Modelação biomecânica e do rendimento nos 100m rasos: comparação entre o recorde do mundo de Usain Bolt e da europa de Francis Obikwelu

MODELAÇÃO BIOMECÂNICA E DO RENDIMENTO NOS 100M RASOS: COMPARAÇÃO ENTRE O RECORDE DO MUNDO DE USAIN BOLT E DA EUROPA DE FRANCIS OBIKWELU

 

Pedro Forte1

Daniel A. Marinho1

Mário C. Marques1

Victor M. Reis1

Juan J. González-Badillo1

Tiago M. Barbosa1

1Centro de Investigação em Desporto, Saúde e Desenvolvimento Humano da Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro (UTAD), Portugal.

RESUMO

Foi objetivo deste estudo: (i) exemplificar o tipo de análise biomecânica que é possível realizar in loco durante grandes competições internacionais por analistas desportivos no Atletismo; (ii) caracterizar e analisar o rendimento e a biomecânica das provas dos 100m rasos dos recordistas do mundo e da europa com recurso a procedimentos analíticos; (iii) comparar os desempenhos dos dois recordistas. A amostra foi constituída pelo recordista do mundo (Usain Bolt, Jamaica) e pelo recordista europeu (Francis Obikwelu, Portugal) dos 100m rasos. A modelação do rendimento foi efetuada com base num modelo quasi-físico, considerando que a prova inclui a fase de partida (fs), a fase de manutenção (fm), a influência da velocidade (fv) e do arrasto (fd). A modelação biomecânica recorreu à análise cinemática por medição do tempo de contato com o solo (tc) e de voo (tf) dos apoios, frequência gestual (FG) e distância de ciclo (DC). A análise cinética recorreu à estimativa do pico de força de reação ao solo (Fmax), da rigidez vertical (kvertical) e rigidez do membro inferior (kleg) de acordo com um modelo de massa-mola. Da modelação do rendimento, confirmou-se que Francis Obikwelu tem uma partida mais lenta (fs) e Bolt uma menor taxa de desaceleração (fm) ao longo da prova. A fv e por consequência a fd foram superiores no jamaicano. Bolt apresentou uma DC superior, FG e tc ligeiramente inferior a Francis Obikwelu. A Fmax foi superior no jamaicano em quase toda a prova (Bolt: 3.68-4.23; Francis: 3.65-4.06 vezes o peso corporal). Francis evidenciou uma maior ∆y em praticamente 0,5cm e ∆L 5-10cm que Bolt. A kvertical e kleg foram significativamente mais elevados no Bolt ao longo de praticamente toda a prova, com exceção do último parcial.

Palavras-chave: Atletismo, cinética, cinemática, modelo quási-físico, sistema massa-mola

 

INTRODUÇÃO

Jogos Olímpicos (JO), Campeonatos do Mundo e da Europa são o grande palco onde atletas procuram estar no pico da forma. São momentos únicos para países fazerem uma análise do nível de desenvolvimento dos seus sistemas desportivos, científicos e tecnológicos. Hoje em dia, atletas de alta competição devem ser apoiados por uma equipa multidisciplinar. Os analistas desportivos, com sólida formação em ciências do desporto são parte essencial fornecendo dados quantitativos de diagnóstico, prescrição e previsão de rendimentos.

O Atletismo é a competição rainha dos JO. Na última década Portugal tem vindo afirmar-se de forma superior nas provas mais técnicas e tecnologicamente exigentes (saltos e velocidade) em detrimento daquelas em que tinha mais tradição (meio-fundo e fundo). Para a sustentabilidade destes resultados e para que não sejam considerados como fatores casuísticos ou ditados por fatores individuais, será necessário a implementação de processos de controle e avaliação do treino e competição, auxiliados pelos analistas desportivos. Esta é pelo menos a realidade em outros países e sistemas desportivos que desenvolveram há algum tempo estruturas de apoio aos seus atletas de elite e que se encontram de forma consistente no topo.

No caso dos biomecânicos, estes analistas podem socorrer-se de três processos para o diagnóstico, prescrição e previsão da performance e seus fatores determinantes: (i) metodologias experimentais; (ii) simulações numéricas; (iii) procedimentos analíticos de modelação. Se os dois primeiros podem ser usados em situação de treino ou estágio, existe uma forte limitação em contexto competitivo. Ora, é no contexto competitivo que o atleta expressará potencialmente o seu melhor rendimento e necessitará de dados para correção futura do desempenho. Para tal, os biomecânicos poderão desenvolver e aplicar modelos quasi-físico e afins (i.e. procedimentos analíticos). Estão descritos alguns procedimentos que quando devidamente adaptados serão particularmente úteis para partilhar dados pertinentes sobre a performance e a biomecânica de atletas1,2,3. Tanto quanto sabemos a modelação da performance de atletas de alta competição portuguesa nunca foi realizada. Sendo os 100m a prova máxima dos JO e tendo Portugal inclusive já obtido uma medalha de prata surge a oportunidade de se efetuar essa análise. Será de interesse conhecer com detalhe o desenvolvimento dos diferentes componentes da prova de 100m dos recordistas do mundo (Usain Bolt, Jamaica) e da Europa (Francis Obikwelu, Portugal). Também será oportuno uma análise biomecânica mais detalhada das respectivas provas com recurso à modelação referida anteriormente. Apenas um estudo analisou estas variáveis no recordista do mundo, mas apenas parcialmente entre os 60 e os 80m4. Contudo, as parciais antes dos 60m e por vezes a parcial final entre os 80 e os 100m são determinantes numa prova deste tipo e nunca foram analisados.

É objetivo deste estudo: (i) exemplificar o tipo de análise biomecânica que é possível realizar in loco durante grandes competições internacionais por analistas desportivos no Atletismo; (ii) caracterizar e analisar a performance e a biomecânica das provas dos 100m dos recordistas do mundo e da europa com recurso a procedimentos analíticos; e (iii) comparar os desempenhos dos dois recordistas. São hipóteses a testar que é possível: (i) fornecer aos atletas poucos minutos após o seu desempenho em grandes provas internacionais dados objetivos e pertinentes do seu desempenho; (ii) diagnosticar os pontos fortes e fracos das provas dos dois recordistas a partir da análise da performance ao longo da prova, da análise cinemática e cinética após respetivas modelações; e (iii) identificar os pontos-chave na prova e na biomecânica que serão distintivos entre o recordista do mundo e da europa.

METODOLOGIA

Amostra

A amostra foi constituída pelo recordista do mundo e pelo recordista europeu dos 100m. O recordista do mundo à data desta investigação era Usain Bolt (UB, 1,96m, 94kg; dados obtido online) da Jamaica com o tempo de 9.58s (vento: +0.9m/s) obtido nos campeonatos do mundo de Berlim em 2009. O recordista da Europa era Francis Obikwelu (FO, 1,95m, 80kg; comunicação pessoal do atleta) de Portugal com o tempo de 9.86s (vento: +0.6m/s) nos JO de Atenas em 2004. O trabalho está de acordo com a Declaração de Helsínquia no que toca ao estudo com seres humanos.

Modelação do rendimento desportivo

O rendimento nos 100m é determinado pelo tempo (t) despendido para cumprir tal distância (d) e, portanto, influenciado pela velocidade:

Capturar

O velocista deve atingir uma velocidade maximal tão cedo quanto possível. Ou seja, a aceleração (a) que é governada pela segunda lei do movimento determina que as forças mecânicas (F) em jogo e componentes inerciais como a massa (m) são variáveis exógenas:

Capturar1

As forças mecânicas a atuar ou produzem propulsão (Fprop) ou resistência (Fresist), pelo que a equação 2 pode ser detalhada para:

Capturar3

As forças propulsivas incluem a fase de partida (fs) e a de manutenção (fm); já a resistência prevê a influência da velocidade (fv) e do arrasto (fd)1:

Capturar4

Funções velocidade-tempo [v(t)] ou velocidade-distância [v(d)] das provas podem ser obtidas online e em relatórios técnicos5. Habitualmente estes dados são recolhidos com recurso a sistema doppler ou outras técnicas experimentais (p.e. vídeo ou time gates).

A fs descreve o momento da partida, da posição engrupada à vertical considerando a magnitude da partida (fo=6.10N/kg) e a constante σ (2.22s-2):

Capturar5

A fm representa a capacidade do velocista em manter a aceleração, e portanto a taxa de perda de velocidade ao longo da prova, em que f1 é 5.15N/kg e c a constante 0.0385 s-1:

Capturar6

A fv é um termo que modela os limites humanos para atingir uma determinada velocidade máxima (v) em função do tempo (t) e da constante α que define o limite humano (0.0323 s-1 se a frequência gestual for 4 a 5 Hz):

Capturar7

Por fim, a fd é o termo que considera a resistência do ar. Este inclui a modificação da área da posição engrupada à vertical na partida. Será necessário ter como inputs a densidade do ar (r), a área corporal (A), coeficiente de arrasto (Cd), massa corporal (BM), velocidade (v) e o tempo (t):

Capturar8

A área e o coeficiente de arrasto foram estimados de acordo com o procedimento descrito por Gómez et al.6. A aceleração obtida foi submetida a integração para estimação da velocidade e esta última integrada novamente para determinação das parciais a cada 20m:

Capturar9-10

O tempo final de prova também foi estimado para a teórica ausência de vento (tc) em função da velocidade do vento (vw) e do tempo oficial obtido (tw):

Capturar11

Análise biomecânica

Recorreu-se ao descarregamento dos vídeos das provas que se podem encontrar disponíveis online. A análise cinemática foi efetuada com recurso ao Kinovea (v.0.8.15, França).

A análise cinemática incluiu a medição do tempo de contato com o solo (tc) e de voo (tf) dos apoios (ICC=0.98). Com estes tempos, calculou-se a frequência gestual (FG). Combinando as velocidades instantâneas recolhidas previamente da literatura ou online e a FG, calculou-se a distância de ciclo (DC):

Capturar12

A análise cinética recorreu à estimativa do pico de força de reação ao solo (Fmax), da rigidez vertical (i.e., stifness, kvertical) e rigidez do membro inferior (MI) (kleg) de acordo com o modelo de massa-mola (i.e., spring-mass model) descrito por Morin et al.2:

Capturar13-14-15

Em que ∆y é a oscilação vertical do centro de massa e ∆L a alteração da distância entre o solo e a articulação coxofemoral (i.e. comprimento do MI):

Capturar17-18

O comprimento do MI na posição ortostática foi estimado como sendo 53% da estatura dos sujeitos7. Estudos prévios indicam um viés entre a rigidez medida com procedimentos gold-standard (i.e. cinemetria e plataforma de forças) com este modelo. Dos vários modelos disponíveis na literatura8, o de Morin et al.2 apresentou o melhor ajuste (ICC=0.901)9. Ainda assim, procedeu-se à respectiva correção de acordo com o factor 1.0496 como sugerido pelos autores9.

Análise estatística

Testaram-se os resultados biomecânicos obtidos por via de testes de hipótese nula do tipo não paramétrica, após análise exploratória dos dados [teste de Shapiro-Wilk para determinação da normalidade em que YÇ N (mY|X1,X2,…,XK, s2)].

A comparação entre cada velocista das variáveis selecionadas a cada parcial de 20m foi efetuada com recurso ao teste de rankings Mann-Whitney U (P <0.05). Os dados são descritos enquanto médias e um desvio-padrão (i.e. para um intervalo de confiança de 68%. Para um nível de confiança de 95%, bastará a multiplicação por 2 do desvio-padrão).

Complementarmente, os tamanhos dos efeitos (i.e. effect sizes) foram calculados através do “d de Cohen” (efeito pequeno: 0≤|d|≤0.2; efeito moderado: 0.2<|d|≤0.5; efeito elevado: |d|>0.5).

RESULTADOS

Modelação do rendimento desportivo

Figura 1 ilustra a comparação entre a velocidade medida experimentalmente5 e a modelada com recurso ao procedimento descrito na metodologia (equações 4 a 10) para o UB. Qualitativamente o perfil é substancialmente igual, existindo uma concordância entre resultados experimentais e analíticos. Quantificando o ajuste, o ICC foi de 0.97 (95% intervalo de confiança: 0.75-0-99; 1% de diferença no tempo final de prova).

