura corporal, medidas diretas de oxigênio, concentração de lactato e frequência cardíaca (FC)2.

De acordo com BRUM et al. (2004) o exercício físico caracteriza-se por uma situação que retira o organismo de sua homeostase, pois implica no aumento instantâneo da demanda energética da musculatura exercitada e consequentemente do organismo como um todo. Para suprir a nova demanda metabólica, várias adaptações fisiológicas são necessárias e, dentre elas, as referentes à função cardiovascular.

O tipo e a magnitude da resposta cardiovascular dependem de uma série de fatores como o tipo de exercício executado, nível de condicionamento, intensidade e duração da atividade, nível de hidratação, massa muscular envolvida e até mesmo a temperatura ambiente.

Parece haver um consenso na literatura em geral quanto ao comportamento da frequência cardíaca durante uma partida de futebol; diversos autores relataram que a FC média corresponde a aproximadamente 85% da frequência cardíaca máxima (FCmáx.) variando entre 80 e 90% durante a prática esportiva1,2,4,5,6,7.

O objetivo do presente trabalho visa identificar, através do percentual da frequência cardíaca máxima (%FCmáx.) a intensidade média em que futebolistas atuam durante a sua prática esportiva.

 

MATERIAIS E MÈTODOS

Participaram do estudo 19 atletas do sexo (cujas características estão descritas na tabela 1) pertencentes a um clube da primeira divisão do campeonato paulista que mantêm treinamentos regulares e participação em competições reconhecidas pela Federação Paulista de Futebol (FPF).

Não houve critério de exclusão para o estudo; todos os atletas que entraram em campo foram incluídos na amostra. O menor tempo de jogo registrado foi de 3 minutos. O período de coleta dos dados foi de 22/3/2017 à 15/04/2017 somando um total de seis jogos monitorados.

Para acompanhamento da FC durante os jogos foi utilizado o software Firstbeat®. Este sistema possibilita o registro da FC sem a utilização de um monitor de punho (proibido por colocar em risco a integridade do atleta e de seus adversários).

Tabela 1 – Caracterização da amostra.

Inicialmente, a frequência cardíaca máxima dos atletas foi estimada pelo software através da equação descrita por KARVONEN, KENTALA & MUSTALA (1957) – FCmáx. = 220 – idade; Durante os treinamentos e jogos amistosos da pré-temporada, assim que registrados valores superiores, o software já realizava a atualização automática.

Devido à heterogeneidade do grupo em relação à idade (único fator determinante da frequência cardíaca máxima), utilizamos os valores relativos da FC de cada individuo (%F.C. Máx.). 

RESULTADOS

As respostas da frequência cardíaca de todos os atletas que entraram em campo durante os seis jogos monitorados estão descritos na tabela 2.

Tabela 2 – Médias da frequência cardíaca absoluta (bpm) e relativa (%fc. máx.) máxima, média e mínima mensuradas durante as seis partidas.

Em relação aos valores absolutos, a FC oscilou entre 122 e 192 batimentos por minuto (bpm) representando em valores relativos, 60 a 97% FCmáx. dos voluntários. O comportamento médio da frequência cardíaca durante o monitoramento foi de 162 ± 1,75 bpm, equivalente a aproximadamente 82% da frequência cardíaca máxima dos atletas. A FC mínima variou muito durante os jogos por conta dos intervalos para hidratação, substituições e parada para atendimento médico. Os valores observados permanecem por volta dos 122 bpm (62% FCmáx.).

 

DISCUSSÃO

O principal objetivo do presente estudo foi mensurar a intensidade de esforço através do percentual da frequência cardíaca máxima que um jogador de futebol atua durante a prática esportiva.

Os resultados encontrados evidenciam que esses atletas atuam durante os 90 minutos de uma partida à uma FC média de 82% da frequência cardíaca máxima.

Tal resultado corrobora com a literatura existente; BANGSBO, MOHR & KRUSTUP (2006) encontraram, mediante monitoração da frequência cardíaca em partidas profissionais, valores médios próximos a 85% FCmáx.. MORTIMER et al. (2006) compararam a intensidade de esforço no primeiro e segundo tempo chegando aos valores de 85,2% e 82,7%, respectivamente. Já STØLEN et al. (2005) relataram que a intensidade media da frequência cardíaca varia entre 80 e 90% da FCmáx.

Isso nos permite sugerir que a utilização destas zonas de intensidade durante os treinamentos do dia-a-dia deixará o atleta melhor condicionado e mais preparado para suprir as reais demandas cardiovasculares de uma partida de futebol. COELHO et al. (2008) compararam a intensidade de uma partida, de um coletivo e jogos reduzidos, concluindo que os jogos reduzidos são os que mais se aproximam da realidade de uma partida, em relação as demandas cardiovasculares (84%, 75% e 79% FCmáx., respectivamente).

Esses resultados evidenciam o grau de esforço e a intensidade média durante uma partida de futebol. Vale ressaltar que diversos fatores podem influenciar na intensidade de esforço dos futebolistas, tais como: esquema tático, tipo de marcação, nível do adversário, condições ambientais, etc.

Alguns autores ainda correlacionam a intensidade média do jogo de futebol com o limiar anaeróbio mostrando que este nível de intensidade corresponde à maior parte do tempo de estresse10.

 

CONCLUSÕES

O presente estudo conclui que jogadores de futebol atuam em média à uma intensidade de 82% de sua frequência cardíaca máxima.

 

REFERÊNCIAS

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6 – MORTIMER, Lucas et al. Comparação entre a intensidade do esforço realizada por jovens futebolistas no primeiro e no segundo tempo do jogo de Futebol. Revista Portuguesa de Ciências do Desporto, v. 6, n. 2, p. 154-159, 2006.

7 – BANGSBO, J.; MOHR, M.; KRUSTRUP, P. – Physical and metabolic demands of training and match-lay in the elite football player. Journal of Sports Sciences., 24: 665-674, 2006.

8 – KARVONEN, Martti J.; KENTALA, E.; MUSTALA, O. The effects of training on heart rate; a longitudinal study. In: Annales medicinae experimentalis et biologiae Fenniae. 1957. p. 307.

9 – COELHO, Daniel Barbosa et al. Intensidade de sessões de treinamento e jogos oficiais defutebol. Revista Brasileira de Educação Física e Esporte, v. 22, n. 3, p. 211-218, 2008.

10 – OSIECKI, Raul et al. Parâmetros antropométricos e fisiológicos de atletas profissionais de futebol. Journal of Physical Education, v. 18, n. 2, p. 177-182, 2008.

EFFECTS OF 12 WEEKS OF PERIODIZED TRAINING IN ROAD RUNNING PRACTICE

1Matheus Lucena Gouveia de Araújo, 1Andrigo Zaar, 1José Ricardo de Assis Nunes, 1Luís Felipe Gomes Barbosa Pereira Lemos, 1Jonnathan Araruna Braga, 2 Jamilly Evellyn Soares de Sena, 1Vinícius Carlos de Oliveira.

 

1Departamento de Educação Física, Centro Universitário de João Pessoa (UNIPÊ). João Pessoa-Paraíba, Brasil.

2Acadêmica do Curso de  Fisioterapia do Centro Universitário de João Pessoa (UNIPÊ). João Pessoa-Paraíba. Brasil

 

RESUMO

Objetivo: Verificar o efeito de 12 semanas de treinamento no VO2máx.e na composição corporal de corredores recreacionais. Participaram do estudo 10 praticantes de corrida de rua onde foram submetidos a um treinamento para prova de 21quilômetros (km), do gênero masculino com média de 29,9 anos ± 7,2 e com tempo mínimo de seis meses de treinamento. Método: O estudo foi embasado na metodologia de natureza descritiva com tipologia quantitativa longitudinal onde as medidas são feitas em dois momentos, com período de acompanhamento entre os participantes. Foi utilizado o Inbody720 para análise da composição corporal e Teste de 12 minutos para avaliação do VO2máx. Resultado: Houve aumento da Massa Corporal (pré 85,03kg ±8,7; pós 85,78kg ± 10,3 p<0,575), da Massa Magra (pré 36,93kg ± 3,0; pós 37,64kg ± 3,4 p<0,025), redução da Massa de Gordura (pré 20,18kg ± 7,5; pós 19,80kg ± 8,07 p<0,683), do Percentual de Gordura (pré 23,29% ± 6,6; pós 22,51% ± 7,0 p<0,314) e melhora do Teste de 12 minutos(pré 43,50 ml.kg.min ± 3,3; pós 46,34 ml.kg.min ± 4,7 p<0,028) o período de intervenção.Conclusão: Um programa de treinamento periodizado com duração de 12 semanas foi capaz de promover aumento da Massa Magra e do VO2máx.

Palavras chave: Corrida; Treinamento; Consumo de Oxigênio;Composição Corporal.

 

ABSTRACT

Objective: To analyze the effects of 12 weeks of training on street racing practitioners and their influence on body composition. Participants in the study were 10 street racers, who underwent training for 21 km (km), male race with a mean of 29.9 years ± 7.2 and a minimum of six months of training. Method: The study was based on the methodology of descriptive nature with a quantitative longitudinal typology where the measurements are made in two moments, with period of follow – up between the participants. Inbody720 was used for body composition analysis and a 12-minute test for VO2max evaluation. Results: There was an increase in body mass (pre 85.03kg ± 8.7, post 85.78kg ± 10.3 p <0.575), lean mass (pre 36.93kg ± 3.0, post 37.64kg ± 3, (P <0.05), reduction of fat mass (pre 20,18 kg ± 7,5, post 19,80 kg ± 8,07 p <0,683), fat percentage (pre 23,29 ± 6,6, post 22.51% ± 7.0 p <0.314) and improvement of the 12-minute test (pre 43.50 ml.kg.min ± 3.3; powders 46.34 ml.kg.min ± 4.7 p <0.028 ) the intervention period. Conclusion: A periodized training program lasting 12 weeks was able to promote increase of Lean Mass and VO2max.Keywords: Race; Training; Oxygen Consumption; Body Composition.

 

INTRODUÇÃO

Nas últimas décadas, a corrida de rua vem obtendo muitos seguidores, pelo seu baixo custo, sua facilidade e o grande aumento nas organizações de provas na modalidade (Dallari, 2009; Oliveira, 2010; Gonçalves, 2011). Os motivos pela prática regular englobam promoção à saúde, estética, socialização e busca de atividades prazerosas ou competitivas.

A procura por avaliações que possam refletir a condição física vem sendo estudada há alguns anos. Diversos são os sinais que podem ser considerados para caracterizar a condição física, dentre eles, o consumo máximo de oxigênio. Mas a ciência tem verificado que cada vez mais é preciso assemelhar os vários testes físicos específicos da modalidade, nesse caso, na corrida de rua (Moraes et al., 2005).

Um dos princípios essenciais do treinamento é a aplicação otimizada de cargas, respeitando a individualidade do praticante e a especificidade do esporte praticado com a preocupação de saber controlar o volume e a intensidade em seu planejamento. Neste contexto os métodos de treinamento são de fundamental importância no desenvolvimento das capacidades físicas para melhorar a performance (Dantas, 2003).

No programa de treinamento para corredores recreacionais são utilizados diferentes métodos, os mais utilizados são o método contínuo que envolve a aplicação de cargas contínuas diferenciadas pelo predomínio do volume sobre a intensidade e permite o aperfeiçoamento da resistência aeróbica (Dantas, 2003), e o método de treinamento intervalado, utilizado para o aprimoramento da resistência de velocidade e potência anaeróbia (Proença, 1989).