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Figura 1. Comparação entre a velocidade medida experimentalmente e modelada a partir das equações 4 a 10 para Usain Bolt.

Os quatro termos da modelação do sprint são apresentados na figura 2. As escalas dos eixos das ordenadas e abcissas foram mantidas iguais nos quatro painéis para ser possível a comparação dos diferentes termos em cada velocista e também entre velocistas. Após os 5-10m, a fs é negligenciável. Verifica-se uma perda constante da fm ao longo de toda a prova. A fv e a fd, com forte relação com a velocidade, tendem a aumentar até por volta dos 30-40m e depois estabilizar. A fs é o componente mais importante nos primeiros 5m. Entre aproximadamente os 5-40m a fm é o componente mais determinante. Após a marca dos 40m, a fv é o componente a tomar em consideração. A fd é o componente com um menor papel do ponto de vista parcial, ao longo de toda a prova.

Comparando os dois velocistas, a fs prolonga-se por mais 2-3 metros no FO do que no UB. As perdas ao longo da prova (i.e. fm) são superiores no FO. A fv e por consequência a fd são superiores no UB. Genericamente parece que o FO tem uma partida mais lenta e o UB tem uma menor taxa de desaceleração ao longo da prova. A maior resistência do ar estará relacionada com a velocidade atingida pelo UB mas também pelas suas maiores dimensões corporais, embora os dados estarem relativizados à antropometria dos sujeitos.

De acordo com a equação 11, estimou-se que o tempo de prova na ausência de vento seria de 9.62s para UB (i.e. desvantagem de 0.04s) e de 9.89s (desvantagem de 0.03s) para FO.

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Figura 2. Comparação da modelação da prova dos 100m planos entre Usain Bolt (linha preta) e Francis Obikwelu (linha cinza).

Análise biomecânica

Após modelação da prova e um diagnóstico prévio dos principais fatores determinantes do rendimento obtido, segue-se a análise mais detalhada da biomecânica. A figura 3 apresenta a comparação da variação da cinemática entre os dois velocistas, a cada parcial de 20m. UB foi significativamente mais veloz entre os 40 e os 100m, com exceção do parcial 60-80m (0.02≤P≤0.04) sendo os efeitos dos tamanhos muito elevados em todas as parciais (0.74≤|d|≤6.01). A DC e a FG foram significativamente diferentes entre os 40 e os 80m (DC: P=0.02, 4.22≤|d|≤3.46; FG: P=0.03, 2.33≤|d|≤2.51). A DC apesar de não ser estatisticamente significativa na parcial 0-20m está próximo da área de rejeição (i.e., P=0.07) e apresenta um efeito do tamanho elevado (|d|=0.97) pelo que não deve ser negligenciada. O tc e tf foram genericamente superiores no caso do FO (tc: 0.01≤P≤0.14, 0.84≤|d|≤5.77; tf: 0.01≤P≤0.55, 0.73≤|d|≤8.66). Logo, a maior velocidade de UB poderá estar relacionada com uma maior DC, ligeiramente inferior FG e tc.

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Figura 3. Comparação da variação da cinemática da passada ao longo da prova dos 100m entre Usain Bolt (linha preta) e Francis Obikwelu (linha cinzenta). * P<0.05 entre os dois velocistas.

Para um melhor entendimento da resposta cinemática, será necessário uma análise da respectiva cinética (Figura 4). A Fmax foi significativamente superior no UB, exceto na última parcial (0.01≤P≤0.02, 0.13≤|d|≤5.72). Entre os 40 e os 80m estimou-se uma Fmax entre 3.68 e 4.23 vezes o peso corporal. Já no caso de FO a estimativa quedou-se entre 3.65 e 4.06, sendo o valor mais elevado atingido no último parcial, com 4.81 vezes o peso corporal. A ∆L e a ∆y foram significativamente superiores no FO na segunda metade da prova (∆L: 0.01≤P≤0.46, 0.36≤|d|≤16.13; ∆y: 0.01≤P≤0.14, 0.78≤|d|≤6.17). Ou seja, FO parece evidenciar uma maior oscilação vertical do que UB. A rigidez vertical e do MI foram significativamente mais elevados no UB à exceção do último parcial (Kvertical: 0.02≤P≤0.04, 1.46≤|d|≤11.55; Kleg: 0.02≤P≤0.03, 1.43≤|d|≤10.64). Portanto, UB apresentará um sistema de absorção, reutilização de energia elástica e uma resposta neuromuscular mais eficiente que FO.

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DISCUSSÃO

Da análise da performance ao longo da prova, confirmou-se que FO tem uma partida mais lenta (fs) e o UB tem uma menor taxa de desaceleração (fm). Fica claro que o perfil dos últimos 2s de prova de UB são diferentes do resto, não tanto por constrangimentos biomecânicos ou fisiológicos mas devido à celebração antecipada. Há estimativas que sem essa celebração o tempo final seria de 9.55±0.04s para um intervalo de confiança 95%10. A taxa de aumento da fv é mais acentuada entre os 2.5m e os 45m para UB. FO apresenta um desenvolvimento da aceleração nesse parcial mais lento. Os últimos metros da prova foram decisivos para a obtenção da medalha de prata de FO. A fd é superior no UB, devido à velocidade e às suas características antropométricas. Globalmente, o fator distintivo entre os dois serão os primeiros 25-30m de prova. Tanto quanto sabemos este tipo de análise nunca foi realizada em medalhados olímpicos, pelo que é difícil a comparação com a literatura. A maioria dos estudos se restringe a análises básicas de tempos parciais de prova11. Comparativamente com os resultados apresentados pelo próprio Mureika1, UB e FO apresentam rendimentos superiores em todos os parâmetros.

Estimou-se que o tempo de prova caso não houvesse vento fosse de 9.62s para UB e de 9.89s para FO. Este tipo de análise é relevante perante determinadas condições atmosféricas que possam variar bastante ao longo de uma competição12. Assim, será possível estimar as variações da performance p.e. entre eliminatórias, semifinais e final, de acordo com o vento registrado em diferentes sessões.

UB apresentou uma DC superior, ligeiramente menor FG e tc do que FO. A Fmax foi superior no UB (UB: 3.68-4.23; FB: 3.65-4.06 vezes o peso corporal) exceto na última parcial. Os valores estimados estão de acordo com a outra modelação disponível na literatura4 e dados experimentais13. Contudo, existe evidência que a Fmax e respectivo impulso mecânico é que são determinantes para se atingir elevadas velocidades14. O comportamento de FO e UB confirmam este fato. Não tendo sido objetivo deste estudo é possível estimar e modelar a potência metabólica15 ou trabalho mecânico externo16 produzidos. Um menor tc e FG induzem um aumento da potência metabólica e trabalho mecânico. Será de especular que UB produzirá uma maior potência metabólica e trabalho mecânico externo do que FO.

De acordo com a literatura, o rendimento relaciona-se com uma maior Kvertical sendo o efeito do Kleg residual17. Estes dados confirmam a maior Kvertical e Kleg no UB do que no FO. Pelo menos para a parcial 60-80m os resultados aproximam-se do reportado4; embora não tenham efetuado a correção sugerida9. De acordo com as equações 14 e 15, a rigidez depende do aumento da Fmax (superior no UB) e da diminuição da ∆y e ∆L (inferiores no UB). FO evidenciou maior oscilação vertical do corpo que UB em praticamente 0,5cm até aos 80m. Já a ∆L foi inferior em quase 5-10cm no UB. Estes resultados foram tendencialmente ou significativamente diferentes, mas sempre com elevados efeitos dos tamanhos. A Kvertical e Kleg são representativas da capacidade de absorção e reutilização da energia elástica18. Portanto, UB apresentou um sistema de absorção, reutilização de energia elástica e uma resposta neuromuscular mais eficiente que o FO afetando o rendimento.

São limitações deste estudo: (i) os dados experimentais foram obtidos online. Um analista que esteja in loco poderá recolher dados com uma maior qualidade, de acordo com os parâmetros a analisar; (ii) os procedimentos analíticos apresentam sempre algum viés que é desejável minimizar, o que foi efetuado; (iii) foi realizada a análise da prova dos 100m. No entanto, o mesmo racional e diferentes modelos podem ser usados para outras provas de velocidade e saltos e outros desportos olímpicos onde Portugal obtêm resultados de nível internacional (p.e., canoagem, remo, ciclismo, triatlo, natação).

CONCLUSÕES

É possível fornecer aos atletas poucos minutos após a prova em competições internacionais dados objetivos e pertinentes do seu desempenho. Neste estudo ilustrou-se tal fato com o desempenho de UB e FO na prova de 100m.

Estimou-se que o tempo de prova caso não houvesse vento fosse de 9.62s para UB e de 9.89s para FO. Da análise da performance confirmou-se que FO tem uma partida mais lenta e o UB tem uma menor taxa de desaceleração ao longo da prova.

UB apresentou uma DC superior, FG e tc ligeiramente inferior a FO. A Fmax foi superior no UB em quase toda a prova (3.68-4.23 vs. FB: 3.65-4.06 vezes o peso corporal). FO evidenciou uma maior ∆y em praticamente 0,5cm e ∆L 5-10cm que UB. Por consequência disto, UB apresentou um sistema de absorção, reutilização de energia elástica e uma resposta neuromuscular mais eficiente que FO, explicando o tempo oficial obtido.

 

BIBLIOGRADIA

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Direction of attentional focus on response time in block departure in Athletics

Direção do foco atencional no tempo de resposta na partida do bloco no Atletismo

José Vasconcelos-Raposo1, Estefânia Sá2

1.University of Trás-os-Montes and Alto Douro, INESC TECH, (UTAD) Portugal.

2.University of Trás-os-Montes and Alto Douro, (UTAD) Portugal.

INTRODUÇÃO

Com este trabalho pretendemos, de alguma forma, contribuir para um conhecimento mais efetivo, sobre as questões subjacentes aos contributos que a psicologia do desporto pode efetivamente dar para a melhoria do rendimento dos atletas, potenciando as suas capacidades físicas.

Para o propósito do presente estudo, tomamos em consideração os processos atencionais, nomeadamente os que se prendem com o que designamos de foco atencional. O nosso objetivo é demonstrar que com a correta orientação do foco atencional do atleta, por exemplo, no caso da partida nas provas de velocidade no atletismo, é possível reduzir o “tempo de resposta” na partida com blocos.

Uma das questões centrais com que a Psicologia do Desporto debate é a receptividade por parte dos treinadores para recorrerem aos contributos de um psicólogo do desporto. Se bem que o número de psicólogos a trabalhar com equipes tenha vindo a aumentar ao longo dos anos, a intervenção destes é ainda reduzida. As explicações para tal fenômeno são várias. No entanto, parece que uma das mais significativas é a reduzida informação de que os treinadores dispõem sobre os reais contributos que a psicologia pode dar para a melhoria do rendimento dos atletas. O outro lado desta medalha mostra-nos que os psicólogos também não têm sido eficazes na divulgação dos seus saberes e contributos para o rendimento desportivo. Quando o fazem, fazem-no com a preocupação de satisfazer os requisitos acadêmicos essenciais à progressão das suas carreiras. As implicações deste último aspecto são que a “leturalibilidade” dos documentos publicados é inadequada para a maioria dos agentes desportivos que intervêm no processo de treino desportivo.

De acordo com Mannie (1997) o sucesso de um programa de treino para a partida depende, em grande parte, do tempo de resposta do atleta. Por tempo de resposta deve entender-se: o tempo que leva um atleta a “identificar o estímulo, iniciar e completar a ação associada ao estímulo (informação) que lhe é apresentado (no seu componente corporal e mental)”. Neste sentido, definimos o tempo de resposta como sendo constituído pelo tempo de reação e pelo tempo de movimento de uma ação motora previamente treinada.

No que se refere à partida de blocos, nas provas de velocidade na modalidade de atletismo, sabemos que o tempo de reação é secundário ao tempo de resposta. Mannie (1997), refere que não existe uma relação direta entre o tempo de reação e o tempo de prova, não sendo o mesmo verdade na relação que existe entre tempo de resposta e tempo de prova. O autor afirma que apenas o segundo toma em consideração os componentes que influenciam diretamente o tempo de movimento, nomeadamente no que se refere à antecipação das adaptações necessárias às fases seguintes da corrida.

Assim, para o propósito do presente estudo, concentramos os nossos esforços no estudo do tempo de resposta dos atletas não tendo qualquer preocupação em quantificar o tempo de reação. Com o propósito de tornar evidente a relação existente entre a direção do foco atencional e os valores do tempo de resposta procuraram estabelecer uma relação entre o tipo de foco atencional e os tempos de resposta.

Este trabalho representa o retomar de uma linha de investigação na área da aplicação de alguns princípios psicofisiológicos ao rendimento desportivo. De acordo com trabalhos realizados anteriormente, Vasconcelos-Raposo, Freitas e Morais (1990), prevemos uma redução no tempo de resposta. Como consequência de um programa de treino de controle atencional centrado no ponto de foco interno. Por ponto de foco interno entendemos a sensação física mais facilmente reconhecida pelo atleta em associação à ação motora que imediatamente se lhe segue.

A revisão da literatura que segue serve um duplo propósito. Em primeiro lugar, procura evidenciar os aspectos que mais diretamente parecem estar associados a fenômenos que nos propomos estudar. Em segundo lugar, é também uma forma de alertar os nossos eventuais leitores para o caráter exploratório deste tipo de trabalho, na medida em que as possíveis inferências causais requerem um maior número de variáveis a serem tomadas em consideração. Assim, de seguida apresentamos alguns estudos relativamente a algumas das variáveis que à priori consideramos ser prioritário tomar em consideração, nomeadamente a velocidade de reação, os sistemas de processamento de informação e a concentração.

Velocidade de reação

De todas as formas de manifestação da velocidade a que está mais condicionada geneticamente é a velocidade de reação (Carvalho, 1988). A velocidade de reação é a capacidade do sistema neuromuscular reagir a um dado estímulo no menor espaço de tempo. Podemos, ainda, definir este conceito como tempo de reação (TR), ou seja, o tempo que decorre entre a apresentação de um estímulo e o início da resposta solicitada pelo sujeito. Existe uma multiplicidade de fatores que contribuem para que o mesmo sujeito apresente diferentes TR em função da modalidade sensorial solicitada.

Esta resposta ao estímulo pode ser definida em dois tipos, consoante ao conhecimento ou não da origem do estímulo (Castelo, Barreto, Alves, Mil-Homens Santos, Carvalho & Vieira, 1996). Assim, temos o tempo de reação simples (TRs), onde o atleta previamente conhece a resposta que tem de dar ao estímulo. No tempo de reação complexa (TRc), o estímulo é desconhecido assim como o momento e circunstância em que ocorrerá.

O TRs implica uma resposta única a um estímulo já conhecido (Manso, Valdivielso, Caballero, & Acero, 1998). Um exemplo imediato, que nos permite ilustrar esta capacidade, é a resposta ao disparo do juiz de partida de uma prova de velocidade.

Para o propósito deste estudo estudaremos o tempo de resposta, que é composto pelo tempo de reação e pelo tempo de movimento específico a uma tarefa. No caso da partida em atletismo o tempo de movimento (TM) é quantificado a partir do momento em que se pode identificar o início da contração muscular e termina quando o ciclo gestual é finalizado (no caso da partida de blocos quando o pé da frente sair do bloco). São fatores fundamentais para o tempo de movimento os aspectos musculares e energéticos. Esta capacidade humana é treinável. Por esta razão, julgamos ser pertinente investigar o tempo de resposta, tal como este se alicerça nos processos do foco atencional.

Na literatura especializada reconhecem-se cinco fases para o tempo de reação simples, são elas:

  1. O tempo que o receptor demora em captar o estímulo, ou seja, o tempo que medeia à ocorrência do estímulo até à recepção do mesmo pelo indivíduo. Este componente está intimamente relacionado com a capacidade de concentração. Quanto maior for a capacidade de concentração, menor será o TR (Pérez & Enciso, 1987);
  2. O tempo que o estímulo demora a percorrer a via aferente, ou seja, o tempo que decorre desde o estímulo chegar ao receptor da zona cerebral de cada modalidade sensorial. Este aspecto relacionado com a velocidade de condução do impulso nervoso (aspecto que não pode ser treinado);
  3. O tempo de elaboração da resposta, ou seja, seleção de uma resposta correta ou idônea entre toda a gama de experiências armazenadas na memória (é a fase do TRs que se pode desenvolver de melhor forma, através do treino);
  4. O tempo que o estímulo demora a percorrer a via eferente até chegar à placa motora (fator muito estável que apenas se pode alterar minimamente com o processo de treino);
  5. O tempo que decorre em estimular o músculo, ou seja, em se dar início à contração.

As quatro (4) primeiras fases denominam-se de tempo de reação pré-motriz e constituem 75-85% do TR total. A quinta (5ª) é fase denominada de tempo de reação motriz (fase de execução) e abarca o período compreendido desde que o impulso trespassa a placa motora até que se dá início ao movimento. De acordo com Manso et al. (1998) a esta fase corresponde 15 a 25% do TR total.

Os valores do TR estão diretamente ligados à maturação do SNC e diminuem com a idade. De acordo com Surwillo (1996) e Manso et al. (1998) os melhores valores de TR são conseguidos pelos indivíduos com idades compreendidas entre os 18 e 25 anos. Apesar de que os indivíduos com idades entre os 10 e os 13 anos já tenham valores semelhantes aos dos adultos. Na opinião de Carvalho (1998) os resultados práticos nos valores da TR devem-se fundamentalmente a uma cada vez melhor habilidade de controle atencional (leia-se concentração).

O TRs varia consoante a natureza do estímulo e do receptor específico que afetam (Matveev, 1986; Manso et al, 1998). Por exemplo, da revisão da literatura, constatamos que as respostas aos estímulos auditivos obtêm valores de TR que são mais baixos do que os estímulos visuais (Matveev, 1986; Pérez & Enciso, 1987; Manso et al, 1998). Estes dados são confirmados pelo estudo de Vasconcelos-Raposo, Freitas e Morais (1990), que compararam os tempos de reação obtidos como resposta a estímulos auditivos e visuais por estudantes praticantes de várias modalidades desportivas.

Sistema de processamento de informação

O sistema de processamento de informação contêm apenas um estímulo e uma resposta, mas há um largo número de operações mentais entre as duas. O mecanismo geral de processamento da informação (Bakker, 1990) (aparece na figura 1).

Na forma mais elementar, o sistema de processamento de informação envolve o armazenamento de informação na memória, reutilização desta e a execução do movimento em resposta à informação (Cox, 1990).

O modelo mais simples de tratamento de informação envolve um receptor, um efetor e um único neurônio entre eles e no qual as falhas entre os elementos são as sinapses. Se o R (receptor) estivesse diretamente ligado ao E (efetor), o sistema não teria flexibilidade, uma vez que E estaria sempre à mercê de R (Surwillo, 1986).

Assim, a intervenção de outros neurônios no ponto “x” (ver figura 2), permite que a resposta do efetor seja modulada, tanto pela variação do grau de excitabilidade do neurônio como pela introdução de outro neurônio nesse ponto “x”, como mostra a figura 3. O neurônio “b” (ver figura 3), é referenciado como o neurônio “gating”, isto porque permite que exista, em conjunto com o neurônio “a”, um meio externo de modelar a resposta do efetor sem alterar a sua sensibilidade (Surwillo, 1986).

Figura 1. Sistema de processamento de informação no organismo humano (adaptado de Bakker, 1990).

 

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Figura 2. Configuração simples dos elementos num modelo de comportamento simples. As áreas a sombreado representam as junções ou sinapses entre os elementos (adaptado de Surwillo, 1986).

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Sem o sistema de controlo dos neurônios “gating”, o “timing” da resposta do efetor em todos os sistemas seria determinado somente pela excitabilidade dos neurônios envolvidos e estaria sempre sob o controle dos diferentes e variados estímulos que bombardeiam o organismo.

Figura 3. Modelo de comportamento simples mostrado na figura 2 com a adição do neurónio b, o neurónio “gating” (adaptado de Surwillo, 1986).

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Pela hipótese colocada por Surwillo (1986), o processo atencional é em tudo igual, em termos fisiológicos ao sinal do neurônio “gating”. Daí tornar-se importante conhecermos o processo atencional.

Outro conceito em que alicerçamos a nossa proposta teórica para a potenciação do tempo de resposta é o de sistema “reverbatório” e que está intimamente associado ao processo de organização da informação a vários níveis da memória sem que para o efeito envolva um número excessivo de neurônios e consequentemente a velocidade de processamento das respostas solicitadas para as tarefas a serem realizadas seja maior. Este conceito foi apresentado pela primeira vez por Lorence de Nó em 1938. A discussão dos nossos dados é uma breve descrição de como traduzimos este conceito para a prática desportiva.

Concentração

Testemunhos como “mantem os teus olhos na bola”, “concentre-se”, “ouve com atenção”, “se mantem alerta”, “presta atenção”, são comumente ouvidos e usados pelos treinadores, espectadores e atletas. Isto implica que a percepção (atenção particular para a informação disponível no meio ambiente), seja importante para a performance atlética humana (Nideffer, 1986; Straub & Williams, 1984). Assim como a atenção é decisiva para o TRs, torna-se importante definirmos a atenção dentro do contexto desportivo.

A atenção pode ser vista como o elemento central da concentração, uma vez que é ela que permite a focalização da atividade mental; um foco é seletivo, filtrador e divisível (Summers & Ford, 1995). A atenção é o processo que dirige a nossa alerta para a informação que vai estando disponível para os nossos sentidos. É, portanto, o processo que leva os atletas a dirigir e manter as suas “consciências” nos estímulos percebidos (Viana & Cruz, 1996).

A atenção refere-se à concentração e focalização do esforço mental em determinadas fontes da informação, ignorando outras. No desporto a habilidade de focar a atenção na tarefa, nos aspectos determinantes e simultaneamente de filtrar a informação é crucial para uma ótima performance (Summers & Ford, 1995).

A atenção segundo Summers & Ford (1995) apresentam três (3) dimensões: a Direção: refere-se à fonte do estímulo a que se atende. A Intensidade: quanta atenção é prestada à direção escolhida. A Flexibilidade: alteração da direção e intensidade requerida.

A direção do foco atencional pode ter origem no exterior (olhar a bola, focar um alvo) ou no interior do indivíduo (refere-se a pensamentos, “imagery”, sensações cenestésicas, enfim sensações internas). No caso do nosso estudo, a execução prévia de um comando motor, tendo por base um elemento seletivo na condição de execução e a presença de um estímulo interno previamente definido. Uma vez programada a resposta, fazemos depender o início da mesma da identificação do sinal da partida, que neste caso é o correspondente ao neurônio de Gating. Para que haja uma plena potenciação do tempo de resposta devemos definir o ponto de foco externo, ou seja, o local onde o atleta deseja realizar o seu primeiro apoio após a saída dos blocos. Este último aspecto não foi contemplado para o propósito do presente estudo, uma vez que requer intervenção ao nível da biomecânica e preparação física ao que se refere à força máxima.

O modelo atencional de Nideffer (1986), sugere que a atenção do indivíduo poder ser descrita, em qualquer momento, segundo duas coordenadas contínuas: direção e amplitude (ver figura 4). São-nos apresentadas quatro (4) tipos de atenção, a ampla externa (que serve para avaliar rapidamente determinadas condições do meio), a ampla interna (analisa retrospectivamente uma situação e permite planejar uma estratégia de resposta), estreito interno (que serve para preparar os gestos a realizar), e estreita externa (para executar a estratégia escolhida).

Viana e Cruz (1996), apresentam alguns exemplos dos tipos de atenção requerida em alguns desportos ou modalidades desportivas, dentro dos quais salientamos a modalidade de velocidade no atletismo, onde o foco atencional deve ser primeiramente estreito interno e depois estreito externo. O estreito interno (preparar) refere-se à tensão muscular que se deve sentir antes de se ouvir o tiro da pistola, e depois a estreita externa (executar) que se refere ao tiro (Vasconcelos-Raposo, Freitas & Morais, 1990).

Figura 4. Dimensões da atenção (adaptado de Viana & Cruz, 1996).

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Daí que seja fundamental orientarmos os atletas no sentido de saberem direcionar o seu foco atencional, que passa em tudo pelo treino mental, pela visualização e pelo treino técnico associado à preparação psicológica para a competição.