Para praticantes de provas de média e longa distância, a capacidade aeróbia é imprescindível, esta é medida através de protocolos diretos ou indiretos de consumo de oxigênio (VO2máx.), que segundo Robergs e Roberts (2002), é a maior quantidade de oxigênio consumida, absorvida e utilizada pelo organismo em dada tarefa. Nesse sentido, o presente estudo tem como objetivo verificar o efeito de 12 semanas de treinamento no VO2máx.e na composição corporal de corredores recreacionais.

 

MATERIAIS E MÉTODOS

O estudo aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa Local protocolado pelo CAAE número 67976117.0.0000.5176, foi pautado na metodologia de natureza descritiva com tipologia quantitativa e longitudinal. O estudo descritivo tem como objetivo relatar as características determinada pela população, fenômeno ou experiência de associação entre variáveis (Gomes, Lima e Silva, 2004).

Participaram do estudo 10 corredores recreacionais do gênero masculino com idade entre 18 a 42 anos (Tabela 1). Após o contato e apresentação dos objetivos do presente estudo, os corredores que aceitaram participar da pesquisa assinaram um Termo de Consentimento Livre e Esclarecido. Foram atendidos os seguintes critérios de inclusão: ser corredor recreacional durante no mínimo 6 meses e negativa ao questionário de prontidão para a atividade física.

Tabela 1 – Características dos participantes em média ± DP (N=10).

Para análise da composição corporal, utilizou-se a bioimpedância (InBody 720) onde foi realizado cumprindo os seguintes processos: não se exercitar nas 12 horas antecedem a avaliação; não se alimentar, nem ingerir líquidos por 4 horas antes do teste; manter o ambiente com temperatura entre 20 a 25ºC; não utilizar bijuterias metálicas ou implantes com metal; e realizar a avaliação com vestimenta de banho (Biospace, 2004).

Para avaliação do VO2máx. utilizou-se o teste de Cooper (1972), utilizado para verificar o consumo máximo de oxigênio através de uma corrida máxima na maior distância percorrida em 12 minutos. Para calcular VO2máx. e interpretar os resultados, utilizou-se a fórmula:VO2máx. = distância percorrida – 504,9/44,73. Os testes foram realizados no Centro Universitário de João Pessoa, onde a avaliação de bioimpedância foi realizada no Laboratório de Atividade Física (LAF) no turno da manhã entre 8:00e 11:00 horas, com temperatura ambiente entre 20 e 22ºC e o teste de Cooper na Pista de Atletismo no turno da manhã entre 07:00 e 08:00 horas, com temperatura ambiente entre 27 e 30ºC.

Após o término de todos os testes, as informações foram arquivadas no programa Microsoft Office Excel versão 2007 e analisados no programa estatístico SPSS versão 22.0 para Windows. Para caracterização da amostra e disposição dos resultados todos os dados estão expressos em média e desvio-padrão. Para análise de diferença dos resultados pelo teste de Cooper e Inbody720 foi utilizado o teste dos postos sinalizados de Wilcoxon de amostras relacionadas acatando-se um nível de significância p<0,05.A periodização de 12 semanas foi elaborada e aplicada aos componentes do estudo que foi composta de quatro sessões de treino por semana (Tabela 2).

Tabela 2 – Progressão das cargas de treinamento.

RESULTADOS

Neste estudo, foram analisados os efeitos de 12 semanas de treinamento periodizado em praticantes de corrida de rua e sua influência na composição corporal. Na tabela 3, encontram-se os valores pré e pós-treinamento nos corredores recreacionais. Na tabela 4 apresenta-se a classificação do consumo de oxigênio para homens.

Tabela 3 – Valores pré e pós-treinamento em média ± DP (N=10).

Legenda: MC: Massa corporal; MM: Massa magra; MG: Massa gorda; PG: Percentual de gordura; VO2máx: Consumo máximo de oxigênio expresso em ml.kg.min.

Tabela 4-Consumo de Oxigênio para homens (Cooper, 1972).

DISCUSSÃO

Este estudo investigou os efeitos de 12 semanas de treinamento no VO2máx.e na composição corporal de corredores recreacionais. Entre as variáveis analisadas o aumento da Massa Magra e do VO2máx.foram estatisticamente significativos.

O VO2máx. dos corredores pós treinamento foi classificado como bom e excelente (Cooper, 1972). O aumento do VO2máx. pode estar relacionado pelo aumento da mioglobina com o treino aeróbio, do número e tamanho de mitocôndrias, bem como da atividade das enzimas oxidativas, contribuindo para que se tenha um maior aproveitamento da via aeróbia na produção de energia (Wasserman, 1986).

O Vo2máx. vem sendo considerado um dos fatores de grande importância como preditor da performance, pois a capacidade do indivíduo se exercitar por longa e média duração depende principalmente do metabolismo aeróbio, sendo assim, um índice muito empregado para classificar a capacidade cardiorespiratória, sobretudo em corredores recreacionais (Carazzato, 1999).

O treinamento da potência aeróbia constitui uma variável muito importante no aumento do VO2máx. A combinação entre treinos intervalados de alta intensidade e curta duração com treinos de baixa intensidade e longa duração durante um processo de formação é apontado como melhor estratégia para ganhos dessa variável. (Silva, 2017)

A Economia de Corrida pode ser definida como custo aeróbio necessário para sustentar uma velocidade absoluta de corrida durante um determinado período de tempo (Nummela, Kenaren e Mikkelsson, 2007). Corredores mais econômicos, em função de um maior consumo de Oxigênio (O2) tendem a percorrer distâncias mais rapidamente mantendo a velocidade de deslocamento constante (Guglielmo, Grecco, Denadai, 2009).

A redução do percentual de gordura por parte dos indivíduos é previsto, pois, a realização da corrida é um exercício com predominância aeróbia, consequentemente, auxilia na perda do percentual de gordura dos praticantes (Ferreira et al., 2015). A diminuição de gordura corporal é indispensável para o bom desempenho, pelo fato de haver, na maioria dos estudos, relações negativas entre o percentual de gordura corporal e o desempenho físico (Streicher e Sousa, 2013).

A porcentagem de gordura corporal recomendada para homens desportistas é de 12-15% (ACSM, 2000; CUPARRI, 2002); assim, o valor encontrado (22,5%) mostra que a população estudada apresentou a %GC fora do recomendado. O percentual de gordura é outro fator imprescindível para o sucesso no desempenho esportivo. Os menores valores de gordura corporal podem favorecer o rendimento máximo (Guerra, Soares e Burini, 2001).

Santos et al., (2008), aplicando testes de caminhada e outro para corrida com amostra de 15 indivíduos do gênero masculino, que se exercitavam no mínimo 90 minutos de exercício aeróbio semanais, obteve uma média no VO2máx. de 47,1 ml/kg/min, se contrapondo com os resultados parecidos do presente estudo que se obteve uma média no VO2máx. de 46,3 ml/kg/min.

As necessidades protéicas do praticante de exercício físico são maiores do que de um indivíduo sedentário, devido ao reparo de lesões induzidas pelo exercício nas fibras musculares, uso de pequena quantidade de proteína como fonte de energia durante a atividade e o ganho de massa magra (ACSM, 2000).

A composição corporal apresenta estreita relação com o desempenho em diferentes modalidades esportivas. Assim, a massa magra pode significar vantagem em diferentes esportes, sobretudo nos que requerem deslocamento do corpo, como corridas (Costa et al., 2005).

O aspecto interessante é que o programa promoveu uma melhora significativa na massa muscular. Os autores atribuem este efeito às adaptações associadas a um melhor recrutamento das fibras musculares, melhor relaxamento dos músculos antagonistas aos movimentos e um ganho de propriedades contráteis das fibras, como aumento relativo nas áreas das fibras do tipo I, pelo predomínio da modalidade (Neto Barros, 2001).

 

CONCLUSÃO

Com base nos objetivos e resultados apresentados, conclui-se que 12 semanas de treinamento periodizado foram capazes de promover ganhos significativos no VO2máx.e na composição corporal dos corredores recreacionais.

 

REFERÊNCIAS

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  1. Wasserman, K. Principles of exercise testing and interpretation. Phyladelphia: Lea &Febiger, 1986.

O EFEITO DA IDADE RELATIVA NO JUDÔ: UMA ANÁLISE DAS OLIMPÍADAS DA JUVENTUDE DE NANJING

Adriano Nogueira de Figueiredo

Laboratório de Estudos e Pesquisas do Exercício e Esporte (LABESPEE) Centro Desportivo, Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP) Minas Gerais – Brasil

Jeferson Macedo Vianna

Programa de Pós-Graduação em Educação Física, Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF) Minas Gerais – Brasil

Andrigo Zaar

Laboratório de Cineantropometria e Desempenho Humano da UFPB. Centro Universitário de João Pessoa (UNIPÊ) – Brasil

Renato Melo Ferreira

Laboratório de Estudos e Pesquisas do Exercício e Esporte (LABESPEE) Centro Desportivo, Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP) Minas Gerais – Brasil

Emerson Filipino Coelho

Laboratório de Estudos e Pesquisas do Exercício e Esporte (LABESPEE) Centro Desportivo, Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP) Minas Gerais – Brasil

Francisco Zacaron Werneck

Laboratório de Estudos e Pesquisas do Exercício e Esporte (LABESPEE) Centro Desportivo, Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP) Minas Gerais – Brasil

O Efeito da Idade Relativa (EIR) é uma consequência da diferença de idade cronológica entre pessoas envolvidas na mesma categoria etária na prática de um determinado esporte e pode ser observado pela maior representação de atletas nascidos nos primeiros meses do ano.
O objetivo do presente estudo foi verificar a existência do EIR em atletas de judô participantes dos Jogos Olímpicos da Juventude do ano de 2014 em Nanjing. Foi identificado o quartil (trimestre) de nascimento de 103 atletas jovens (52 no masculino e 51 no feminino), através do site da competição. Para a análise dos dados, empregou-se o teste do Qui-Quadrado com nível de significância de 5%. Foi observado o EIR em ambos os sexos, havendo maior predominância de atletas nascidos no 1° quartil em relação ao 4° quartil (40% vs. 14%, respectivamente; p<0,001). Não houve relação significativa entre o quartil de nascimento e a conquista de medalhas.  O EIR foi proporcionalmente mais evidente com o aumento das categorias de peso. Conclui-se que o EIR foi verificado nos atletas de judô participantes dos Jogos Olímpicos da Juventude do ano de 2014 e que este fenômeno foi mais evidente conforme o aumento da categoria de peso dos atletas.

Palavras-chave: Efeito da idade relativa, esporte de combate, jovem atleta, judô.

 

ABSTRACT

The Relative Age Effect (RAE) is a consequence of the chronological age difference between people involved in the same age category in the practice of a particular sport and can be observed by the increased representation of athletes born in the early months of the year. The aim of this study was to verify the existence of the RAE in judo athletes participating in the Youth Olympic Games of 2014 in Nanjing. It was identified the quarter (trimester) of birth of 103 young athletes (52 in the male and 51 female), by the competition site. For data analysis, it was used the Chi-Square test with 5% significance level. It was observed the RAE in both sexes with a predominance of athletes born in the 1st quartile relative to 4st quartile (40% vs. 14%, respectively; p <0.001). There was still no significant relation between the semester of birth and the winning of medals. The RAE was proportionally more obvious with the increase of weight categories. It is concluded that the RAE was observed in athletes of judo participants of the Youth Olympic Games in 2014 and that this phenomenon was more evident with increasing weight category of athletes

Keywords: Relative age effect, Combat sport, Youth athlete, Judo.

 

INTRODUÇÃO

Os Jogos Olímpicos da Juventude foram criados em 1998 com a finalidade de se estabelecer como um evento internacional e multidesportivo, de interação e desenvolvimento da experiência de jovens atletas e conquistou grande relevância no cenário esportivo mundial (IOC, 2014). Dentre as modalidades esportivas deste evento, destaca-se o judô, que será objeto de análise do presente estudo, referente à edição dos jogos de 2014, em Nanjing. No judô, além da divisão por peso, nas categorias mais jovens existe a categorização por meio da idade cronológica, considerando primeiro de janeiro como período de corte para divisão das categorias etárias (FIJ, 2014). A divisão dos atletas em categorias de peso e idade tem por finalidade dar igualdade de condições aos participantes, sob o ponto de vista do desenvolvimento físico e psicológico, mas estudos mostram que pode gerar também algumas consequências indesejadas, tal como o efeito da idade relativa (EIR) (MUSCH; GRONDIN, 2001; COBLEY et al., 2009).

O EIR refere-se às diferenças físicas e cognitivas entre indivíduos que se encontram na mesma faixa etária (BARNSLEY; THOMPSON; BARNSLEY, 1985). Estas diferenças se relacionam às possíveis vantagens que atletas nascidos nos primeiros meses do ano de seleção levam em relação aos atletas que nasceram nos últimos meses do mesmo ano, devido principalmente aos aspectos maturacionais (MUSCH; GRONDIN, 2001; MALINA et al., 2004). Particularmente nas modalidades em que as categorias etárias são divididas a cada dois anos, a diferença observada na idade cronológica entre os atletas de uma mesma categoria muitas vezes favorece um desempenho superior aos atletas mais velhos cronologicamente, e por consequência, estes acabam tendo mais sucesso imediato e mais oportunidades de acesso ao treinamento (COSTA et al., 2009).

O fenômeno do EIR tem sido observado principalmente em esportes em que os atributos físicos, tais como peso, altura, força e velocidade são determinantes para o desempenho, sendo mais evidente no sexo masculino (MUSCH; GRONDIN, 2001; COBLEY et al., 2009; DELORME; BOICHE; RASPAUD, 2010). Nos esportes de combate, tem crescido o número de estudos sobre esta temática, uma vez que os estudos nesta área ainda não são conclusivos, havendo ainda dúvidas se a divisão por peso seria efetiva no sentido de prevenir os atletas do EIR (DELORME, 2014; ALBUQUERQUE et al., 2014; 2016).

Ao analisar especificamente as lutas, Albuquerque et al. (2012) investigaram o EIR em medalhistas olímpicos de taekwondo em diferentes edições de Jogos Olímpicos, não sendo verificada a presença do EIR para este grupo de atletas de elevada excelência esportiva. No entanto, ao avaliar judocas olímpicos de diferentes categorias de peso, Albuquerque et al. (2013) encontraram o EIR em atletas mais pesados, o que foi corroborado mais tarde, ao avaliar judocas participantes de diversos Jogos Olímpicos, onde encontrou-se o EIR em atletas pesos pesados do sexo masculino e medalhistas olímpicos (ALBUQUERQUE et al., 2015). Já em atletas jovens, os estudos ainda são poucos, mas já mostram uma presença marcante do EIR. Fukuda et al. (2013) encontraram a presença do EIR no judô em jovens atletas das categorias sub17 e sub20-21 vencedores de campeonatos mundiais, sendo observada também uma maior frequência deste fenômeno nas categorias mais pesadas.

Diante do exposto, justifica-se o presente trabalho com a finalidade de obter mais informação acerca da presença do EIR nos esportes de combate, particularmente em um grupo de jovens atletas de elite de judô, uma vez que o EIR pode ser um dos fatores limitadores da maior progressão e evolução na carreira esportiva destes atletas. Portanto, o objetivo do presente estudo foi avaliar o EIR nos atletas de judô que participaram dos Jogos Olímpicos da Juventude em Nanjing do ano de 2014 e verificar possíveis diferenças entre os sexos, categorias de peso e conquista de medalhas.

MÉTODO

Foram analisadas as datas de nascimento de 103 atletas, sendo 52 do sexo masculino e 51 do sexo feminino, nascidos entre 1 de Janeiro de 1996 e 31 de Dezembro de 1998. A idade dos atletas variou de 15.7 a 18.6 anos, média igual a 17.8 e desvio padrão igual a 0.7 anos. Cerca de 25% dos atletas conquistaram medalhas na competição (n=22). Os atletas pertenciam às categorias super leve (n=15), meio leve (n=36), super médio (n=38) e meio pesado (n=14).  Este trabalho seguiu os mesmos procedimentos éticos adotados por ALBUQUERQUE, et al., (2012).

Primeiramente, as datas de nascimento foram obtidas no site oficial da Federação Internacional de Judô (www.fij.com.org), onde está disponível juntamente com os chaveamentos e resultados do judô nas Olímpiadas dos Jogos da Juventude, realizados no ano de 2014 em Nanjing. As datas de nascimento destes atletas foram agrupadas em quartis divididos em primeiro quartil (Janeiro, Fevereiro e Março), segundo quartil (Abril, Maio e Junho), terceiro quartil (Julho, Agosto e Setembro) e quarto quartil (Outubro, Novembro e Dezembro).

Os dados foram analisados a partir do teste do Qui-Quadrado e do teste Exato de Fisher, para averiguar a existência do efeito da idade relativa. Foi adotado um nível de significância de 5% e uma posterior análise de proporção 2×2 com correção de Bonferroni foi aplicada para averiguar possíveis diferenças entre os quartis, a fim de evitar erros derivados de múltiplas comparações.

RESULTADOS

Os resultados referentes à distribuição das datas de nascimento de todos os judocas que participaram dos Jogos da Juventude de Nanjing em 2014 revelaram a presença do EIR (χ2=14,631; gl=3; p=0,002)(Figura 1). Na comparação entre os quartis, foi observada maior representação de atletas nascidos no 1° em relação ao 4° quartil (χ2 = 13,255; gl = 1; p < 0,001).

Figura 1: Distribuição dos quartis de nascimento de jovens judocas de ambos os sexos dos Jogos Olímpicos da Juventude de Nanjing (n=103). (*diferença sig. entre o 1°quartil e o 4°quartil, p<0,001).

Na tabela 1 são exibidos os valores do χ2 para a distribuição das datas de nascimento dos atletas por sexo, desempenho e categoria de peso. Houve maior representação de atletas nascidos no 1° em relação ao 4° quartil para ambos os sexos. Em relação ao desempenho, não foi observado o EIR, não havendo associação entre este fenômeno e a conquista de medalhas. Além disso, o EIR foi observado nas categorias de peso meio leve, super médio e meio pesado.

Tabela 1- Avaliação dos quartis de nascimento de jovens judocas dos Jogos Olímpicos da Juventude de Nanjing, quanto ao sexo, desempenho e categoria de peso, através do Teste do Qui-quadrado e de Fisher.

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DISCUSSÃO

O principal achado do presente estudo foi que o EIR está presente nos jovens atletas de judô participantes dos Jogos Olímpicos da Juventude de 2014, em ambos os sexos e em todas as categorias de peso, exceto no superleve, e não está associado ao desempenho dos jovens atletas. Este resultado corrobora evidências científicas que mostram a presença do EIR em jovens atletas de várias modalidades, inclusive no judô, de modo que treinadores e administradores do esporte devem considerar estratégias para minimizar este fenômeno, uma vez que pode influenciar o processo de seleção dos atletas e provocar a perda precoce de potenciais talentos esportivos.

A presença do EIR nos Jogos Olímpicos da Juventude de 2014 confirma o que se tem observado na literatura sobre este fenômeno nos esportes de um modo geral (COBLEY et al., 2009), ou seja, existe de fato um viés na distribuição das datas de nascimento dos judocas de elite com maior predominância de atletas nascidos nos primeiros quartis do ano de seleção. Estudo recente de meta-análise em esportes de combate concluiu pela presença do EIR em homens e mulheres, sendo que no nível profissional e olímpico apenas nos homens (ALBUQUERQUE et al., 2016). Isto mostra forte tendência de seleção dos atletas relativamente mais velhos.

Em relação ao sexo, o EIR é bem evidente no masculino, apresentando resultados inconsistentes no feminino (COBLEY et al., 2009; MUSCH; GRONDIN; 2001). Nos esportes de combate, os estudos de Albuquerque et al. (2012) e Massa et al. (2014) não encontraram o EIR no sexo feminino. Já no presente estudo foi verificada a presença do EIR em ambos os sexos. Uma possível explicação para esses resultados inconsistentes em relação ao sexo pode estar relacionada ao nível de competitividade no esporte do sexo masculino em relação ao esporte feminino (MUSCH; GRONDIN, 2001).

A principal explicação para o EIR em jovens atletas tem sido a maturação. Durante o processo de seleção de atletas marciais, aqueles nascidos mais próximos ao início do ano de seleção podem apresentar vantagens físicas sobre aqueles nascidos tardiamente. O cuidado que os treinadores devem ter durante o processo de desenvolvimento e seleção dos atletas diz respeito à transitoriedade dessas vantagens físicas apresentadas por jovens cronologicamente mais velhos e/ou avançados maturacionalmente. Isto porque, jovens atletas de judô podem ser erroneamente apontados como talentosos, simplesmente por que, naquele momento, apresentam maiores níveis de aptidão física que seus pares. Mas ao longo do tempo, com o decorrer do processo maturacional, os atletas não selecionados podem até ultrapassar aqueles que foram escolhidos pelo treinador (MALINA et al., 2004).

É fundamental que os treinadores tenham consciência deste fenômeno, pois quanto mais alta a percepção de competência de uma criança, maior será a sua motivação intrínseca e o prazer pela prática do esporte (MUSCH; GRONDIN, 2001; HELSEN et al., 2005). Logo, ainda segundo esses autores, aquelas crianças favorecidas pelo EIR, possuem mais chances de continuar praticando a modalidade, e assim continuar se desenvolvendo técnica e taticamente.

No presente estudo os resultados indicaram também que o EIR aumenta à medida que se eleva o peso nas respectivas categorias do Judô. Parece então que à medida que se aumenta o peso corporal dos jovens atletas, a tendência será aumentar proporcionalmente a existência do EIR nos mesmos (meio leve, super médio e meio pesado, respectivamente), corroborando os achados de Fukuda (2015) e Albuquerque et al. (2013). Os resultados destes estudos em nível olímpico e profissional mostram que o EIR tende a ser mais perceptível em atletas mais jovens e nos mais pesados, no caso do judô. Isto reforça a hipótese maturacional como possível explicação para este fenômeno. Com o agrupamento etário, os jovens nascidos nos primeiros meses do ano possuem maiores chances de estar em estágios de maturação biológica mais avançada, o que implicaria em vantagens associadas ao tamanho corporal e força muscular.

É importante destacar que não houve relação entre o EIR e a conquista de medalhas, reforçando a tese de que não se deve selecionar jovens atletas com base no mês de nascimento. O desempenho esportivo é um processo multifatorial e dinâmico e, no caso, de jovens atletas o mais importante está no seu desenvolvimento e não na seleção dos mais aptos. Destaca-se como ponto positivo do estudo a investigação do EIR em atletas de judô mais jovens, já que a maioria dos estudos na literatura sobre o EIR nas modalidades de combate concentram-se em atletas profissionais e de elite. Uma possível limitação do presente estudo é o fato de que não há uma regra geral para se estabelecer a data de seleção em todos os países. Há países que não usam, por exemplo, a data de 1° de janeiro como ponto de corte de seleção, mas outra data diferente como, por exemplo, 1° de julho como primeira data inicial de seleção.