Metodologia

Um trabalho deste tipo, quando realizado no contexto em que foi, requer que a sua divulgação seja feita com o maior dos escrúpulos, daí que nunca seja de mais, ao longo do mesmo, reforçar o seu caráter exploratório. De seguida procuramos informar o leitor sobre as várias componentes que possibilitaram, assim como as que limitam a nossa capacidade para generalizar os resultados obtidos. Os equipamentos utilizados não foram os mais adequados para a investigação pura. De qualquer forma ela alicerça-se numa das nossas intenções que é de desenvolver metodologias que sejam suficientemente simples e que possam ser aplicadas pelos treinadores e outros técnicos que não dispõem da tecnologia suficientemente sofisticada para realizar os trabalhos típicos da investigação acadêmica. De qualquer forma, quer no processamento quer no tratamento dos dados, assim como na divulgação dos resultados, procuramos fazê-lo com todas as reservas necessárias para o contexto acadêmico. Porém, estamos confiantes que os pressupostos teóricos em que nos fundamentamos são sólidos e como tal merecedores de uma maior atenção por parte dos investigadores, especialmente aqueles que estão interessados no contributo da psicologia e da psicofisiologia para o rendimento desportivo, razões pelas quais nos propomos divulgar os resultados.

Caracterização da Amostra

A amostra, do tipo intencional e de conveniência, foi constituída por alunos da Licenciatura em Educação Física e Desporto, que frequentavam a disciplina do terceiro (3º) ano em Psicologia do Desporto. Esta amostra foi selecionada por ser nesta disciplina que se aborda a temática subjacente a este trabalho e de existir a oportunidade de recolher os dados com uma maior disponibilidade por parte dos alunos para realizarem as tarefas desejáveis de uma forma consciente, ou colaborante. Para além deste aspecto há, ainda, a considerar que a disciplina de atletismo precede a de psicologia.

Se tomarmos por base que mais de 80% dos estudos publicados nas revistas de maior prestígio da Psicologia têm como amostra os alunos do primeiro e segundo ano de frequência universitária, poderíamos aceitar esta amostra como adequada. Porém, se a preocupação central for o contributo para a melhoria do rendimento desportivo, esta serve apenas o propósito de proporcionar valores que eventualmente se possam traduzir num alerta para uma eventual área de investigação, cujos resultados poderão revestir-se do maior interesse para a promoção da Psicologia como disciplina científica capaz de satisfazer os critérios pragmáticos que tendem a tipificar as posições dos treinadores relativamente à psicologia e ao treino mental.

Para definirmos a nossa amostra, utilizamos as seguintes variáveis: idade e sexo. Através da análise do quadro 1, verificamos que a amostra consistiu em quarenta e nove (49) indivíduos, dos quais trinta (30) são do sexo masculino e dezanove (19) do sexo feminino. As idades foram compreendidas entre os 19 e os trinta anos de idade.

Relativamente à altura dos sujeitos, constatamos que o aluno mais baixo tinha 160 cm e o mais alto de 193 cm. A composição corporal da amostra variou entre os 4.00% e os 26.8%, sendo a média de 14%.

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Instrumentos

Nesta parte do trabalho apresentamos os equipamentos e os métodos a que recorremos para quantificar o tempo de partida. Assim, utilizamos:

Foram utilizados dois blocos de partida de provas de velocidade do Atletismo, que se encontravam colocados em dois locais distintos. Um montado para alunos destros e o outro para alunos sinistros.

Foi solicitado aos sujeitos que deveriam selecionar a posição em que se sentissem mais adaptados e para manterem constantes as medidas entre os apoios, em cada uma das partidas.

Os blocos foram colocados numa posição perpendicular à pista e paralela à câmera filmadora. Esta disposição permitiu a filmagem dos dois apoios dos alunos aquando do momento da partida dos blocos, após a largada.

Foi utilizada uma Câmera filmadora SVHS – Panasonic MS4, tripé Miller e cassetes VHS, que nos permitiu captar um número adequado de “frames”, para posteriormente lhe sobrepormos um cronômetro. Esta foi manejada por um técnico profissional de imagem. A utilização de um tripé permitiu-nos manter a filmadora e consequentemente a imagem no enquadramento desejado, para posterior identificação dos marcadores de tempo.

Foram utilizadas duas fitas VHS, uma para o registo do pré-teste e a outra para o pós-teste. Nestas foram colocados cronômetros sobre as imagens para que na fase de análise das mesmas fosse possível aferir o tempo de resposta com o menor erro possível.

Televisor Grundig Supercolor e Vídeo JVC Professional Editing Recorder BR-8600E. O vídeo e o televisor foram utilizados para a visualização dos vídeos com as imagens do pré e pós-teste.

Programa Editing Control Unit Rm – 86 U. Utilizado para iniciar e imobilizar a imagem nos momentos desejados. O primeiro momento, início da contagem, foi considerado o primeiro indicador que permitisse identificar o início do registro magnético do som do apito. O segundo momento, término da contagem, foi considerado aquando da identificação no registro magnético do último contato do último apoio retirado do bloco.

Apito. Foi utilizado para dar as partidas dos blocos de Atletismo.

Body Fat Analyzer HBF – 301. Este instrumento foi utilizado para registrar os valores de massa corporal dos sujeitos.

Fita VHS da técnica de atletismo, “Sprint Tecnics – correndo com Carl Lewis” de L. Seagrave e T. Tellez é um documentário que contêm os aspectos relevantes da técnica de partida de blocos, bem como possui a orientação atencional ótima que se deve verificar quando se possui valores excelentes (os mais baixos possíveis fisiologicamente) do tempo de resposta.

Procedimentos

Na recolha inicial dos dados (pré-teste), efetuamos a seguinte sequência de acontecimentos:

   Os alunos efetuaram um aquecimento de dez minutos, sem orientação. Após este período de aquecimento foram orientados no sentido de, enquanto esperavam pela sua vez, se mantivessem em silêncio. Foi solicitado que desempenhassem as tarefas com o maior empenho que lhes fosse possível. Assim, os alunos foram chamados e, em primeiro lugar, tinham de realizar um teste para aferir os tempos de reação em função de um estímulo auditivo e outro visual, apresentados de forma aleatória. Este primeiro momento de recolha de dados teve por objetivo disciplinar a sequência da realização da tarefa que foi efetivamente o objetivo do estudo. Foi também transmitido que os alunos deveriam mencionar o seu número de chamada, antes de começarem a primeira partida, isto para evitar posteriores confusões, uma vez que as imagens foram recolhidas no formato de grande plano de forma a minimizar os posteriores erros de leitura relativamente ao momento de último contato com o bloco.

Posteriormente o sujeito dirigia-se ao local onde estavam colocados os blocos de partida e à voz de chamada ajustava os blocos e efetuava, com pausas não controladas, três partidas. O mesmo indivíduo realizou a sua série de partidas sem interrupções e ao ritmo que lhe foi mais conveniente. Após a finalização de cada série, e de forma a não permitir confusões relativamente a quem estava no bloco de partida, sempre que o sujeito acabava a sua série das partidas foi colocada uma faixa preta (para distinção na sequência dos sujeitos).

De seguida o indivíduo dirigia-se a um dos pesquisadores e respondia a um questionário, e de seguida repetia o procedimento das partidas, mas desta vez efetuando apenas duas. A pergunta mais relevante concentrava-se no seu foco atencional, ou seja: em que te concentraste no momento da partida?

A segunda parte do nosso trabalho consistiu na orientação e treino do foco atencional dos sujeitos para a tensão muscular dos músculos da coxa e glúteos. Este programa de treino foi, a variável independente deste estudo, que seguiu o desenho do pré-teste – pós-teste.

O programa de treino das partidas consistiu na visualização do vídeo (“Sprint Tecnics – correndo com Carl Lewis”) que continha no seu interior a técnica correta de partida, e os aspectos determinantes em que os atletas deveriam estar concentrados/focados, relativamente aos aspectos técnicos, mas no que se referia o componente cognitivo dos processos atencionais nenhuma informação foi contemplada. Daí a necessidade de adicionarmos a visualização dos aspectos técnicos uma intervenção com o objetivo de familiarizar os participantes com as sensações inerentes ao processo de foco atencional interno.

O vídeo foi mostrado com pausas para reforçar os aspectos determinantes da técnica de partida de blocos e da direção do foco atencional. Após a visualização do vídeo e do treino para o reconhecimento das sensações relativas ao foco atencional interno, foi pedido aos participantes que fechassem os olhos e que se concentrassem na sensação muscular que deviam sentir aquando da partida dos blocos (e que já tinham vivificado durante o treino). Este treino teve a duração de duas sessões de uma hora e meia cada e separadas uma da outra por um período de 7 dias.

Na terceira fase, foram recordados e reforçados os aspectos fulcrais visionados na aula anterior (qual a direção do foco atencional que deveriam ter, assim como o ponto de foco desejado e identificado na tensão muscular identificada pelo estado de prontidão da resposta ao sinal de partida).

Nesta parte, repetiu-se o procedimento efetuado no período do pré-teste, com a alteração de que os alunos não responderam a qualquer questionário.

Análise estatística

O presente trabalho recorreu à análise descritiva, para a mera comparação das médias, e recorremos ao t-Teste emparelhado. No entanto, num trabalho como este que tem por objetivo realçar o contributo da psicologia do desporto, tal como este pode ser quantificado cronometricamente, julgamos ser mais relevante à apresentação dos ganhos obtidos através do controle atencional em cada uma das tentativas.

Tendo por base os valores e princípios que orientam a aplicação do paradigma pragmatismo recorreu-se ao método de triangulação de dados (Tashakkori & Teddie, 1998).

Isto é, calculamos as médias de cada uma das tentativas (cinco). Depois calculamos a diferença aritmética entre a 1ª tentativa do pré-teste e a 1ª do pós-teste e assim sucessivamente para as cinco realizadas. Para a aplicação do T-teste emparelhado utilizamos as médias obtidas no pré-teste e as do pós-teste.

A variável independente, que suporta a realização do nosso estudo, é o foco atencional dirigido para a tensão muscular na partida de blocos em Atletismo.

Assim foi colocada a seguinte hipótese nula:

Não há influência do foco atencional, dirigido para a tensão muscular, nos valores do tempo de resposta na partida de blocos em Atletismo.

 

Apresentação dos resultados

A apresentação dos resultados tem como preocupação central tornar a leitura e consequente interpretação dos valores o mais fácil possível, uma vez que a nossa população alvo não foi prioritariamente a acadêmica, mas sim os treinadores, que como sabemos na sua maioria não tem formação para interpretar os outputs estatísticos. Assim, recorremos à descrição dos resultados em texto, seguidos de quadros elucidativos.

No que se refere aos dados da amostra, aferimos que todos os alunos praticavam, ou tinham praticado sistematicamente, qualquer desporto durante um ano ou mais anos, sendo a média de anos de prática de sete (7).

Na variável – tipo de desporto praticado (individual ou coletivo), como se pode ver no quadro 3, o número de alunos praticantes de desportos coletivos é superior (57.14%) ao número de alunos praticantes de desportos individuais (42.85%).

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Como podemos analisar no quadro 4, o desporto coletivo predominante foi o futebol com 29% do número total da amostra. Por outro lado, o desporto individual predominante na amostra foi o Atletismo com 14% dos sujeitos estudados (ver no quadro 3).

Em relação à experiência nos blocos de partida dos inquiridos, trinta e seis (36) dos inquiridos afirmaram não ter experiência suficiente nos blocos de partida de Atletismo e treze (13) afirmaram possuir essa familiarização.

Tomamos em conta a nota de disciplina de Atletismo do primeiro ano do currículo da Licenciatura em Educação Física e Desporto da UTAD, enquanto um indicador secundário da experiência ou não da partida de blocos. Foi-nos proporcionado informação de que as notas variavam entre 17 (dezessete) e 11 (onze) valores, sendo a média da turma de 13 (treze) valores.

Como podemos ver no quadro 5, os valores médios do tempo de resposta, do pré-teste (foco atencional direcionado para o apito) para o pós-teste (foco atencional dirigido para a tensão muscular) sofreram uma diminuição mais ou menos acentuada em todas as tentativas e uma consequentemente diminuição nos valores da média global. Verificando-se uma diferença de 2.24 na média das cinco tentativas do pré-teste para o pós-teste.

Quando calculamos o t-Teste emparelhado, com base nas médias das cinco tentativas do pré-teste e do pós-teste, verificamos existirem diferenças significativas entre os dois momentos (t = 3.224, Sig. = 0.032).

Quando tentamos verificar a existência de diferenças significativas entre as restantes variáveis e o tempo de resposta, não foram encontradas quaisquer diferenças.

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Discussão e conclusões

Nas modalidades de velocidade, ou naquelas em que a velocidade é determinante, como o são as disciplinas de velocidade pura, é fundamental conhecer todos os fatores intervenientes e determinantes para a consecução dos resultados máximos.

Temos então que o tempo de resposta é uma fração da velocidade extremamente difícil de treinar, isto porque todos os mecanismos que o constituem e limitam são internos (neuronais), determinados geneticamente.

Como foi visto a maior parte dos autores que falam sobre a velocidade de reação dizem que o fator mais preponderante no progresso desta, para se atingir a excelência, é a melhora da capacidade de concentração (Carvalho, 1988; Manso et al., 1998). Atendendo a que o tempo de reação, por si só, tem um valor relativo para o resultado da competição, achamos ser mais apropriado falar de tempo de resposta, em que a integração do ponto de foco atencional é um elemento crucial para a própria conceitualização e definição do conceito de tempo de resposta.

Com base nesta proposta, para se melhorar o tempo de resposta, é e da maior importância uma correta orientação do foco atencional dos atletas. Este tipo de orientação atencional deverá ser definida para cada momento da prova. É com base nesta definição prévia do que é essencial e secundário para a prestação que os treinadores e atletas, em conjunto, devem elaborar ou construir os planos de prova.

Os nossos resultados sugerem que a proposta de que o ponto de foco interno, materializado através do comando de execução dos movimentos inerentes à partida e cujo ponto de foco atencional (concentração) é a tensão muscular. Extrapolando, com base no conceito de “neurônio gating” (Surwillo, 1986), definimos o sinal de partida como a condição última e única para executar os comandos de partida já em memória de curta duração.

Os atletas têm conhecimento que o que vai fazer com que iniciem a prova é o disparo da pistola, só que para darem início aos seus movimentos é necessário terem a excitação muscular ótima, ou seja, têm que passar pelas cinco (5) fases propostas por Zaziorski em Manso et al. (1998) e Carvalho (1988), que ao decorrerem levam certo tempo (tempo de reação). Ao conseguir que os atletas estejam focados na tensão muscular existente nos seus glúteos, fazemos com que o mecanismo de processamento de informação seja encurtado. Isto porque ao soar o disparo todos os comandos para dar início ao movimento já estavam efetuados, agora apenas foi fechado o circuito de resposta.

Uma dos componentes psicológicas que reconhecidamente mais contribui para as boas prestações competitivas é a capacidade de concentração dos atletas. No entanto, para que assim seja é da maior importância que sempre que se solicite ao atleta que este se concentre que saiba a que nos estamos a referir e mais concretamente para que aspecto específico deva direcionar a sua atenção seletiva.

Ao longo da nossa experiência profissional, poucos treinadores e atletas sabiam explicar o que entendiam por concentração. Para muitos é algo como “saber o que fazer ao longo da prova”, “não pensar noutras coisas e ter pensamentos positivos para o que vai fazer”, “estar concentrado é não nos preocuparmos com os outros”, etc. Este tipo de definição, se bem que possa servir algum propósito, de forma alguma se aproxima do que os psicólogos do desporto procuram desenvolver quando solicitam aos treinadores e atletas que em conjunto construam um plano de prova, no qual sejam devidamente identificados momentos críticos e para os quais os atletas devem estar previamente preparados. Há mesmo alguns autores que sugerem que os atletas deverão, antecipadamente, dar as ordens de comando, para que quando a situação critica emerge a sua capacidade de resposta ser a mais rápida e eficaz possível.

Em 1989 William Morgan escrevia “The test of any model needless to say, is simply, does it work? Outro aspecto a que este autor faz referência é o fato de a vasta maioria da investigação nesta área ser de carácter teórico, e quando recorre a alguma teoria diga-se através da importação destas de outros contextos não específicos ao rendimento desportivo.

Com o presente trabalho, apesar das limitações impostas pelo equipamento utilizado, procuramos evitar dois aspectos: 1) nada é tão mau como uma má teoria; 2) a prática da ciência pela ciência é “cientismo” e não ciência.

Os resultados obtidos evidenciaram existir diferenças estatisticamente significativas entre o pré-teste e o pós-teste, ou seja, que o treino do foco atencional interno parece ser mais eficaz que o foco atencional externo, tal como expresso num ganho de 2.24ms no tempo de resposta na partida em atletismo.

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Fig.1. Representação gráfica de um sistema reverbatório e de velocidade de resposta ao estimulo, tal como introduzido pela presença do “neurônio gating”. (Surwillo, 1986).

Relativamente ao segundo aspecto, evitamos recorrer às teorias da atenção desenvolvidas no contexto da psicologia geral. Elaboramos uma proposta teórica com base em conceitos psicofisiológicos, nomeadamente o do sistema reverbatório, de “neurônio Gating” (ver figura 1), tempo de reação e tempo de movimento. A razão porque recorremos a estes conceitos prende-se com o nosso propósito de ultrapassar as limitações conceituais que prevalecem no mentalismo vigente na psicologia do desporto. Terry Orlick, é um dos psicólogos que descreve de forma mais detalhada o contributo e os processos que contribuem para as vantagens da preparação mental. No entanto, a sua perspectiva é, em nossa opinião, de caráter eminentemente mentalista. Por exemplo, relativamente aos planos mentais para a competição escreve: “…a crucial point is your focus of attention just before the start of the event. It should flow naturally out of a positive psychological warm-up. A specific psych plan is also helpful. This will generally consist of a brief reminder of your activation level, if necessary, and a focus plan of the first moves you will do, seconds before the start (Orlick, 1986:21).

Esta é uma prescrição que nos parece muito geral e que tem por base o princípio de que a realização mental das tarefas é por si só suficiente como contributo para a melhoria do rendimento. Em nossa opinião é insuficiente, na medida em que excluem os processos fisiológicos, nomeadamente aqueles em que se alicerçam as tarefas a serem realizadas.

A nossa proposta vai no sentido de se construir um plano de prova que consista da sequenciação dos comandos de execução a serem dados em todos os momentos da competição. Esses comandos prévios visam o desenvolvimento de um maior controle sobre os requisitos das múltiplas tarefas que integram o evento competitivo, como por exemplo a prova de 100m. A cada componente da prova deverá existir um referencial físico de forma potenciar os benefícios que o controle motor provoca a níveis de concentração, uma vez que permite uma maior seletividade, consequentemente eliminando o eventual impacto de variáveis externas ou até mesmo secundárias às tarefas a serem realizadas.

No caso do tempo de partida, o controle atencional deverá constituir-se pelo comando prévio da execução motora ficando em suspenso o sinal para o início da ação (Gating). Desta forma ganha-se o tempo que separa a ocorrência do sinal de partida (aparelho auditivo), o reconhecimento deste (no cérebro) e o comando para iniciar a ação. Assim a concentração na partida deverá consistir no comando prévio da ação motora imediatamente após o reconhecimento do sinal de partida. Porque desejamos que este comando não seja apenas uma ideia mental, treinamos os atletas a identificarem e a concentrarem-se na tensão muscular que imediatamente antecede o impulso dos blocos. Nos estudos que realizamos até este momento constatamos melhorias no tempo de resposta.

Presentemente temos em curso outro estudo que tem por objetivo medir o impacto cronométrico desta forma de concentração nos tempos parciais, medidos por células fotoelétricas aos 5, 10 e 15 metros. Somos ainda de opinião que os estudos a serem realizados nesta área, para que possam ser reivindicados como um contributo para a melhoria dos tempos de prova deverá ter presente que a melhoria num componente da prova poderá não representar um contributo real, na medida em que poderá interferir com a realização de outras tarefas a serem executadas ao longo da competição.

Em suma, julgamos que esta é uma linha de investigação merecedora de uma maior atenção e que, à priori, aparentemente se apresenta prometedora para a demonstração, via cronômetro, dos contributos que o treino mental pode dar para a melhoria do rendimento desportivo.

Em suma, julgamos que os treinadores podem e devem ter em conta estes dados, uma vez que apesar de o valor ser extremamente reduzido, ele ocorre num componente da prova que é fulcral no tempo total de prova, visto ser esta uma das fases mais importantes da corrida. Estamos ainda convictos que o treino do foco atencional, realizado com base na proposta que apresentamos faz sentir, também, na redução das falsas partidas.

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Alto nível de rendimento: a problemática do desempenho esportivo

ALTO NÍVEL DE RENDIMENTO: A PROBLEMÁTICA DO DESEMPENHO ESPORTIVO

Andrigo Zaar1

Victor Machado Reis2

1Group of Life Sciences Research. Department of Physical Education at the University of the West of Santa Catarina. Chapecó, Brazil.

2Research Center for Sport Sciences, Health and Human Development. University of Trás-os-Montes and Alto Douro (UTAD), Portugal.

Introdução

Desde 1979, data dos primeiros grandes êxitos de Agberto Guimarães, até 2004, com a medalha conquistada por Vanderlei Cordeiro de Lima nos Jogos Olímpicos de Atenas na Grécia, os corredores brasileiros não obtêm sucesso internacional.

Esta lacuna tem atraído vários investigadores desejosos de vislumbrar e perscrutar, em diferentes vertentes, as possíveis respostas e justificações para tal fenômeno. Assim, a investigação nesta área do conhecimento (desempenho no Atletismo) tem sido enfatizada preferencialmente sobre as provas de velocidade, meio-fundo e fundo (VMFF) de alta competição e/ou elite, na tentativa de lhe transmitir mais estabilidade e segurança.

Podemos citar como exemplos, estudos publicados no âmbito da metodologia do treino (Borin e Gonçalves, 2004; Cafruni et al. 2006); sobre bioenergética da corrida (Caputo et al. 2009); no âmbito da caracterização fisiológica, antropométrica e motora (Hegg et al. 1982; Guedes e Guedes, 1997; Tartaruga et al. 2009; Kruel et al. 2007); na vertente sócio-antropológica (Miranda, 2006); e sobre o controle do treino (Colaço, 1999) .

Todavia, apesar de concordarmos ser necessário dar mais solidez aos fenômenos exteriormente mais relevantes, ao Atletismo de alta competição, é também coerente e oportuno pensar, que as razões para esta estagnação nas provas VMFF radica, não só no estágio de plena realização das aptidões desportivas, mas também na profundidade, ou seja, em tudo aquilo que se localiza a montante do êxito, nomeadamente no trajeto ou percurso que decorre até que este seja efetivamente alcançado.

Aludindo a este fato Neves (1995), indica que, a crescente importância atribuída ao sucesso desportivo bem como o prestígio rapidamente conseguido no processo desportivo, tem contribuído para que um vasto número de crianças e jovens submetam-se por vezes, a programas de treino de elevada intensidade e duração, nem sempre compatíveis e ajustados às suas necessidades.

Face ao panorama aqui desenhado e às muitas questões e problemas levantados e que carecem de resposta, constitui-se como propósito do nosso estudo verificar a associação entre o perfil antropométrico, características demográficas e do treinamento dos atletas da seleção brasileira juvenil, participantes de Campeonatos Pan-Americanos e Mundiais de Atletismo.

 

Métodos

Amostra foi compreendida pelos campeões brasileiros juvenis 2013. Foram avaliados 7 atletas do sexo masculino e 6 do sexo feminino, integrantes da seleção brasileira de Atletismo especialistas nas provas de velocidade, meio-fundo e fundo, participantes de Campeonatos Pan-americanos e Mundiais de Atletismo.

A pesquisa desenvolveu-se em duas etapas, sendo a primeira relativa a uma revisão de literatura e a segunda referente a uma pesquisa exploratória ex post facto, do tipo descritiva.