Como questão prática, apesar de algumas propostas para a atenuação das consequências do EIR serem de difícil aplicabilidade na prática em muitas modalidades esportivas, o conhecimento deste efeito, principalmente pelos treinadores das categorias mais novas se faz de grande necessidade, pois sendo estes uma figura central no processo desenvolvimento de jovens atletas, cabe, aos mesmos, uma maior compreensão de que essas vantagens físicas e psicológicas podem ser temporárias, possibilitando assim, uma futura disputa pelo espaço em equipes de elite mais justa e eficaz.

Conclui-se que foi observada maior proporção de judocas nascidos nos primeiros meses do ano entre os atletas que participaram dos Jogos Olímpicos da Juventude de 2014, confirmando a presença do EIR. Os dados mostraram ainda que este fenômeno é marcante nas categorias de peso mais pesadas e que não está associado a conquista de medalhas. Novos estudos devem ser realizados sobre o EIR em jovens atletas de judô procurando identificar outras possíveis variáveis moderadoras assim como estratégias para redução deste fenômeno

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POLIMORFISMO GENÉTICO I/D DA ENZIMA CONVERSORA DE ANGIOTENSINA DE ATLETAS BRASILEIRAS DE GINÁSTICA RÍTMICA

Daniela Zanini

Universidade do Oeste de Santa Catarina (UNOESC) Chapecó – SC, Brasil.

Francisco Félix Saavedra

Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro (UTAD) Vila Real, Portugal.

Abstract: The aim of this study was: (i) the genetic polimorfism of the ACE with the dermatoglific characteristics of the practioneers and no practioneers of Rhythmic Gymnastics (RG); (ii) correlate genetic polymorphism of the ACE, with the dermatoglific characteristics. The sample consisted of 31 female subjects, divided into two groups: ( i ) RG practioneers ( experimental group ) and ( ii ) non-practioneers ( control group ), mean age 16.7( ± 1.54 ), 18.6( ± 1.15) years, respectively. The characteristic dermatoglyphic profile was assessed from the data collection held by the method proposed by Cummins and Midlo (1961), through a Dermatoglyphic Reader ®. The subjects were genotyped for the polymorphism of ACE: DD, ID and II, by the techniques of Polymerase Chain Reaction, and polymorphism lengths and restriction fragment with restriction enzyme (DdeI) after DNA extraction. Found higher scores in the experimental group for the dermatoglyphical variables D10 and SQTL. In reference to the manifestation of polymorphism of the ACE gene, we found no statistically significant results between the experimental and control groups. It is concluded that the, for the ECA genotype and its association with dermatogliflic characteristics we didn’t observed any correlation between these two genetic marks.

Keywords: rhythmic gymnastics, angiotensin coverting enzyme, dermatoglyphics.

 

INTRODUÇÃO

A Ginástica Rítmica (GR) no Brasil é uma modalidade que ainda vem buscando conquistar seu espaço no cenário mundial. O nível técnico das atletas brasileiras de GR tem melhorado significativamente, isto pode ser comprovado nas competições do esporte no cenário nacional e internacional, com resultados expressivos, devido a um trabalho baseado em princípios científicos na preparação das ginastas.

O estudo do potencial genético permite uma orientação esportiva antecipada e correta, de acordo com cada tipo de modalidade. Conhecer em minúcia o referido desporto, possibilita nortear medidas diretas e indiretas sobre o mesmo, tais como: a preparação física, a técnica e a tática, além de orientação da iniciação esportiva na seleção e na detecção de talentos (Alonso et al.,2005). A busca por talento esportivo é um fenômeno que tem crescimento constante e traz com ele os investimentos precoces em potenciais atletas de elite. Portanto, o uso de instrumentos de avaliação adequadas e específicas é fundamental para a identificação de atletas promissores (Paz et al.,2013).

O principal foco dos resultados dessa investigação centra-se na construção de uma ferramenta para as fórmulas preditoras em performance humana. Para entender os aspectos biológicos do desempenho é essencial analisar as implicações genéticas, e para este efeito, nos últimos anos a investigação vem progredindo para análises das relações entre fisiologia, bioquímica e genética com o intuito de investigar a herança física de vários traços de desempenho sobre as bases genéticas e moleculares verificando a adaptação dos diferentes indicadores de desempenho desportivo (Massida, Vona e Caló, 2011).

A identificação dos genes e variantes genéticas com potencial em influenciar variáveis fisiológicas em resposta ao treinamento físico é a base para a compreensão do que vem a ser um potencial genético de um atleta (Dias et al., 2011). Segundo Costa et al. (2009), constatou-se na literatura que alguns desses genes são do sistema renina-angiotensina-aldosterona (S-RAA), e a investigação tem-se centrado no polimorfismo I/D do gene da enzima conversora de angiotensina (ECA), o qual confere variabilidade na atividade da ECA no plasma e em diversos tecidos. No âmbito esportivo esse polimorfismo tem despertado interesse de sua associação com a performance física humana. Estudos recentes demonstraram que o alelo I é mais frequente em atletas de resistência, enquanto o alelo D, em atletas de força e explosão muscular (Alvarez et al., 2000; Nazarov et al., 2001; Tsianos et al., 2004).

Jones e Woods (2003), sugerem que a ECA aumenta a angiotensina II , importante mediador de ganhos de força talvez através de hipertrofia muscular, enquanto que os níveis mais baixos de ECA, reduzem a degradação de bradicinina, relacionada a maior desempenho de resistência, isto acontece talvez, através de alterações na disponibilidade de substrato, tipo de fibra muscular e eficiência.

As investigações sobre o polimorfismo I/D do gene da ECA e o desempenho esportivo têm realçado a tendência para que indivíduos portadores do alelo I obtenham desempenhos superiores em modalidades esportivas de longa duração e mais frequente em atletas de resistência, fato este mediado pela maior eficiência mecânica da musculatura esquelética e por seu efeito na proporção das fibras musculares (Dias et al., 2007). Essa hipótese foi pioneiramente testada por Alvarez et al. (2000), em ciclistas de elite de longa distância; por Tsianos et al. (2004), em nadadores de águas abertas de longa distância e por Moran et al. (2004), em atletas maratonistas de elite etíopes.

Paralelamente, o alelo D, mostrou relação com o fenótipo de força e explosão muscular, mediado pelo efeito hipertrófico muscular, secundário ao aumento na concentração plasmática e tecidual de Angiotensina II (Dias et al., 2007). A especialização esportiva em eventos de curta duração parece ser induzida pela presença do alelo D, pelo menos em amostras homogêneas de atletas de elite (Nazarov et al., 2001; Tsianos et al., 2004).

A relação do polimorfismo da ECA com o desempenho esportivo tem sido questionada por alguns pesquisadores, que discutem a interpretação dos resultados obtidos, os tamanhos das amostras utilizadas e os grupos controles presentes nos estudos (Tsianos et al.,2004; Massida, Vona e Caló, 2011; Di Cagno et al.,2013). A literatura é atualmente equívoca sobre a associação do polimorfismo ECA I / D e o desempenho atlético.

Para a GR em que são dominantes, flexibilidade, força explosiva, velocidade, coordenação, equilíbrio, resistência aeróbica e anaeróbica , estas qualidades físicas são necessárias fortemente na seleção, considerando que com os resultados de testes científicos, os indivíduos mais talentosos são cientificamente selecionados ou direcionado para um adequado desempenho esportivo (Miletić, Katić, e Maleš, 2004; Pavlova, 2011). Ótimos perfis requerem características biológicas específicas das atletas com com habilidades motoras proeminentes e fortes traços fisiológicos.

A elaboração de perfis de características que possam servir de parâmetros nas diferentes categorias das modalidades esportivas e o investimento feito em estudos científicos tem mostrado uma grande importância para o desenvolvimento de novas gerações de atletas.

As respostas obtidas por este estudo podem viabilizar a orientação desportiva adequada no instante da iniciação desportiva, gerando assim a possibilidade de qualificação dos resultados atléticos, adequação de treinamentos desportivos de acordo com os potenciais genéticos.

Dessa forma, o objetivo do estudo foi examinar a distribuição do genótipo I/D da Enzima Conversora de Angiotensina características em praticantes e não praticantes de GR.

MÉTODO

Este estudo foi realizado com uma amostra composta por 31 indivíduos do sexo feminino, divididos em dois grupos: (i) praticantes de GR (Grupo Experimental) e (ii) não praticantes (Grupo Controle).

O Grupo Experimental, composto por 19 atletas de GR Brasileiras praticantes de elite e o Grupo Controle constituído por 12 jovens sedentárias, aparentemente saudáveis, selecionadas aleatoriamente do Curso de Graduação em Educação Física. As 19 ginastas de elites são da mesma categoria e padrão competitivo. Todas as ginastas já haviam participado de Campeonato Brasileiro. Das 19 ginastas, 07 atletas são participantes da I Etapa do Circuito Caixa de Ginástica Rítmica e Artística e 12 atletas são da Seleção Brasileira de GR. A média de idade dos dois grupos em estudo são respectivamente 16,7 (±1,54); 18,6 (±1,15).

A pesquisa foi aprovada com protocolo número 138/2011, pelo Comitê de Ética em Pesquisa em Seres Humanos da Unoesc/Hust, de acordo com os padrões éticos de normas e diretrizes regulamentadoras da pesquisa envolvendo seres humanos, em conformidade com a Resolução 196/96 do Conselho Nacional de Saúde e com a “Declaração de Helsinki.” Do mesmo modo, o estudo obteve aprovação da Comissão Científica da Confederação Brasileira de Ginástica.

Todas as participantes do estudo, assim como as técnicas das equipes, nas quais foi realizada a pesquisa, assinaram um “Termo de Consentimento Livre e Esclarecido”. Os dados foram coletados, independente das fases de treinamento da equipe, e sob a responsabilidade da autora.

Para a observação do gene da ECA foi coletada uma amostra de saliva, epitélio bucal, dos indivíduos da amostra com a utilização de Swab, em seguida, o material biológico foi fechado em Eppendorfs estéreis contendo TRIS eEDTA, conforme Richards et al. (1993), para posterior análise do gene.

O ácido desoxirribonucleico (DNA) foi extraído por meio das técnicas padrões de Reação em Cadeia da Polimerase (PCR) submetidos à enzima de restrição Ddel para genotipagem. Os oligonucleotídeos iniciadores (primers) utilizados foram específicos para os genes analisados. A determinação do tamanho dos fragmentos obtidos foi realizada por comparação com padrões específicos. Para a amplificação do fragmento de DNA contendo o polimorfismo da ECA foram usados os seguintes iniciadores: 5’ TGGAGACCACTCCCATCCTTTCT-3 e 5’ TGTGGCCATCACATTCGTCAGAT-3’ (Rigat, et al.,1992). A amplificação das regiões de interesse dos genes estudados incluiu ciclos nas temperaturas de desnaturação, anelamento dos primers e extensão da fita de DNA. Os produtos das reações de PCR para o gene ECA, submetidos à enzima de restrição Ddel para genotipagem, e os amplicons do gene foram analisados por eletroforese horizontal em gel de agarose 2% que permitiu a identificação de três genótipos: DD, ID e II. A identificação das bandas foi realizada utilizando um marcador que permite o reconhecimento exato do tamanho da faixa (alelo I: 490bp; Alelo D: 190 pb).

A análise dos dados foi realizada a partir do recurso ao pacote estatístico Statistical Package for the Social Science (SPSS), versão 20.0. Os dados foram tratados, tendo em conta duas vertentes de análise: (i) análise descrita e (ii) análise inferencial.

Na análise descritiva, recorreu-se a parâmetros de tendência central (média, valor mímimo e máximo) e de dispersão (desvio padrão). O comportamento da distribuição dos valores foi estudado através dos coeficientes de kurtosis e de assimetria (Skewness). A análise de aderência à normalidade foi estudada através da prova Kolmogorov-Smirnov, com a correcção de Lilliefors.

Para a análise inferencial e a fim de testarmos as diferenças entre os dois grupos em estudo, relativamente ao genótipo e perfil dermatoglífico, recorremos ao teste de Kruskal-Wallis. O nível de significância adotado para a crítica das hipóteses nulas foi de p< 0,05.

ANÁLISE E DISCUSSÃO DOS RESULTADOS

Em relação à distribuição da frequência do genótipo da ECA, a tabela 7 apresenta os dados obtidos para o Grupo Experimental e o Grupo Controle. De acordo com os resultados, a presença do genótipo ID foi de 26,3% nas ginastas (grupo experimetal), sendo o mais frequente o genótipo DD (57,9%) e o menos frequente o genótipo II (15,8%). O Grupo Controle, dos 8,3% apresentou o genótipo II, novamente o mais frequente foi o genótipo DD (91,7%), e nenhum participante apresentou o genótipo ID.

 

Tabela 1: Distribuição da frequência genotípica da enzima conversora de angiotensina (ECA) do grupo experimental e grupo controle [valor relativo (%) e valor absoluto (n)].

II

% (n)

DD

% (n)

ID

% (n)

Grupo Experimental

Total (n=19)

15,8% (3) 57,9% (11) 26,3 (5)
Grupo Controle

Total (n=12)

8,3% (1) 91,7% (11) 0,0% (0)

É possível observar, por meio dos gráficos 1 e 2, a tendência de maior frequência do genótipo da ECA no Grupo Experimental, comparado ao Grupo Controle, onde o Grupo Experimental apresentou média 2,11 (±0,65) e o Grupo Controle 1,92(±0,28). Não apresentando diferenças significativas entre os grupos.

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(min) e valor máximo (Máx.)].

De acordo com os resultados da frequência do polimorfismo da ECA, verificou-se a predominância do genótipo DD no grupo experimental e controle. Os valores para os percentuais do genótipo DD encontrados no presente estudo para os diferentes grupos foram: Grupo Experimental= 57,9%; e Grupo Controle= 91,7%.

Analisando os resultados e comparando a distribuição das frequências do polimorfismo I/D do genótipo da ECA nos grupos de estudo (Grupo Experimental vs Grupo Controle), verificou-se que não apresentaram diferenças estatísticamente significativas (p≤0,05).

Observando os resultados acima descritos com outros estudos, sobre a mesma temática, resultados semelhantes foram encontrados por Massida, Vona e Caló (2011), em atletas Italianos de GA quando comparados a um grupo controlo. Os autores destacaram a ausência de diferenças significativas na distribuição do genótipo e frequências e alelo I/D do polimorfismo da ECA nos dois grupos de estudo.

Boraita et al (2010), também não encontraram diferenças significativas em estudo desenvolvidos com 299 desportistas espanhóis de alto nivel em 32 modalidades esportivas. O objetivo do estudo foi analisar a relação entre o polimorfismo (I/D) do gene ECA e a adaptação ao treinamento. Os resultados apontaram nenhuma associação entre o polimorfismo do gene da ECA I/D entre os vários esportes estudados. O genótipo mais frequente foi o ID, seguido pelo DD e II. No entanto, foi encontrado diferença quando os esportes de força e predominantemente aeróbicos foram separados, com maior prevalência do genótipo DD em esportes de potência e um maior prevalência do genótipo ID em esportes aeróbicos. Foram analisados neste estudo 12 atletas de GA , e a frequência dos genótipos foram: DD=66,6%; ID e II 16%. Estes resultados se assemelham ao presente estudo, onde o genótipo DD foi predominante.

Estes resultados estão em contradição com outros estudos, em que a frequência de genes de atletas de elite foram significativamente diferentes dos grupo controlo (Myerson et al.,1999; Woods et al, 2001; Tsianos et al, 2004).

Di Cagno et al. (2013), realizaram um estudo comparativo em 28 atletas Italianas de GR de elite (grupo experimental), com 23 atletas de nível médio de GR (grupo controlo), na faixa etária de 21 ±7,6 e 17 ±10,9 anos respectivamento. O objetivo do estudo foi analisar os polimorfismos dos genes da ECA e AGTR1 nas atletas. Os resultados corroboram com o presente estudo no que se refere a frequência do genótipo predominante DD nas atletas de GR, do grupo investigado. Porém, contrastaram com este estudo, no qual apresentaram diferenças significativas para o genótipo DD da ECA, que foi significativamente mais frequente em atletas de elite do que na população controlo.

Ahmetov et al (2009), investigaram 1.423 atletas Russos e 1132 controles, em diferentes modalidades esportivas, para 15 polimorfismos genéticos.Entre essas modalidades foram avaliados 55 atletas de GA. Os resultados apresentaram que, nenhuma associação foi relatada com a capacidade aeróbica dos atletas investigados. Também, não houve diferenças significativas em frequências dos genótipos entre homens e mulheres, atletas e controles.

Diante de resultados controversos, Costa et al.(2009), referem que a resposta da ECA a diferentes contextos de exercício físico, gênero e níveis de atividade física, carece de melhor entendimento e ainda não está clara na literatura.Tais resultados demonstram que a frequência do genótipo DD da ECA tende a prevalescer em modalidades gíminicas.

CONCLUSÃO

Referente aos resultados da identificação da manifestação do polimorfismo do gene da ECA verificou-se a predominância do genótipo DD no grupo das ginastas. Porém, não foi encontrado nenhum resultado estatisticamente significativo entre o grupo das ginastas e controle.

Pode-se concluir que, a associação entre a distribuição do genótipo I/D da ECA com as características dermatoglíficas, não apresenta nenhuma relevância estatística, neste contexto de análise, entre estas marcas genéticas. Não foi encontrado na literatura estudos que apresentem relações ou correlações entre as características dermatoglíficas e polimorfismo genético I/D da ECA, o que não nos permite conclusões em relação a um parâmetro, porém se observa uma tendência às atletas de GR a determinadas características genéticas.

A aptidão para determinada modalidade tem relação com uma série de características e, consequentemente, vários genes. Embora tenha sido demonstrado por vários investigadores que existe um grande número de associações entre os genes e desempenho desportivo, muitos dos genes associados com o desempenho sozinhos não são capazes de prever claramente se um atleta é potencialmente de alto nível. Ou seja, não podemos afirmar que estudos de associações com determinado gene pode ser usado para predizer a performance física.

O meio ambiente é um fator relevante, sendo assim, recomenda-se investigações associando a relação entre o estado (fenótipo) e a predisposição genética sejam implementados, e delinear para que próximos estudos aumentem o número de sujeitos da amostra,o que poderia-se confirmar esta tendência.

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Alto nível de rendimento: a problemática do desempenho esportivo

ALTO NÍVEL DE RENDIMENTO: A PROBLEMÁTICA DO DESEMPENHO ESPORTIVO

Andrigo Zaar1

Victor Machado Reis2

1Group of Life Sciences Research. Department of Physical Education at the University of the West of Santa Catarina. Chapecó, Brazil.

2Research Center for Sport Sciences, Health and Human Development. University of Trás-os-Montes and Alto Douro (UTAD), Portugal.

Introdução

Desde 1979, data dos primeiros grandes êxitos de Agberto Guimarães, até 2004, com a medalha conquistada por Vanderlei Cordeiro de Lima nos Jogos Olímpicos de Atenas na Grécia, os corredores brasileiros não obtêm sucesso internacional.

Esta lacuna tem atraído vários investigadores desejosos de vislumbrar e perscrutar, em diferentes vertentes, as possíveis respostas e justificações para tal fenômeno. Assim, a investigação nesta área do conhecimento (desempenho no Atletismo) tem sido enfatizada preferencialmente sobre as provas de velocidade, meio-fundo e fundo (VMFF) de alta competição e/ou elite, na tentativa de lhe transmitir mais estabilidade e segurança.

Podemos citar como exemplos, estudos publicados no âmbito da metodologia do treino (Borin e Gonçalves, 2004; Cafruni et al. 2006); sobre bioenergética da corrida (Caputo et al. 2009); no âmbito da caracterização fisiológica, antropométrica e motora (Hegg et al. 1982; Guedes e Guedes, 1997; Tartaruga et al. 2009; Kruel et al. 2007); na vertente sócio-antropológica (Miranda, 2006); e sobre o controle do treino (Colaço, 1999) .

Todavia, apesar de concordarmos ser necessário dar mais solidez aos fenômenos exteriormente mais relevantes, ao Atletismo de alta competição, é também coerente e oportuno pensar, que as razões para esta estagnação nas provas VMFF radica, não só no estágio de plena realização das aptidões desportivas, mas também na profundidade, ou seja, em tudo aquilo que se localiza a montante do êxito, nomeadamente no trajeto ou percurso que decorre até que este seja efetivamente alcançado.

Aludindo a este fato Neves (1995), indica que, a crescente importância atribuída ao sucesso desportivo bem como o prestígio rapidamente conseguido no processo desportivo, tem contribuído para que um vasto número de crianças e jovens submetam-se por vezes, a programas de treino de elevada intensidade e duração, nem sempre compatíveis e ajustados às suas necessidades.

Face ao panorama aqui desenhado e às muitas questões e problemas levantados e que carecem de resposta, constitui-se como propósito do nosso estudo verificar a associação entre o perfil antropométrico, características demográficas e do treinamento dos atletas da seleção brasileira juvenil, participantes de Campeonatos Pan-Americanos e Mundiais de Atletismo.

 

Métodos

Amostra foi compreendida pelos campeões brasileiros juvenis 2013. Foram avaliados 7 atletas do sexo masculino e 6 do sexo feminino, integrantes da seleção brasileira de Atletismo especialistas nas provas de velocidade, meio-fundo e fundo, participantes de Campeonatos Pan-americanos e Mundiais de Atletismo.

A pesquisa desenvolveu-se em duas etapas, sendo a primeira relativa a uma revisão de literatura e a segunda referente a uma pesquisa exploratória ex post facto, do tipo descritiva.

Coleta de dados

Após contatar os atletas e apresentar formalmente os objetivos desta pesquisa, os mesmos assinaram o consentimento informado (livre e esclarecido). Os atletas responderam o questionário sócio demográfico e vinte e quatro horas após a prova procedeu-se a coleta das medidas antropométricas. Para avaliação da massa corporal utilizou-se balança digital portátil, Filizola (Brasil), com variação de 0,1 kg e capacidade de até 150 kg (Gordon et al. 1988). A composição corporal determinada pela técnica de espessura do tecido celular subcutâneo foi realizada com um adipômetro científico da marca Cescorf, com pressão constante de 10 g/mm² na superfície de contato e precisão de 0,1 mm. Foram consideradas as dobras cutâneas tricipital, abdominal, subescapular, suprailíaca e femoral (Harrison et al. 1988). O coeficiente teste-reteste para cada um dos pontos anatômicos com erro de medida de, no máximo ± 1,0 mm. A gordura corporal relativa (percentual de gordura) foi calculada pela fórmula de Siri, a partir da estimativa da densidade corporal (Guedes e Guedes, 1997). Os dados foram analisados através de técnicas de estatística descritiva, e seus resultados apresentados em tabelas com médias ± desvio padrão.