Coleta de dados

Após contatar os atletas e apresentar formalmente os objetivos desta pesquisa, os mesmos assinaram o consentimento informado (livre e esclarecido). Os atletas responderam o questionário sócio demográfico e vinte e quatro horas após a prova procedeu-se a coleta das medidas antropométricas. Para avaliação da massa corporal utilizou-se balança digital portátil, Filizola (Brasil), com variação de 0,1 kg e capacidade de até 150 kg (Gordon et al. 1988). A composição corporal determinada pela técnica de espessura do tecido celular subcutâneo foi realizada com um adipômetro científico da marca Cescorf, com pressão constante de 10 g/mm² na superfície de contato e precisão de 0,1 mm. Foram consideradas as dobras cutâneas tricipital, abdominal, subescapular, suprailíaca e femoral (Harrison et al. 1988). O coeficiente teste-reteste para cada um dos pontos anatômicos com erro de medida de, no máximo ± 1,0 mm. A gordura corporal relativa (percentual de gordura) foi calculada pela fórmula de Siri, a partir da estimativa da densidade corporal (Guedes e Guedes, 1997). Os dados foram analisados através de técnicas de estatística descritiva, e seus resultados apresentados em tabelas com médias ± desvio padrão.

Resultados

Na tabela 1, são apresentadas informações referente a caracterização da amostra. Na tabela 2, são apresentadas as características demográficas dos atletas da seleção brasileira de Atletismo juvenil especialistas nas provas de VMFF.

Tabela 1. Perfil antropométrico dos atletas da seleção brasileira de Atletismo juvenil especialistas nas provas de velocidade, meio-fundo e fundo

Capturar

Tabela 2. Características demográficas dos atletas da seleção brasileira de Atletismo juvenil especialistas nas provas de velocidade, meio-fundo e fundo

Capturar2

No Quadro 3, confrontam-se as características demográficas e do treino em função da especialidade.

Tabela 3. Características do treino dos atletas da seleção brasileira de Atletismo juvenil especialistas nas provas de velocidade, meio-fundo e fundo

Capturar

Discussão

O objetivo deste estudo foi analisar o perfil antropométrico, características demográficas e do treino da seleção brasileira juvenil de Atletismo. O que nos levou a este estudo foi a busca de subsídios para uma resposta à seguinte questão: porque as provas de VMMF brasileiro conseguiram durante as duas últimas décadas do Século XX manter um elevado nível de resultados desportivos que agora parecem difíceis de atingir?

Os resultados do presente estudo indicam que os velocistas e meio-fundistas juvenis estão com níveis de gordura adequado para a especialidade. Porém, os corredores de fundo possuem valores que situam-se no limite superior do referido na literatura, 9% no Masculino e 13,1% no Feminino, quando o ideal é 5% no Masculino e 8% no Feminino (Pollock e Wilmore, 1993).

No que tange as características do treino dos atletas, nota-se que os velocistas e os meio-fundistas iniciaram o treino especializado aos 11 anos de idade. Estes resultados representam um desajuste temporal entre o período ótimo de maturação física e técnica dos corredores brasileiros e as exigências que os mesmos enfrentam no seu treino e competição. De realçar que este fenômeno (possível desajuste na estruturação da carreira) é algo comum nos melhores atletas jovens da América e do Mundo, nas categorias jovens, nas quais se observa incapacidade de confirmar bons resultados enquanto atletas adultos. Este fato poderá ser evitado se o planejamento da metodologia do treino for dividido em etapas, afastando a hipótese de especialização precoce, e contribuindo para o alcance da máxima performance no futuro (Borin e Gonçalves, 2004; Coquart e Bosquet, 2010).

Informações obtidas referente a carreira de atleta, dentre os campeões brasileiros de VMFF juvenis, 30% pensam em outra profissão e 53% não estão convictos em prosseguir a carreira de atleta profissional. Importa aqui destacar a relevância que alguns fatores, como princípios do treinamento, sua estruturação a longo prazo e as etapas de preparação, especialização e aperfeiçoamento, exercem na periodização do treinamento do jovem praticante que objetiva alcançar o alto nível. Neste sentido, a preparação deve ser organizada na base dos pressupostos gerais do ensino, em que o treinamento torna-se uma das formas de educação (Rolim et al. 2003). Assim, a atuação com crianças e adolescentes não deve ser orientada com intenção de rendimento nas primeiras etapas do processo, bem como, a necessidade de se respeitar o princípio da individualidade, a fim de que o atleta possa construir e conduzir-se de acordo com as suas particularidades etárias, suas capacidades e seu nível de preparação (Borin e Gonçalves, 2004).

As provas de VMFF podem ser entendidas como uma atividade que exige dos praticantes uma grande probidade de resistir ao estresse físico e emocional, que implica em capacidade de luta, tenacidade e, por vezes, sofrimento (Rolim et al. 2003).

Mesmo considerando tais condições, que podem variar entre o prazer da auto superação e o desgaste gerado pelo estresse físico e mental, as provas de VMFF são reconhecidamente um fenômeno cuja prática tem se multiplicado rapidamente, atraindo participantes de todas as idades e em todas as camadas sociais do mundo inteiro, tornando sua prática regular para um importante número de jovens e adultos (Rolim et al. 2003). Esta generalizada proliferação da prática desportiva, fez com que o desporto adquirisse grande relevância social.

Apesar de não se conhecer com suficiente profundidade a situação do Atletismo jovem no Brasil, a informação decorrente de estudos exploratórios e tendo por base o nosso conhecimento fatual da realidade, permite-nos ter uma noção suficientemente balizada da dimensão dos problemas. Parte deles também salientados por autores noutros países como Austrália (Arens, 1986), Portugal (Rolim et al. 2003), e Espanha (Grosser et al. 1989), que congregam em nós uma constante preocupação, destacando-se: (i) Atribuição de prêmios em dinheiro aos escalões jovens (infantis a juniores) nas provas de estrada; (ii) Incentivar financeiramente jovens “talentos”, desde a categoria infantil e iniciado, para treinarem; (iii) Transformar os jovens com aparente “talento” em autênticas vedetes; (iv) Começar desde muito cedo a viver um Atletismo demasiado adulto, no plano dos objetivos, dos conteúdos e das práticas; (v) Treinar e competir conjuntamente com os atletas adultos; (vi) Abandonar a escola, o emprego, para se lançar numa dedicação integral ao Atletismo; (vii) Adoção de metodologias de treino desajustadas e à imagem do adulto (especialização precoce, treino intensivo precoce); (viii) Ausência de uma moralização das distâncias das provas de estrada, associada a uma exagerada e frequente participação em competições;  (ix) Aparecimento de muitos jovens com “talento”, mas que jamais o confirmam como adultos; (x) Efêmero sucesso vivido pela quase totalidade dos atuais jovens atletas de VMFF que participam em campeonatos do Mundo ou da América de juvenis, muitas vezes resultado de uma lapidação prematura dos “diamantes” ou o querer colher as maçãs antes da sua plena maturação (Marques, 2004); (xi) Ignorar de uma diferente estrutura de rendimento das disciplinas de VMFF e da importância assumida pela categoria Sub 23 anos, particularmente nos homens; (xii) Na combinação de alguns destes fatores que, não raras vezes, determinam o abandono da prática desportiva.

No conjunto de estudos produzidos sobre treino desportivo é dada menor atenção ao desporto dos jovens que ao desporto dos adultos, apesar de algumas evidências reclamarem e exigirem outras atitudes (Neves, 1995; Rolim et al. 2003; Neves, 2005).

Associados aos motivos expostos, pela sua generalizada importância, também ocasionam maiores e sobretudo mais profundos investimentos no estudo do treino desportivo de crianças e jovens: (i) A pouca consistência do quadro conceitual do treino dos mais jovens, dado que a compreensão nesta área do conhecimento está muito dispersa e difusa; (ii) O reduzido número de atletas jovens que chegam ao alto rendimento, apesar de manifestarem performances de qualidade em idades jovens (Harre, 1982; Grosser et al. 1989; Martin et al. 2001); (iii) A importância que a prática desportiva adquire nos mais jovens, nomeadamente, pelo seu contributo para a saúde (Bar-Or, 1993; Treiber et al. 1989), melhoria da condição física (Pate et al. 1990; Wells, 1986; Zauner et al. 1989), promoção de valores educativos sólidos (Vargas, 1995).

O treino dos mais jovens constitui um novo ramo do treino desportivo, necessariamente distinto do treino do adulto. Os objetivos, os conteúdos, os procedimentos, as preocupações são específicas e diferentes das do desporto dos adultos, havendo necessidade de se enquadrar problemas e particularidades que, muitas das vezes vão além do próprio desporto (Kirsch, 1986).

Para além das fortes motivações pessoais e das razões conferidas, outras há pela sua importância, nomeadamente: (i) A elevada população de jovens que praticam VMFF em comparação com as outras disciplinas do Atletismo; (ii) A generalizada falta de formação específica dos treinadores de Atletismo; (iii) A crescente importância dada pelas instituições e treinadores as etapas iniciais da Preparação Desportiva a Longo Prazo dos atletas jovens (Marques, 2004); (iv) O efetivo desconhecimento de como se processa no Brasil as etapas iniciais da preparação; (v) O elevado número de abandonos da prática do Atletismo de VMFF, por parte de atletas jovens considerados como promissores (Rolim et al. 2003); (vi) O injustificado desajustamento do quadro competitivo do Atletismo jovem (Andrade, 1996); (vii) Os testemunhos de diferentes intervenientes na prática de crianças e jovens e, enfim, a pertinência e relevância do assunto.

Apesar da evolução da metodologia do treino desportivo estar consolidada, o desporto nos jovens parece, ao que tudo indica, enquadrar-se e a reger-se segundo as práticas do desporto dos adultos, às vezes, com a introdução de ligeiras alterações e adaptações de alcance pedagógico muito duvidoso, como, por exemplo as alterações e adaptações para os jovens das regras do Atletismo adulto, destacando-se: (i) Extenso ciclo anual de treino; (ii) Especialização num único desporto e, no caso do Atletismo, num único tipo de prova; (iii) Acentuada especificidade do treino; (iv) Aumento do número de horas de treino por ano; (v) Utilização compulsiva e exagerada de cargas de treino desajustadas; (vi) Participação competitiva especializada.

Além do exagerado valor que o modelo desportivo do adulto tem desde sempre assumido na prática desportiva dos mais jovens (Berryman, 1988), apresenta-nos outras evidências frequentemente encontradas e descritas como a intensificada orientação e supervisão por parte do adulto, nomeadamente exigências de rendimento colocadas por pais, treinadores, dirigentes e adeptos, a ampla cobertura pelos órgãos de comunicação social e a proliferação de competições com exigências elevadas.

Acrescentando a tudo isto, no Atletismo existe a convicção de uma desmedida e sobretudo, inconsequente formação desportiva dos jovens com aparente “talento” para as disciplinas de VMFF, frequentemente salientada através de opiniões de vários intervenientes, como, treinadores, dirigentes, jornalistas, organizadores de provas, médicos, atletas e ex-atletas de alta competição, opiniões estas que, no essencial, se agregam em torno das questões já salientadas.

Neste contexto, os nossos resultados sugerem que existe um desajuste relacionado a solicitação do treino dos integrantes da seleção brasileira juvenil de Atletismo, fato que reflete sobre a perspectiva futura quanto a carreira de atleta profissional.

Conclusão

Em síntese, os atletas da seleção brasileira de Atletismo especialista nas provas de fundo, participantes de Campeonatos Pan-americanos e Mundiais de Atletismo Junior estão com níveis de gordura inadequados para a especialidade. No que tange as características do treino, nota-se que os velocistas e os meio-fundistas iniciaram o treino especializado demasiadamente sedo, em média aos 11 anos de idade. Referente as informações coletadas quanto a carreira de atleta, cerca de 30% pensam em outra profissão e 53% não estão convictos em prosseguir a carreira de atleta profissional. Estes resultados representam um desajuste temporal entre o período ótimo de maturação física e técnica dos corredores brasileiros e as exigências que os mesmos enfrentam no seu treino e competição. Futuras pesquisas sobre a influência do treino e maturação física na evolução da performance com a idade, deverão ter em consideração outras variáveis, como o desempenho destes atletas na categoria adulta.

 

Referências

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Sprinters: amplitude e frequência da passada

Victor Machado Reis

Centre for Research in Sport, Health and Human Development at the University of Trás-os-Montes and Alto Douro (UTAD), Portugal.

Andrigo Zaar

Department of Sport Science, Exercise and Health University of Trás-os-Montes and Alto Douro (UTAD). Portugal. IDEAU, Brazil.