Resultados

Na tabela 1, são apresentadas informações referente a caracterização da amostra. Na tabela 2, são apresentadas as características demográficas dos atletas da seleção brasileira de Atletismo juvenil especialistas nas provas de VMFF.

Tabela 1. Perfil antropométrico dos atletas da seleção brasileira de Atletismo juvenil especialistas nas provas de velocidade, meio-fundo e fundo

Capturar

Tabela 2. Características demográficas dos atletas da seleção brasileira de Atletismo juvenil especialistas nas provas de velocidade, meio-fundo e fundo

Capturar2

No Quadro 3, confrontam-se as características demográficas e do treino em função da especialidade.

Tabela 3. Características do treino dos atletas da seleção brasileira de Atletismo juvenil especialistas nas provas de velocidade, meio-fundo e fundo

Capturar

Discussão

O objetivo deste estudo foi analisar o perfil antropométrico, características demográficas e do treino da seleção brasileira juvenil de Atletismo. O que nos levou a este estudo foi a busca de subsídios para uma resposta à seguinte questão: porque as provas de VMMF brasileiro conseguiram durante as duas últimas décadas do Século XX manter um elevado nível de resultados desportivos que agora parecem difíceis de atingir?

Os resultados do presente estudo indicam que os velocistas e meio-fundistas juvenis estão com níveis de gordura adequado para a especialidade. Porém, os corredores de fundo possuem valores que situam-se no limite superior do referido na literatura, 9% no Masculino e 13,1% no Feminino, quando o ideal é 5% no Masculino e 8% no Feminino (Pollock e Wilmore, 1993).

No que tange as características do treino dos atletas, nota-se que os velocistas e os meio-fundistas iniciaram o treino especializado aos 11 anos de idade. Estes resultados representam um desajuste temporal entre o período ótimo de maturação física e técnica dos corredores brasileiros e as exigências que os mesmos enfrentam no seu treino e competição. De realçar que este fenômeno (possível desajuste na estruturação da carreira) é algo comum nos melhores atletas jovens da América e do Mundo, nas categorias jovens, nas quais se observa incapacidade de confirmar bons resultados enquanto atletas adultos. Este fato poderá ser evitado se o planejamento da metodologia do treino for dividido em etapas, afastando a hipótese de especialização precoce, e contribuindo para o alcance da máxima performance no futuro (Borin e Gonçalves, 2004; Coquart e Bosquet, 2010).

Informações obtidas referente a carreira de atleta, dentre os campeões brasileiros de VMFF juvenis, 30% pensam em outra profissão e 53% não estão convictos em prosseguir a carreira de atleta profissional. Importa aqui destacar a relevância que alguns fatores, como princípios do treinamento, sua estruturação a longo prazo e as etapas de preparação, especialização e aperfeiçoamento, exercem na periodização do treinamento do jovem praticante que objetiva alcançar o alto nível. Neste sentido, a preparação deve ser organizada na base dos pressupostos gerais do ensino, em que o treinamento torna-se uma das formas de educação (Rolim et al. 2003). Assim, a atuação com crianças e adolescentes não deve ser orientada com intenção de rendimento nas primeiras etapas do processo, bem como, a necessidade de se respeitar o princípio da individualidade, a fim de que o atleta possa construir e conduzir-se de acordo com as suas particularidades etárias, suas capacidades e seu nível de preparação (Borin e Gonçalves, 2004).

As provas de VMFF podem ser entendidas como uma atividade que exige dos praticantes uma grande probidade de resistir ao estresse físico e emocional, que implica em capacidade de luta, tenacidade e, por vezes, sofrimento (Rolim et al. 2003).

Mesmo considerando tais condições, que podem variar entre o prazer da auto superação e o desgaste gerado pelo estresse físico e mental, as provas de VMFF são reconhecidamente um fenômeno cuja prática tem se multiplicado rapidamente, atraindo participantes de todas as idades e em todas as camadas sociais do mundo inteiro, tornando sua prática regular para um importante número de jovens e adultos (Rolim et al. 2003). Esta generalizada proliferação da prática desportiva, fez com que o desporto adquirisse grande relevância social.

Apesar de não se conhecer com suficiente profundidade a situação do Atletismo jovem no Brasil, a informação decorrente de estudos exploratórios e tendo por base o nosso conhecimento fatual da realidade, permite-nos ter uma noção suficientemente balizada da dimensão dos problemas. Parte deles também salientados por autores noutros países como Austrália (Arens, 1986), Portugal (Rolim et al. 2003), e Espanha (Grosser et al. 1989), que congregam em nós uma constante preocupação, destacando-se: (i) Atribuição de prêmios em dinheiro aos escalões jovens (infantis a juniores) nas provas de estrada; (ii) Incentivar financeiramente jovens “talentos”, desde a categoria infantil e iniciado, para treinarem; (iii) Transformar os jovens com aparente “talento” em autênticas vedetes; (iv) Começar desde muito cedo a viver um Atletismo demasiado adulto, no plano dos objetivos, dos conteúdos e das práticas; (v) Treinar e competir conjuntamente com os atletas adultos; (vi) Abandonar a escola, o emprego, para se lançar numa dedicação integral ao Atletismo; (vii) Adoção de metodologias de treino desajustadas e à imagem do adulto (especialização precoce, treino intensivo precoce); (viii) Ausência de uma moralização das distâncias das provas de estrada, associada a uma exagerada e frequente participação em competições;  (ix) Aparecimento de muitos jovens com “talento”, mas que jamais o confirmam como adultos; (x) Efêmero sucesso vivido pela quase totalidade dos atuais jovens atletas de VMFF que participam em campeonatos do Mundo ou da América de juvenis, muitas vezes resultado de uma lapidação prematura dos “diamantes” ou o querer colher as maçãs antes da sua plena maturação (Marques, 2004); (xi) Ignorar de uma diferente estrutura de rendimento das disciplinas de VMFF e da importância assumida pela categoria Sub 23 anos, particularmente nos homens; (xii) Na combinação de alguns destes fatores que, não raras vezes, determinam o abandono da prática desportiva.

No conjunto de estudos produzidos sobre treino desportivo é dada menor atenção ao desporto dos jovens que ao desporto dos adultos, apesar de algumas evidências reclamarem e exigirem outras atitudes (Neves, 1995; Rolim et al. 2003; Neves, 2005).

Associados aos motivos expostos, pela sua generalizada importância, também ocasionam maiores e sobretudo mais profundos investimentos no estudo do treino desportivo de crianças e jovens: (i) A pouca consistência do quadro conceitual do treino dos mais jovens, dado que a compreensão nesta área do conhecimento está muito dispersa e difusa; (ii) O reduzido número de atletas jovens que chegam ao alto rendimento, apesar de manifestarem performances de qualidade em idades jovens (Harre, 1982; Grosser et al. 1989; Martin et al. 2001); (iii) A importância que a prática desportiva adquire nos mais jovens, nomeadamente, pelo seu contributo para a saúde (Bar-Or, 1993; Treiber et al. 1989), melhoria da condição física (Pate et al. 1990; Wells, 1986; Zauner et al. 1989), promoção de valores educativos sólidos (Vargas, 1995).

O treino dos mais jovens constitui um novo ramo do treino desportivo, necessariamente distinto do treino do adulto. Os objetivos, os conteúdos, os procedimentos, as preocupações são específicas e diferentes das do desporto dos adultos, havendo necessidade de se enquadrar problemas e particularidades que, muitas das vezes vão além do próprio desporto (Kirsch, 1986).

Para além das fortes motivações pessoais e das razões conferidas, outras há pela sua importância, nomeadamente: (i) A elevada população de jovens que praticam VMFF em comparação com as outras disciplinas do Atletismo; (ii) A generalizada falta de formação específica dos treinadores de Atletismo; (iii) A crescente importância dada pelas instituições e treinadores as etapas iniciais da Preparação Desportiva a Longo Prazo dos atletas jovens (Marques, 2004); (iv) O efetivo desconhecimento de como se processa no Brasil as etapas iniciais da preparação; (v) O elevado número de abandonos da prática do Atletismo de VMFF, por parte de atletas jovens considerados como promissores (Rolim et al. 2003); (vi) O injustificado desajustamento do quadro competitivo do Atletismo jovem (Andrade, 1996); (vii) Os testemunhos de diferentes intervenientes na prática de crianças e jovens e, enfim, a pertinência e relevância do assunto.

Apesar da evolução da metodologia do treino desportivo estar consolidada, o desporto nos jovens parece, ao que tudo indica, enquadrar-se e a reger-se segundo as práticas do desporto dos adultos, às vezes, com a introdução de ligeiras alterações e adaptações de alcance pedagógico muito duvidoso, como, por exemplo as alterações e adaptações para os jovens das regras do Atletismo adulto, destacando-se: (i) Extenso ciclo anual de treino; (ii) Especialização num único desporto e, no caso do Atletismo, num único tipo de prova; (iii) Acentuada especificidade do treino; (iv) Aumento do número de horas de treino por ano; (v) Utilização compulsiva e exagerada de cargas de treino desajustadas; (vi) Participação competitiva especializada.

Além do exagerado valor que o modelo desportivo do adulto tem desde sempre assumido na prática desportiva dos mais jovens (Berryman, 1988), apresenta-nos outras evidências frequentemente encontradas e descritas como a intensificada orientação e supervisão por parte do adulto, nomeadamente exigências de rendimento colocadas por pais, treinadores, dirigentes e adeptos, a ampla cobertura pelos órgãos de comunicação social e a proliferação de competições com exigências elevadas.

Acrescentando a tudo isto, no Atletismo existe a convicção de uma desmedida e sobretudo, inconsequente formação desportiva dos jovens com aparente “talento” para as disciplinas de VMFF, frequentemente salientada através de opiniões de vários intervenientes, como, treinadores, dirigentes, jornalistas, organizadores de provas, médicos, atletas e ex-atletas de alta competição, opiniões estas que, no essencial, se agregam em torno das questões já salientadas.

Neste contexto, os nossos resultados sugerem que existe um desajuste relacionado a solicitação do treino dos integrantes da seleção brasileira juvenil de Atletismo, fato que reflete sobre a perspectiva futura quanto a carreira de atleta profissional.

Conclusão

Em síntese, os atletas da seleção brasileira de Atletismo especialista nas provas de fundo, participantes de Campeonatos Pan-americanos e Mundiais de Atletismo Junior estão com níveis de gordura inadequados para a especialidade. No que tange as características do treino, nota-se que os velocistas e os meio-fundistas iniciaram o treino especializado demasiadamente sedo, em média aos 11 anos de idade. Referente as informações coletadas quanto a carreira de atleta, cerca de 30% pensam em outra profissão e 53% não estão convictos em prosseguir a carreira de atleta profissional. Estes resultados representam um desajuste temporal entre o período ótimo de maturação física e técnica dos corredores brasileiros e as exigências que os mesmos enfrentam no seu treino e competição. Futuras pesquisas sobre a influência do treino e maturação física na evolução da performance com a idade, deverão ter em consideração outras variáveis, como o desempenho destes atletas na categoria adulta.

 

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Sprinters: amplitude e frequência da passada

Victor Machado Reis

Centre for Research in Sport, Health and Human Development at the University of Trás-os-Montes and Alto Douro (UTAD), Portugal.

Andrigo Zaar

Department of Sport Science, Exercise and Health University of Trás-os-Montes and Alto Douro (UTAD). Portugal. IDEAU, Brazil.

André Luiz Carneiro

Colleges United North Mine (FUNORTE), Montes Claros – MG, Brazil.

Resumo – A influência da velocidade no rendimento da corrida depende principalmente da amplitude e frequência da passada. O objetivo é investigar as diferenças na amplitude e frequência da passada em velocistas de elite e atletas de nível regional. Foram observados os registros em vídeo e determinadas a velocidade média de corrida, a amplitude média da passada, e a frequência média da passada de atletas de elite e atletas de nível regional. A velocidade, a amplitude e a frequência média dos atletas masculinos de elite foram: 9.92 0.14, 2.17 0.06, 4.57 0.11. De nível regional foram: 8.63 0.52, 2.02 0.08, 4.27 0.13. No feminino de elite os resultados encontrados foram: 9.09 0.08, 2.06 0.05, 4.40 0.07. De nível regional foram: 7.83 0.26, 1.76 0.04, 4.45 0.12. As diferenças na prestação entre atletas masculinos de elite e de nível regional parecem resultar da diferença na amplitude e frequência média da passada. No feminino, as diferenças refletem predominantemente diferenças na amplitude de passada.

Palavras-Chave: desempenho atlético; corrida de velocidade; amplitude; frequência

Abstract – The variation of speed on the performance of the race depends mainly on the length and frequency of the stride. The aim was to investigate the differences in stride length and frequency between elite and regional level sprinters athletes. The records were observed on video and it was determined the average speed of the race, the average stride length, and the average stride frequency in both elite athletes and athletes of regional level. Speed, stride length and average frequency of male elite athletes were 9.92±0.14 m/s, 2.17±0.06 m, 4.57±00.11 strides/s. At the regional level they were 8.63±0.52 m/s, 2.02±0.08 m, 4.27±12.13 strides/s. In the elite women’s results were: 9.09±0.08 m/s, 2.06±0.05 m, 4.40±00.07 strides/s. Regional level were 7.83±1.26 m/s, 1.76±0.04 m, 4.45±00.12 strides/s. The differences in performance between male elite athletes and regional level seem to result from the difference in stride length and frequency while in females, the differences mainly reflect differences in stride length.

Keywords: athletic performance; Sprint; stride length; frequency

Introdução

A influência da velocidade no rendimento depende principalmente da amplitude e frequência de passada características da prova, logo, da velocidade de deslocamento. Isto porque a velocidade de deslocamento depende daqueles dois parâmetros e estes, por sua vez, dependem da Força, Técnica e Velocidade. A amplitude da passada não depende apenas da Força e da Técnica. Dependem, também, do comprimento dos membros inferiores do atleta e da flexibilidade específica. No entanto, na perspectiva do desenvolvimento das Capacidades Motoras, parece lógico que aquele parâmetro estará mais relacionado com a Força do que com os outros.

Relativamente à frequência também parece linear que a Velocidade como Capacidade Motora é a que mais a influencia. Aqui importa distinguir dois conceitos: o de Velocidade como Capacidade Motora e o de Velocidade de Deslocamento. A frequência de passada depende da Velocidade (Capacidade Motora), já que a Velocidade de Deslocamento, pelo contrário, depende da primeira (Frequência). Quando falamos acerca do treino de velocidade referimo-nos à velocidade enquanto Capacidade Motora. Como neste setor do Atletismo o gesto específico da competição é a corrida, esta pode ser representada pela Velocidade de Deslocamento ou de Corrida. Feita esta distinção utilizaremos, de seguida, apenas o termo Velocidade. Por tudo isto, é lógico que a importância destas duas Capacidades Motoras, nas provas de Velocidade, é tanto maior quanto mais elevada a Velocidade Média de Deslocamento. Assim, é o propósito deste estudo é investigar as diferenças na amplitude e frequência da passada em velocistas de elite e atletas de nível regional.

Metodologia

Amostra

A amostra foi constituída por 25 atletas de elite do sexo masculino, 16 atletas de elite do sexo feminino, 13 atletas de nível regional do sexo masculino e 11 atletas de nível regional do sexo feminino.

Procedimentos

Foram observados os registros em vídeo de várias provas com atletas de elite (grupo elite): finais de 100m e 200m dos Jogos Olímpicos de Atlanta, provas de 100m masculinos dos Meetings de Oslo e Londres, provas de 100m femininos dos Meetings de Oslo e Bruxelas e prova de 200m masculino do Meeting de Vittel. Foram também observados os registros em vídeo das provas finais de 100m e 200m dos Campeonatos Regionais da Madeira (grupo regional). Através destas observações foi determinada a velocidade média de corrida, a amplitude média de passada e a frequência média de passada. As variáveis foram determinadas com base na cronometragem oficial das referidas provas e na contagem do número de apoios pela visualização dos vídeos. A metodologia usada nesta contagem só coloca problemas na observação do último apoio. Isto porque raras vezes se verifica uma coincidência do último apoio com a linha de chegada. O observador foi instruído a considerar frações de ½ ou ¼ da última passada. Mesmo considerando uma margem de erro de ½ passada na observação, a margem de erro total na contagem dos apoios seria 1% nos 100m e 0.5% nos 200m.

Estatística

Os dados foram analisados com o software SPSS 10.0 (SPSS Science, Chicago, USA). A análise exploratória dos dados incluiu medidas descritivas e identificação de out-liers. As diferenças entre grupos foram testadas pelo t-teste de medidas independentes. Os resultados são apresentados como médias desvios padrão.

Resultados

No quadro 1 são apresentados os resultados observados nas variáveis medidas.

Sem título

Como era de esperar, a velocidade média de corrida foi significativamente superior no grupo de elite, independentemente da prova ou do sexo. O mesmo se verificou para a amplitude média de passada. No que respeita à frequência média de passada, no sexo masculino observamos valores significativamente mais elevados no grupo de elite, quer-nos 100 quer-nos 200m. Contudo, para o sexo feminino, as diferenças entre grupos foram mínimas (não significativas), sendo o valor médio mais elevado no grupo regional para os 100m e no grupo elite para os 200m. Assim, parece que no sexo masculino, a melhor prestação do grupo elite resultará de um efeito combinado de valores superiores na amplitude e na frequência de passada. Isto significa que tanto diferenças nos níveis de força específica quanto diferenças na coordenação intermuscular parecem determinar a evolução em provas de velocidade para o sexo masculino. O mesmo não se pode concluir para o sexo feminino. Com efeito, os valores muito semelhantes na frequência de passada, indicam que as diferenças na prestação derivam quase exclusivamente das diferenças na amplitude de passada. Logo, serão prioritariamente as diferenças nos níveis de força específica que contribuirão para a evolução das mulheres nesta prova. Como suporte adicional desta ideia, verificamos que nos atletas de elite os homens apresentaram valores superiores de frequência média de passada em ambas as distâncias, enquanto que no grupo regional sucedeu o contrário.

Nos atletas de elite, verificamos que não existem diferenças significativas nos valores das três variáveis medidas nos 100m ou nos 200m (para ambos os sexos). O mesmo se verificou para os atletas de nível regional. Não obstante, as diferenças na velocidade média foram maiores no grupo regional, indiciando um menor índice de resistência específica destes atletas. Esta menor velocidade média nos 200m no grupo regional parece resultar prioritariamente de uma menor frequência média de passada, uma vez que a amplitude média de passada foi praticamente igual nas duas provas. Contudo, este raciocínio tende a ser desvalorizado na nossa amostra, dada a inexistência de significado estatístico nas diferenças observadas.

Podemos observar no quadro 1, as diferenças de prestação entre os grupos. Com efeito, mesmo as mulheres de elite apresentam uma prestação melhor do que os homens do grupo regional em ambas as provas (diferenças significativas). Verificamos melhor estas diferenças e verificamos que nos, 100m, e melhor prestação das mulheres resultava principalmente de uma frequência média de passada superior (p<05), já que na amplitude média de passada as diferenças não eram significativas. Estes dados suportam a ideia previamente apresentada de que os atletas masculinos do grupo regional apresentam um evidente déficit em termos da sua frequência média de passada. Nos 200m, não se verificaram diferenças significativas entre as mulheres do grupo elite e os homens do grupo regional nestas duas variáveis, sendo assim mais difícil identificar qualquer destes parâmetros como responsável pela melhor prestação das primeiras.

Conclusão

As diferenças na prestação entre atletas masculinos de elite e atletas de nível regional parecem resultar quer de diferenças na amplitude média como de diferenças na frequência média de passada (tanto em 100m como nos 200m). No caso de atletas do sexo feminino, as diferenças de prestação entre os mesmos grupos parecem refletir predominantemente diferenças na amplitude de passada. Logo, é provável que a evolução das atletas regionais dependa principalmente de melhorias nos seus níveis de força específica, enquanto que no caso dos atletas masculinos, parece evidente que, para além deste componente, estes apresentam ainda uma margem de evolução considerável no que respeita à coordenação intermuscular.

Predição da performance de Usain Bolt para o RIO 2016

Andrigo Zaar

Department of Sport Science, Exercise and Health University of Trás-os-Montes and Alto Douro (UTAD). Portugal. IDEAU, Brazil.

Éderson Szlachta

Specialist in Management Information Systems. Anglican College Erechim, Rio Grande do Sul, Brazil.

Resumo: Nos Jogos Olímpicos todos desejam conhecer o homem mais rápido da terra. Usain Bolt bicampeão olímpico e recordista mundial dos 100 e 200m almeja tornar-se uma lenda do esporte ao conquistar o tricampeonato olímpico no RIO 2016. O objetivo foi predizer a performance de Bolt com base na progressão dos resultados desportivos obtidos nos últimos 15 anos. Um modelo matemático de regressão linear com recurso retrospetivo a bases de dados existentes. Verifica-se que os resultados expressos pelo modelo matemático apresentam uma predição da performance para os 100m 9.88s (94,6%) e para os 200m 19.50s (98,4%). Apesar da sua primazia, as evidências não são favoráveis à conquista do tricampeonato olímpico, sua performance lhe assugura uma medalha apenas nos 200m sem quebra de recorde mundial.

Palavras-chave: Atletismo; Performance Esportiva; Modelação.

Abstract: The Olympics everyone wants to know the fastest man on earth. Usain Bolt Two-Time Olympic Championship and world record holder of the 100 and 200m aims to become a legend of the sport to win the Olympic third championship in RIO 2016. The objective to predict Bolt’s performance based on the progression of sporting results over the last 15 years. A mathematical model linear regression with retrospective application to existing databases. It was observed that the results were expressed by the mathematical model predicting the performance feature to 100m 9.88s (94.6%) and 200m 19.50s (98.4%). Despite its primacy, the evidence is not conducive to the achievement of the Three-Time Olympic Championship, your performance you just ensure a medal in the 200m free world record breaking.

Keywords: Athletics; Sports Performance; Modeling.

Introdução

Em 21 junho de 1960, em Zurique, na Suíça, o alemão Armin Harry surpreendeu o mundo ao alcançar o que foi considerado o limite fisiológico para os 100m rasos com 10s. Foi em 20 de junho de 1968, em Sacramento na Califórnia que Jim Hines correu os 100m quebrando esta barreira, com 9.9s. Nos anos seguintes muitos velocistas correram esta distância abaixo dos 10s, mas 31 anos foram necessários para diminuir o recorde de Harry por 0.14s (Carl Lewis, 25 de agosto de 1991, em Tóquio, Japão). O atual recorde mundial de 9.58s foi estabelecido por Usain Bolt, que também detém o recorde mundial dos 200m 19.19s no 12º Campeonato Mundial de Atletismo em Berlim, Alemanha (2009).