André Luiz Carneiro

Colleges United North Mine (FUNORTE), Montes Claros – MG, Brazil.

Resumo – A influência da velocidade no rendimento da corrida depende principalmente da amplitude e frequência da passada. O objetivo é investigar as diferenças na amplitude e frequência da passada em velocistas de elite e atletas de nível regional. Foram observados os registros em vídeo e determinadas a velocidade média de corrida, a amplitude média da passada, e a frequência média da passada de atletas de elite e atletas de nível regional. A velocidade, a amplitude e a frequência média dos atletas masculinos de elite foram: 9.92 0.14, 2.17 0.06, 4.57 0.11. De nível regional foram: 8.63 0.52, 2.02 0.08, 4.27 0.13. No feminino de elite os resultados encontrados foram: 9.09 0.08, 2.06 0.05, 4.40 0.07. De nível regional foram: 7.83 0.26, 1.76 0.04, 4.45 0.12. As diferenças na prestação entre atletas masculinos de elite e de nível regional parecem resultar da diferença na amplitude e frequência média da passada. No feminino, as diferenças refletem predominantemente diferenças na amplitude de passada.

Palavras-Chave: desempenho atlético; corrida de velocidade; amplitude; frequência

Abstract – The variation of speed on the performance of the race depends mainly on the length and frequency of the stride. The aim was to investigate the differences in stride length and frequency between elite and regional level sprinters athletes. The records were observed on video and it was determined the average speed of the race, the average stride length, and the average stride frequency in both elite athletes and athletes of regional level. Speed, stride length and average frequency of male elite athletes were 9.92±0.14 m/s, 2.17±0.06 m, 4.57±00.11 strides/s. At the regional level they were 8.63±0.52 m/s, 2.02±0.08 m, 4.27±12.13 strides/s. In the elite women’s results were: 9.09±0.08 m/s, 2.06±0.05 m, 4.40±00.07 strides/s. Regional level were 7.83±1.26 m/s, 1.76±0.04 m, 4.45±00.12 strides/s. The differences in performance between male elite athletes and regional level seem to result from the difference in stride length and frequency while in females, the differences mainly reflect differences in stride length.

Keywords: athletic performance; Sprint; stride length; frequency

Introdução

A influência da velocidade no rendimento depende principalmente da amplitude e frequência de passada características da prova, logo, da velocidade de deslocamento. Isto porque a velocidade de deslocamento depende daqueles dois parâmetros e estes, por sua vez, dependem da Força, Técnica e Velocidade. A amplitude da passada não depende apenas da Força e da Técnica. Dependem, também, do comprimento dos membros inferiores do atleta e da flexibilidade específica. No entanto, na perspectiva do desenvolvimento das Capacidades Motoras, parece lógico que aquele parâmetro estará mais relacionado com a Força do que com os outros.

Relativamente à frequência também parece linear que a Velocidade como Capacidade Motora é a que mais a influencia. Aqui importa distinguir dois conceitos: o de Velocidade como Capacidade Motora e o de Velocidade de Deslocamento. A frequência de passada depende da Velocidade (Capacidade Motora), já que a Velocidade de Deslocamento, pelo contrário, depende da primeira (Frequência). Quando falamos acerca do treino de velocidade referimo-nos à velocidade enquanto Capacidade Motora. Como neste setor do Atletismo o gesto específico da competição é a corrida, esta pode ser representada pela Velocidade de Deslocamento ou de Corrida. Feita esta distinção utilizaremos, de seguida, apenas o termo Velocidade. Por tudo isto, é lógico que a importância destas duas Capacidades Motoras, nas provas de Velocidade, é tanto maior quanto mais elevada a Velocidade Média de Deslocamento. Assim, é o propósito deste estudo é investigar as diferenças na amplitude e frequência da passada em velocistas de elite e atletas de nível regional.

Metodologia

Amostra

A amostra foi constituída por 25 atletas de elite do sexo masculino, 16 atletas de elite do sexo feminino, 13 atletas de nível regional do sexo masculino e 11 atletas de nível regional do sexo feminino.

Procedimentos

Foram observados os registros em vídeo de várias provas com atletas de elite (grupo elite): finais de 100m e 200m dos Jogos Olímpicos de Atlanta, provas de 100m masculinos dos Meetings de Oslo e Londres, provas de 100m femininos dos Meetings de Oslo e Bruxelas e prova de 200m masculino do Meeting de Vittel. Foram também observados os registros em vídeo das provas finais de 100m e 200m dos Campeonatos Regionais da Madeira (grupo regional). Através destas observações foi determinada a velocidade média de corrida, a amplitude média de passada e a frequência média de passada. As variáveis foram determinadas com base na cronometragem oficial das referidas provas e na contagem do número de apoios pela visualização dos vídeos. A metodologia usada nesta contagem só coloca problemas na observação do último apoio. Isto porque raras vezes se verifica uma coincidência do último apoio com a linha de chegada. O observador foi instruído a considerar frações de ½ ou ¼ da última passada. Mesmo considerando uma margem de erro de ½ passada na observação, a margem de erro total na contagem dos apoios seria 1% nos 100m e 0.5% nos 200m.

Estatística

Os dados foram analisados com o software SPSS 10.0 (SPSS Science, Chicago, USA). A análise exploratória dos dados incluiu medidas descritivas e identificação de out-liers. As diferenças entre grupos foram testadas pelo t-teste de medidas independentes. Os resultados são apresentados como médias desvios padrão.

Resultados

No quadro 1 são apresentados os resultados observados nas variáveis medidas.

Sem título

Como era de esperar, a velocidade média de corrida foi significativamente superior no grupo de elite, independentemente da prova ou do sexo. O mesmo se verificou para a amplitude média de passada. No que respeita à frequência média de passada, no sexo masculino observamos valores significativamente mais elevados no grupo de elite, quer-nos 100 quer-nos 200m. Contudo, para o sexo feminino, as diferenças entre grupos foram mínimas (não significativas), sendo o valor médio mais elevado no grupo regional para os 100m e no grupo elite para os 200m. Assim, parece que no sexo masculino, a melhor prestação do grupo elite resultará de um efeito combinado de valores superiores na amplitude e na frequência de passada. Isto significa que tanto diferenças nos níveis de força específica quanto diferenças na coordenação intermuscular parecem determinar a evolução em provas de velocidade para o sexo masculino. O mesmo não se pode concluir para o sexo feminino. Com efeito, os valores muito semelhantes na frequência de passada, indicam que as diferenças na prestação derivam quase exclusivamente das diferenças na amplitude de passada. Logo, serão prioritariamente as diferenças nos níveis de força específica que contribuirão para a evolução das mulheres nesta prova. Como suporte adicional desta ideia, verificamos que nos atletas de elite os homens apresentaram valores superiores de frequência média de passada em ambas as distâncias, enquanto que no grupo regional sucedeu o contrário.

Nos atletas de elite, verificamos que não existem diferenças significativas nos valores das três variáveis medidas nos 100m ou nos 200m (para ambos os sexos). O mesmo se verificou para os atletas de nível regional. Não obstante, as diferenças na velocidade média foram maiores no grupo regional, indiciando um menor índice de resistência específica destes atletas. Esta menor velocidade média nos 200m no grupo regional parece resultar prioritariamente de uma menor frequência média de passada, uma vez que a amplitude média de passada foi praticamente igual nas duas provas. Contudo, este raciocínio tende a ser desvalorizado na nossa amostra, dada a inexistência de significado estatístico nas diferenças observadas.

Podemos observar no quadro 1, as diferenças de prestação entre os grupos. Com efeito, mesmo as mulheres de elite apresentam uma prestação melhor do que os homens do grupo regional em ambas as provas (diferenças significativas). Verificamos melhor estas diferenças e verificamos que nos, 100m, e melhor prestação das mulheres resultava principalmente de uma frequência média de passada superior (p<05), já que na amplitude média de passada as diferenças não eram significativas. Estes dados suportam a ideia previamente apresentada de que os atletas masculinos do grupo regional apresentam um evidente déficit em termos da sua frequência média de passada. Nos 200m, não se verificaram diferenças significativas entre as mulheres do grupo elite e os homens do grupo regional nestas duas variáveis, sendo assim mais difícil identificar qualquer destes parâmetros como responsável pela melhor prestação das primeiras.

Conclusão

As diferenças na prestação entre atletas masculinos de elite e atletas de nível regional parecem resultar quer de diferenças na amplitude média como de diferenças na frequência média de passada (tanto em 100m como nos 200m). No caso de atletas do sexo feminino, as diferenças de prestação entre os mesmos grupos parecem refletir predominantemente diferenças na amplitude de passada. Logo, é provável que a evolução das atletas regionais dependa principalmente de melhorias nos seus níveis de força específica, enquanto que no caso dos atletas masculinos, parece evidente que, para além deste componente, estes apresentam ainda uma margem de evolução considerável no que respeita à coordenação intermuscular.

Predição da performance de Usain Bolt para o RIO 2016

Andrigo Zaar

Department of Sport Science, Exercise and Health University of Trás-os-Montes and Alto Douro (UTAD). Portugal. IDEAU, Brazil.

Éderson Szlachta

Specialist in Management Information Systems. Anglican College Erechim, Rio Grande do Sul, Brazil.

Resumo: Nos Jogos Olímpicos todos desejam conhecer o homem mais rápido da terra. Usain Bolt bicampeão olímpico e recordista mundial dos 100 e 200m almeja tornar-se uma lenda do esporte ao conquistar o tricampeonato olímpico no RIO 2016. O objetivo foi predizer a performance de Bolt com base na progressão dos resultados desportivos obtidos nos últimos 15 anos. Um modelo matemático de regressão linear com recurso retrospetivo a bases de dados existentes. Verifica-se que os resultados expressos pelo modelo matemático apresentam uma predição da performance para os 100m 9.88s (94,6%) e para os 200m 19.50s (98,4%). Apesar da sua primazia, as evidências não são favoráveis à conquista do tricampeonato olímpico, sua performance lhe assugura uma medalha apenas nos 200m sem quebra de recorde mundial.

Palavras-chave: Atletismo; Performance Esportiva; Modelação.

Abstract: The Olympics everyone wants to know the fastest man on earth. Usain Bolt Two-Time Olympic Championship and world record holder of the 100 and 200m aims to become a legend of the sport to win the Olympic third championship in RIO 2016. The objective to predict Bolt’s performance based on the progression of sporting results over the last 15 years. A mathematical model linear regression with retrospective application to existing databases. It was observed that the results were expressed by the mathematical model predicting the performance feature to 100m 9.88s (94.6%) and 200m 19.50s (98.4%). Despite its primacy, the evidence is not conducive to the achievement of the Three-Time Olympic Championship, your performance you just ensure a medal in the 200m free world record breaking.

Keywords: Athletics; Sports Performance; Modeling.

Introdução

Em 21 junho de 1960, em Zurique, na Suíça, o alemão Armin Harry surpreendeu o mundo ao alcançar o que foi considerado o limite fisiológico para os 100m rasos com 10s. Foi em 20 de junho de 1968, em Sacramento na Califórnia que Jim Hines correu os 100m quebrando esta barreira, com 9.9s. Nos anos seguintes muitos velocistas correram esta distância abaixo dos 10s, mas 31 anos foram necessários para diminuir o recorde de Harry por 0.14s (Carl Lewis, 25 de agosto de 1991, em Tóquio, Japão). O atual recorde mundial de 9.58s foi estabelecido por Usain Bolt, que também detém o recorde mundial dos 200m 19.19s no 12º Campeonato Mundial de Atletismo em Berlim, Alemanha (2009).

Nos últimos anos muitos pesquisadores tem investigado a evolução da performance dos corredores (Gómez et al. 2013; Zaar et al. 2013; Barrow, 2012; Majumdar & Robergs, 2011). O desempenho de Usain Bolt nos 100m é do nosso interesse, uma vez que atingiu, até agora, acelerações e velocidades que nenhum outro corredor já obteve.

Nesse sentido, o objetivo deste estudo foi predizer a performance do bicampeão olímpico e recordista mundial Usain Bolt para o RIO 2016.