Nos últimos anos muitos pesquisadores tem investigado a evolução da performance dos corredores (Gómez et al. 2013; Zaar et al. 2013; Barrow, 2012; Majumdar & Robergs, 2011). O desempenho de Usain Bolt nos 100m é do nosso interesse, uma vez que atingiu, até agora, acelerações e velocidades que nenhum outro corredor já obteve.

Nesse sentido, o objetivo deste estudo foi predizer a performance do bicampeão olímpico e recordista mundial Usain Bolt para o RIO 2016.

Metodologia

A pesquisa foi do tipo descritiva, com dados quantitativos e com recurso retrospetivo a bases de dados existentes. A amostra foi constituída pelos tempos registrados no ranking mundial da IAAF (International Association of Athletics Federations) nos últimos 15 anos alcançados pelo velocista Usain Bolt nas provas de 100 e 200m. Os dados recolhidos no âmbito deste estudo foram organizados para formulação de um modelo de predição da performance para os Jogos Olímpicos do RIO 2016.

Modelação Matemática

Para o cálculo da predição da performance dos resultados desportivos por distância, foi aplicado o modelo matemático de previsão de resultados através de regressão linear expresso pela equação:

y=m*x+b

Sendo: y – Previsão; m – Inclinação da Regressão com base nos valores conhecidos;

x – Referência futura para obtenção da Previsão (idade do atleta no dia da competição);

b – Intercepção da Regressão com base nos valores conhecidos.

http://www.bertolo.pro.br/AdminFin/StatFile/Image7.gif

No sentido de relativizar a pontuação da prova de acordo com a idade em questão, de tal forma que a pontuação correspondente a um determinado tempo seja coerente com o constrangimento fornecido pelo recorde mundial (equivalente ao escore de 1.000 pontos) na referida prova e coerente com a idade no qual este tempo é obtido, foi utilizada a média dos tempos do atleta ao longo da sua carreira, retirada da tabela de rankings atualizado da IAAF. Desta forma, uma constante (Cprova) específica, para as provas de 100m e 200m, foi calculada.

Análise Estatística

Para o cálculo da predição da performance dos resultados, foi utilizado um modelo de regressão linear obtendo-se assim a marca predita para o RIO 2016.

Resultados

Na tabela 1 e 2, são apresentadas as marcas que serviram de base à construção do modelo de regressão em cada distância. Na tabela 3, são evidenciados os resultados que decorreram da análise das marcas de Usain Bolt, com o cálculo da predição da performance para o RIO 2016. Este tende a obter 9.88s nos 100m e 19.50s para os 200m.

Tabela 1 – Principais resultados de Usain Bolt para os 100m rasos

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Tabela 2 – Principais resultados de Usain Bolt para os 200m rasos

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Tabela 3. Equações de regressão linear para obtenção da predição da performance

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Ao analisar a evolução dos resultados desportivos confrontam-se os valores preditos pelos modelos matemáticos em função das marcas obtidas por Bolt ao longo do tempo (Figura 1 e 2). Verifica-se um declínio da performance nos 100m e um incremento do rendimento ao longo do tempo nos 200m.

Figura 1 – Predição da performance para os 100m rasos

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Figura 2 – Predição da performance para os 200m rasos

Discussão

O propósito deste estudo foi predizer a performance de Usain Bolt, o homem mais rápido da terra, bicampeão olímpico dos 100 e 200m para os Jogos Olímpicos do RIO 2016.

Bolt pode ser o melhor velocista que já existiu, no entanto, poucos teriam imaginado que ele iria correr tão rápido os 100m depois de passar a treinar para os 200m e 400m na adolescência. Seu treinador decidiu mudá-lo para os 100m para melhorar a sua velocidade básica de corrida. Com biótipo peculiar ninguém esperava que ele brilhasse, ledo engano! Ao invés de conquistar ocasionalmente um centésimo de segundo do recorde mundial, como seus antecessores, ele arrebatou o mundo (Figura 3). Primeiro, ele reduziu o tempo de Asafa Powell de 9.74s a 9.72s em Nova Iorque (Maio de 2008), em seguida baixou para 9.69s (na verdade 9.683s) nos Jogos Olímpicos de Pequim, reduzindo-o drasticamente para 9.58 s (na verdade 9.578s) no Campeonato Mundial de 2009 em Berlim. Sua progressão nos 200m foi ainda mais surpreendente, reduzindo o supostamente o “imbatível” recorde de 19.32s (na verdade 19,313s) de Michael Johnson 1996 a 19.30s (na verdade 19,296s) em Pequim e em seguida para 19.19s em Berlim.

Figura 3. Progressão do recorde dos 100m masculino. Cronometragem eletrônica para 1 centésimo de segundo tornou-se obrigatória em 1977 (Barrow, 2012)

Estes resultados equivalem a 94,6% do recorde mundial nos 100m e 98,4% para os 200m. Ao analisar o desempenho dos medalhistas olímpicos nos últimos 20 anos, a predição da performance de Bolt o levaria a 4ª posição nos 100m e a medalha de prata nos 200m na final olímpica do RIO 2016.

Segundo Barrow (2012), para Bolt melhorar sua marca, precisaria melhorar o tempo de reação no bloco de partida. Os atletas são julgados ter falsa largada quando estes reagem através da aplicação de pressão do pé para seus blocos de partida no prazo de um décimo de segundo da largada. Notavelmente, Bolt tem uma das largadas mais lentas entre os principais velocistas, sendo o segundo mais lento de todos os finalistas em Pequim e o terceiro mais lento em Berlim, quando ele correu 9.58s. A reação e tempos de Berlim para todos os finalistas são apresentados na Tabela 4.

Tabela 4 – Tempo de reação e corrida dos finalistas dos 100m no Campeonato Mundial em Berlim

Na final olímpica de Pequim, o tempo de reação de Bolt foi 0.165s, apenas a frente de Burns, o que permitiu uma velocidade média de 10,50 m/s e em Berlim, onde ele reagiu mais rápido foi 10,60 m/s.

Para Gómez et al. (2013), Bolt possui uma reação lenta, mas não significa que ele tenha um início de prova lento. O velocista possui estatura elevada e membros longos, o que prejudica os movimentos iniciais, com grandes momentos de inércia. Para se mover, atletas do topo levam cerca de 0.3s para sair dos blocos. Bolt poderia iniciar abaixo de 0.13s o que é muito bom, mas não excepcional, então ele iria reduzir o seu recorde de 9.58s para 9.56s. Se ele pudesse obtê-lo de forma consistente, reduziria para 0.12s assim, seria possível obter 9.55s e se ele respondesse tão rapidamente quanto a regra permite com 0.10s, teríamos 9.53s.

Na Figura 4 são apresentados os tempos de reação masculina e feminina preparados por Lipps et al. (2009) tomadas a partir de 425 velocistas nos Jogos Olímpicos de Pequim. O tempo de reação média dos homens foi de 168 m/s (±160-178 m/s) e a média para as mulheres foi de 191 m/s (±180-205 m/s).

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Figura 4 – Tempo de reação dos 425 velocistas participantes dos Jogos Olímpicos de Pequin. Tempos de reação das mulheres são 23 m/s mais lentos do que dos homens (Lipps et al. 2009)

Incontestavelmente esta modelação matemática é apenas uma forma bruta de estimar as marcas de Bolt para RIO 2016 considerando seu desempenho nos últimos 15 anos, são desconsiderados aspectos como auxílio do vento e altitude, fatores que poderiam tornar seu resultado ainda mais surpreendente.

A velocidade do vento é um assunto esquecido no atletismo que pode contribuir com a melhora do recorde mundial. O limite da velocidade do vento para este fim é de 2 m/s, imaginemos que este vento esteja a favor dos atletas, será suficiente para Bolt correr 0,2-0,5 m/s mais rápido (Majumdar & Robergs, 2011). Muitos recordes mundiais usufruiram do vento. O conjunto mais notório de recordes mundiais em corridas de velocidade e saltos horizontais foram estabelecidos nos Jogos Olímpicos do México em 1968, onde o anemômetro gravou 2 m/s no momento do recorde mundial. Mas este certamente não é o caso para o registro corridas de Bolt, em Berlim, ao correr 9.58s a velocidade do vento estava em 0,9 m/s a favor e em Pequim não havia vento, então em condições vantajosas de vento Bolt poderia melhorar o recorde. Para um atleta típico, cerca de 3% do seu esforço é dispendido pelo arrasto do vento (Mureika, 2001), assumindo que Bolt corresse os 100m com vento a favor de 2 m/s, resultaria em cerca de 0.11s melhor em comparação a Pequim. Então, se Bolt combinásse um tempo de reação de 0.12s com uma assistência máxima permitida do vento, ele poderia transformar os 9.58s alcançados em Berlim para 9.50s. E se ele pudesse atingir o limite do tempo de reação teórica de 0.10s, com o auxílio máximo do vento ele estaria chegando a incríveis 9.48s.

É de realçar que Bolt domina as provas de velocidade nos últimos 10 anos e considera encerrar sua carreira no RIO 2016, fato que corrobora com os achados deste estudo, os valores expressos pela análise dos dados revelam que Bolt encontra-se em declíneo da velocidade de base para a performance nos 100m, o que é natural com o passar dos anos, entretanto, permanece soberano nas pistas.

Para quebrar os recordes mundiais Bolt necessitaria da influência de outros fatores, como da altitude (Pritchard, 1993). Cada 1.000 m de altitude vai reduzir seu tempo nos 100m por cerca de 0.03s, devido à queda na densidade do ar (Eriksen et al. 2009). Se ele corresse na altitude da Cidade do México, poderia ser 0.07s mais rápido, no entanto, para fins de registro, os recordes são válidos até 1.000m de altitude.

Em síntese, para Usain Bolt melhorar seu recorde mundial de 9.58s, necessita melhorar o seu tempo de reação, utilizando o limite teórico na largada, onde obteria 9.48s. Com a assistência máxima permitida do vento de 2 m/s, ele pode chegar a 9.45s, e correndo com a melhor altitude legal de 1.000m ele pode atingir 9.43s e 9.41s no México.

Esta evolução surpreendente pode acontecer sem grande progresso da performance de Bolt, ilustrando o quão longe estamos do “limite” do ser humano. A modelação matemática utilizada para a predição da performance nos possibilita verificar que Bolt não é o homem mais rápido do mundo. Seu companheiro de treino, Yohan Blake, que possui a segunda melhor marca mundial para os 200m com 19.26s (vento 0,7 m/s) correu de forma extraordinária, largando letargicamente (0,269s), portanto a corrida de Blake foi 18.99s contra 19.06 de Bolt (Barrow, 2011). Se dividirmos pela metade estes tempos encontramos 9.495s para Blake contra 9.530s para Bolt. São mais rápidos do que o recorde dos 100m por se tratar de uma corrida lançada, apesar do glamour sobre os 100m, são os 200m que você realmente quer ver!

Os resultados obtidos, em conjunto com os fatos apontados na presente discussão, nos deixam ansiosos pelos Jogos Olímpicos do RIO 2016, para testar o nosso modelo com os dados experimentais obtidos a partir de tais registros, bem como, a expectativa se o homem mais rápido na terra é capaz de bater seu próprio recorde mundial mais uma vez.

Conclusão

No presente estudo verificamos que apesar da primazia, as evidências não são favoráveis à conquista do tricampeonato olímpico. Sua performance lhe assugura a medalha apenas nos 200m, sem obtenção do recorde mundial.

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