Metodologia

A pesquisa foi do tipo descritiva, com dados quantitativos e com recurso retrospetivo a bases de dados existentes. A amostra foi constituída pelos tempos registrados no ranking mundial da IAAF (International Association of Athletics Federations) nos últimos 15 anos alcançados pelo velocista Usain Bolt nas provas de 100 e 200m. Os dados recolhidos no âmbito deste estudo foram organizados para formulação de um modelo de predição da performance para os Jogos Olímpicos do RIO 2016.

Modelação Matemática

Para o cálculo da predição da performance dos resultados desportivos por distância, foi aplicado o modelo matemático de previsão de resultados através de regressão linear expresso pela equação:

y=m*x+b

Sendo: y – Previsão; m – Inclinação da Regressão com base nos valores conhecidos;

x – Referência futura para obtenção da Previsão (idade do atleta no dia da competição);

b – Intercepção da Regressão com base nos valores conhecidos.

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No sentido de relativizar a pontuação da prova de acordo com a idade em questão, de tal forma que a pontuação correspondente a um determinado tempo seja coerente com o constrangimento fornecido pelo recorde mundial (equivalente ao escore de 1.000 pontos) na referida prova e coerente com a idade no qual este tempo é obtido, foi utilizada a média dos tempos do atleta ao longo da sua carreira, retirada da tabela de rankings atualizado da IAAF. Desta forma, uma constante (Cprova) específica, para as provas de 100m e 200m, foi calculada.

Análise Estatística

Para o cálculo da predição da performance dos resultados, foi utilizado um modelo de regressão linear obtendo-se assim a marca predita para o RIO 2016.

Resultados

Na tabela 1 e 2, são apresentadas as marcas que serviram de base à construção do modelo de regressão em cada distância. Na tabela 3, são evidenciados os resultados que decorreram da análise das marcas de Usain Bolt, com o cálculo da predição da performance para o RIO 2016. Este tende a obter 9.88s nos 100m e 19.50s para os 200m.

Tabela 1 – Principais resultados de Usain Bolt para os 100m rasos

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Tabela 2 – Principais resultados de Usain Bolt para os 200m rasos

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Tabela 3. Equações de regressão linear para obtenção da predição da performance

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Ao analisar a evolução dos resultados desportivos confrontam-se os valores preditos pelos modelos matemáticos em função das marcas obtidas por Bolt ao longo do tempo (Figura 1 e 2). Verifica-se um declínio da performance nos 100m e um incremento do rendimento ao longo do tempo nos 200m.

Figura 1 – Predição da performance para os 100m rasos

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Figura 2 – Predição da performance para os 200m rasos

Discussão

O propósito deste estudo foi predizer a performance de Usain Bolt, o homem mais rápido da terra, bicampeão olímpico dos 100 e 200m para os Jogos Olímpicos do RIO 2016.

Bolt pode ser o melhor velocista que já existiu, no entanto, poucos teriam imaginado que ele iria correr tão rápido os 100m depois de passar a treinar para os 200m e 400m na adolescência. Seu treinador decidiu mudá-lo para os 100m para melhorar a sua velocidade básica de corrida. Com biótipo peculiar ninguém esperava que ele brilhasse, ledo engano! Ao invés de conquistar ocasionalmente um centésimo de segundo do recorde mundial, como seus antecessores, ele arrebatou o mundo (Figura 3). Primeiro, ele reduziu o tempo de Asafa Powell de 9.74s a 9.72s em Nova Iorque (Maio de 2008), em seguida baixou para 9.69s (na verdade 9.683s) nos Jogos Olímpicos de Pequim, reduzindo-o drasticamente para 9.58 s (na verdade 9.578s) no Campeonato Mundial de 2009 em Berlim. Sua progressão nos 200m foi ainda mais surpreendente, reduzindo o supostamente o “imbatível” recorde de 19.32s (na verdade 19,313s) de Michael Johnson 1996 a 19.30s (na verdade 19,296s) em Pequim e em seguida para 19.19s em Berlim.

Figura 3. Progressão do recorde dos 100m masculino. Cronometragem eletrônica para 1 centésimo de segundo tornou-se obrigatória em 1977 (Barrow, 2012)

Estes resultados equivalem a 94,6% do recorde mundial nos 100m e 98,4% para os 200m. Ao analisar o desempenho dos medalhistas olímpicos nos últimos 20 anos, a predição da performance de Bolt o levaria a 4ª posição nos 100m e a medalha de prata nos 200m na final olímpica do RIO 2016.

Segundo Barrow (2012), para Bolt melhorar sua marca, precisaria melhorar o tempo de reação no bloco de partida. Os atletas são julgados ter falsa largada quando estes reagem através da aplicação de pressão do pé para seus blocos de partida no prazo de um décimo de segundo da largada. Notavelmente, Bolt tem uma das largadas mais lentas entre os principais velocistas, sendo o segundo mais lento de todos os finalistas em Pequim e o terceiro mais lento em Berlim, quando ele correu 9.58s. A reação e tempos de Berlim para todos os finalistas são apresentados na Tabela 4.

Tabela 4 – Tempo de reação e corrida dos finalistas dos 100m no Campeonato Mundial em Berlim

Na final olímpica de Pequim, o tempo de reação de Bolt foi 0.165s, apenas a frente de Burns, o que permitiu uma velocidade média de 10,50 m/s e em Berlim, onde ele reagiu mais rápido foi 10,60 m/s.

Para Gómez et al. (2013), Bolt possui uma reação lenta, mas não significa que ele tenha um início de prova lento. O velocista possui estatura elevada e membros longos, o que prejudica os movimentos iniciais, com grandes momentos de inércia. Para se mover, atletas do topo levam cerca de 0.3s para sair dos blocos. Bolt poderia iniciar abaixo de 0.13s o que é muito bom, mas não excepcional, então ele iria reduzir o seu recorde de 9.58s para 9.56s. Se ele pudesse obtê-lo de forma consistente, reduziria para 0.12s assim, seria possível obter 9.55s e se ele respondesse tão rapidamente quanto a regra permite com 0.10s, teríamos 9.53s.

Na Figura 4 são apresentados os tempos de reação masculina e feminina preparados por Lipps et al. (2009) tomadas a partir de 425 velocistas nos Jogos Olímpicos de Pequim. O tempo de reação média dos homens foi de 168 m/s (±160-178 m/s) e a média para as mulheres foi de 191 m/s (±180-205 m/s).

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Figura 4 – Tempo de reação dos 425 velocistas participantes dos Jogos Olímpicos de Pequin. Tempos de reação das mulheres são 23 m/s mais lentos do que dos homens (Lipps et al. 2009)

Incontestavelmente esta modelação matemática é apenas uma forma bruta de estimar as marcas de Bolt para RIO 2016 considerando seu desempenho nos últimos 15 anos, são desconsiderados aspectos como auxílio do vento e altitude, fatores que poderiam tornar seu resultado ainda mais surpreendente.

A velocidade do vento é um assunto esquecido no atletismo que pode contribuir com a melhora do recorde mundial. O limite da velocidade do vento para este fim é de 2 m/s, imaginemos que este vento esteja a favor dos atletas, será suficiente para Bolt correr 0,2-0,5 m/s mais rápido (Majumdar & Robergs, 2011). Muitos recordes mundiais usufruiram do vento. O conjunto mais notório de recordes mundiais em corridas de velocidade e saltos horizontais foram estabelecidos nos Jogos Olímpicos do México em 1968, onde o anemômetro gravou 2 m/s no momento do recorde mundial. Mas este certamente não é o caso para o registro corridas de Bolt, em Berlim, ao correr 9.58s a velocidade do vento estava em 0,9 m/s a favor e em Pequim não havia vento, então em condições vantajosas de vento Bolt poderia melhorar o recorde. Para um atleta típico, cerca de 3% do seu esforço é dispendido pelo arrasto do vento (Mureika, 2001), assumindo que Bolt corresse os 100m com vento a favor de 2 m/s, resultaria em cerca de 0.11s melhor em comparação a Pequim. Então, se Bolt combinásse um tempo de reação de 0.12s com uma assistência máxima permitida do vento, ele poderia transformar os 9.58s alcançados em Berlim para 9.50s. E se ele pudesse atingir o limite do tempo de reação teórica de 0.10s, com o auxílio máximo do vento ele estaria chegando a incríveis 9.48s.

É de realçar que Bolt domina as provas de velocidade nos últimos 10 anos e considera encerrar sua carreira no RIO 2016, fato que corrobora com os achados deste estudo, os valores expressos pela análise dos dados revelam que Bolt encontra-se em declíneo da velocidade de base para a performance nos 100m, o que é natural com o passar dos anos, entretanto, permanece soberano nas pistas.

Para quebrar os recordes mundiais Bolt necessitaria da influência de outros fatores, como da altitude (Pritchard, 1993). Cada 1.000 m de altitude vai reduzir seu tempo nos 100m por cerca de 0.03s, devido à queda na densidade do ar (Eriksen et al. 2009). Se ele corresse na altitude da Cidade do México, poderia ser 0.07s mais rápido, no entanto, para fins de registro, os recordes são válidos até 1.000m de altitude.

Em síntese, para Usain Bolt melhorar seu recorde mundial de 9.58s, necessita melhorar o seu tempo de reação, utilizando o limite teórico na largada, onde obteria 9.48s. Com a assistência máxima permitida do vento de 2 m/s, ele pode chegar a 9.45s, e correndo com a melhor altitude legal de 1.000m ele pode atingir 9.43s e 9.41s no México.

Esta evolução surpreendente pode acontecer sem grande progresso da performance de Bolt, ilustrando o quão longe estamos do “limite” do ser humano. A modelação matemática utilizada para a predição da performance nos possibilita verificar que Bolt não é o homem mais rápido do mundo. Seu companheiro de treino, Yohan Blake, que possui a segunda melhor marca mundial para os 200m com 19.26s (vento 0,7 m/s) correu de forma extraordinária, largando letargicamente (0,269s), portanto a corrida de Blake foi 18.99s contra 19.06 de Bolt (Barrow, 2011). Se dividirmos pela metade estes tempos encontramos 9.495s para Blake contra 9.530s para Bolt. São mais rápidos do que o recorde dos 100m por se tratar de uma corrida lançada, apesar do glamour sobre os 100m, são os 200m que você realmente quer ver!

Os resultados obtidos, em conjunto com os fatos apontados na presente discussão, nos deixam ansiosos pelos Jogos Olímpicos do RIO 2016, para testar o nosso modelo com os dados experimentais obtidos a partir de tais registros, bem como, a expectativa se o homem mais rápido na terra é capaz de bater seu próprio recorde mundial mais uma vez.

Conclusão

No presente estudo verificamos que apesar da primazia, as evidências não são favoráveis à conquista do tricampeonato olímpico. Sua performance lhe assugura a medalha apenas nos 200m, sem obtenção do recorde mundial.

Referências

BARROW, J.D. Slow off the mark, Athletics Weekly, September 29th, (2011).

BARROW, JOHN D. “How Usain Bolt can run faster–effortlessly.” Significance 9.2; (2012): 9-12.

ERIKSEN, HANS KRISTIAN, et al. “How fast could Usain Bolt have run? A dynamical study.” Am. J. Phys 77.3; (2009): 224-228.

GÓMEZ, JJ HERNÁNDEZ, V. MARQUINA, AND R. W. GÓMEZ. “On the performance of Usain Bolt in the 100 m sprint.” European Journal of Physics 34.5; (2013): 1227.

LIPPS, D. B., ECKNER, J. T., RICHARDSON, J. K., GALECKI, A. and ASHTON-MILLER, J. A. On gender differences in the reaction times of sprinters at the 2008 Beijing Olympics. American Society of Biomechanics Annual Assembly, State College, Pennsylvania; (2009): August.

MUREIKA, J. R. “A realistic quasi-physical model of the 100 m dash.” Canadian Journal of Physics 79.4 (2001): 697-713.

MAJUMDAR, ADITI, and ROBERT ROBERGS. “The science of speed: Determinants of performance in the 100 m sprint.” International Journal of Sports Science and Coaching 6.3; (2011): 479-494.

PRITCHARD, W.G. Mathematical models of running. SIAM Review, 35; (1993): 359–379.

ZAAR, A. et al. “Performance progression in Brazilian middle-distance runners from early training to peak performance: a pilot study.” Revista Brasileira de Cineantropometria & Desempenho Humano 15.5; (2013): 570-577.